MEMÓRIAS DE UM INTERNÉTICO VENCEDOR
09/10/2003
MEMÓRIAS DE UM INTERNÉTICO VENCEDOR
Tudo que tenho e tudo que perderei devo a mensagens eletrônicas. E-mails, correios eletrônicos. Tudo isso chegou pelo meu Outlook. E vocês saberão por quê.
Recebi uma mensagem que dava dicas de como ganhar um celular Ericksson. Um tanto cético, repassei a mesma. Mas foi um espanto quando chegou para mim o prometido aparelho. Surpreso e feliz, repeti a operação mais quatro vezes. Fiquei com cinco aparelhos de celular. Vendi todos.
Com o dinheiro, pude finalmente comprar meu próprio computador. Não mais usaria meu e-mail grátis em um computador alheio. Enfim, a independência internética. Foi quando recebi uma mensagem ensinando a ganhar dinheiro a partir da minha casa.
Dinheiro fácil, bastaria uma conexão à internet e um pouco de tempo disponível. Eu tinha os dois.
Comecei a ganhar um belo dinheiro. O suficiente para, em três meses, investir na compra de mais três máquinas. Passei a ganhar quatro vezes mais, e em outros três meses comprei doze máquinas. Todas conectadas à internet por acesso rápido.
Em dois anos, eu tinha um verdadeiro batalhão de computadores conectados, e o dinheiro que não parava de entrar na minha conta. Foi quando dei bola a outra mensagem de e-mail.
Eu, milionário, já não tinha mais o tesão do desafio. Foi isso que me resgatou a mensagem recebida. Uma loteria norte-americana, cujo prêmio consistia no tão sonhado Green Card. Assoviando a melodia de Leonard Bernstein de West Side Story, preenchi os cadastros devidos.
E ganhei. Passei a ser cidadão americano. Além de milionário, claro. E sempre expandindo meu negócio de computadores conectados. Já acostumado com a rotina de ganhar dinheiro sem fim, veio até mim um outro e-mail.
Quando mandasse a ducentésima milésima mensagem, ou algo do gênero, simplesmente repassando um e-mail, receberia tantos mil dólares oriundos de uma associação da Microsoft com a Disney. Ou da Disney com a AOL. Ou da Fábrica de Móveis Brasil com a Tamakawi. Não lembro agora.
Sei que com meu exército de computadores conectados poderia facilmente atingir a tal meta em poucas horas; o que não dizer da quantia que ganharia em meses a fio. Resumindo: quintupliquei minha fortuna até que a joint-venture atentasse para o fato de que um colaborador recebia quantia comparável a de um acionista.
Tudo bem ser milionário. Tudo bem ser cidadão dos EUA. Tudo bem ser multimilionário. Sentia que ainda assim faltava algo à minha alma. Foi quando uma nova mensagem colocou de vez a esperança de ter em meu peito a medalha de vencedor internético.
Dizia o e-mail que em alguns instantes, preenchendo uma tal ficha, conseguiria participar da nova edição do Big Brother. Ou Jogo do Milhão. Ou No Limite. Ou Curtindo uma Viagem com Celso Portioli. Não lembro bem, mas sei que era para aparecer na televisão. Na Globo ou com o Silvio Santos, o que para mim dá na mesma.
Algumas semanas depois de enviar meus dados, recebi a confirmação da vitória. Fui escolhido para integrar um grupelho de babaquaras; notadamente sendo eu o único ser digno de nota naquele destacamento de molóides.
Não consegui conter minha alegria, e fui para um bar encher a cara de cerveja. Fui para um dos bares da minha casa, é claro.
Depois de tomar pelo menos umas 50 latinhas, fiz um longo discurso sobre a importância dos e-mails. Do quanto aquele computador (sim, eu comprei o PC do meu amigo) me ajudou. Fiz uma Ode à Internet. Se soubesse tocar algum instrumento, por certo que dali alguma canção nasceria.
Aproveitei para, emblemático, checar minha caixa postal daquele mesmo computador. E então li a tétrica mensagem:
"O pai da Sarahyba (ou Kelly Key, ou alguma outra) morreu envenenado por fezes e urina de ratos que ficaram nas latinhas de cerveja, pelo simples fato de beber direto da latinha"
Aquilo me assustou. Olhei para as tantas latinhas abertas à minha frente. Senti minha garganta esquentar. Minhas pernas ficaram bambas. A respiração ofegante.
E aqui estou, escrevendo estas memórias. Porque sei que de uma hora para outra eu posso empacotar e não conseguiria largar esse mundo sem contar o meu segredo.
Saibam todos, portanto que alçakdjfkfsadlçdlkfllllllllllllllllllllllll
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transubstanciado por gravata às 09.10.03 | Alguém?
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