CARTORÁRIOS CADA VEZ MAIS OCIOSOS
16/12/2003
CARTORÁRIOS CADA VEZ MAIS OCIOSOS
Vocês, que acompanham minhas epopéias, sabem que sou advogado. Grande merda, né? Pois bem... tenho uma braba, dessas que acontecem de quando em vez na carreira dos "causídicos" (essa é a designação mais brega de advogado).
Fui protocolizar (verbos maravilhosos acompanham a vida de um advogado) uma petição em Guarulhos, na Justiça do Trabalho. Vamos ao diálogo:
- Doutor, faltôembranco (ele falou desse jeito mesmo)
- Como?
- Faltô! Embranco! Não tem!
- Não tem nada em branco aí!
- Isso mesmo! Precisa pôr!
- Mas o que é isso? - eu já estava mais rindo do que chorando - Tenho que "colocar em branco"? Do que você está falando?
- Do carimbo!
- Que carimbo???????????
- Tem que carimbar "em branco" no verso das folhas! - surpreendentemente, o cartorário retomou as noções da língua para se comunicar com os outros.
- Ah, tá... Eu não carimbei. Não sabia que tinha que carimbar. Nunca precisou.
- É norma nova.
- Bom, tá sem carimbo. O prazo é hoje. Vai assim, tudo bem?
- Não posso aceitar!
- Aceita, ué! Deixa que o juiz decide o que é ou não acolhido.
- Não posso aceitar!
- Certo. Entendo como são essas coisas. Eu também sou assim, sabe? Vejo uns lances por aí e penso "não aceito isso". Continue assim. Mas é meu prazo, então precisamos equacionar. Você protocoliza a petição, mantém sua ressalva pessoal, podemos até conversar um pouco sobre isso, e aí deixamos o juiz decidir se a peça presta ou não.
- São as regras do Tribunal. Não aceitamos petições sem o "em branco".
- Eu não tenho um carimbo aqui. E o prazo é hoje. Você tem como me fornecer um documento escrito com essa recusa?
- Não posso.
- Faça um esforço. Digita aí que não aceitou porque não tinha o "em branco", assina e carimba. Tem a manha?
- Mas para quê?
- É que sem a prova documental terei sérias dificuldades em mandar brasa num Mandado de Segurança.
- Mas, doutor (sempre esse termo, sempre essa coisa de doutor)... Escreve à mão...
- Escrever o quê?
- O "em branco". Faz a mão, no verso da folha. Eu não tenho culpa - ele já tava meio abatido com a minha chatice - por mim aceitaria assim. É que não posso. Escreve a mão, mesmo, de qualquer jeito.
- Hunft... Dá aqui...
50% das brigas que eu compro, acabo não pagando. Deixo para lá, sabe? Tenho o nada salutar hábito de tocar adiante apenas as brigas em que não tenho chances (e, às vezes, nem razão).
Mas vamos falar sobre o sistema do Tribunal do Trabalho. Há algum tempo, passaram a somente aceitar petições que viessem "furadas". O trabalho de furar e colocar nos autos é do cartorário. Ou melhor, era. Agora, os advogados já entregam a folhinha furada.
Confesso que não vejo problemas nisso. Quase todos os escritórios também trabalham com o sistema de pastas suspensas, e não custa fazer um furo para as duas vias (exceto em petições de 9999 folhas, aquelas que precisam do "furadorzão").
Mas carimbar "em branco" é um pouco demais.
Qual seria o próximo passo? Vão vender, nas papelarias, o "Caderno de Processo", para que se promova ação com o mesmo encadernado, sendo que o advogado somente poderá peticionar indo direto à secretaria, para ele próprio colocar a folhinha nos autos (numerando, óbvio)?
As Secretarias das Varas contavam (e contam) com muitos funcionários. Ao que consta, é praticamente o mesmo número de quando não havia computador. Com o advento dessa maquininha serelepe, convenhamos, muita gente se tornou ociosa.
Com o passar do tempo, os Tribunais criam entraves para "poupar" a galerinha da Secretaria. Já são muitos, fazendo pouco (e não adianta falar que é desacato, porque fazem pouco sim). Com os advogados fazendo o trabalho deles, aí complica de vez.
Depois entram em greve (que, em tese, é merecidíssima), e estranham que os advogados não os apóiem. Por que será, né?
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transubstanciado por gravata às 16.12.03 | Alguém?
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