MOOCA, RIO DE JANEIRO, ARGENTINA

27/08/2003

MOOCA, RIO DE JANEIRO, ARGENTINA

O que há em comum entre esses três lugares? Na minha opinião, tudo. Exatamente tudo. Parece brincadeira, mas cada mínimo detalhe é exatamente idêntico em cada um dos três. Vejamos.


A Mooca é o grande bairro da Zona Leste de São Paulo. Praticamente um bairro nobre. O melhor entre os piores. Morar na Paes de Barros, nos idos da década de sessenta, era coisa para poucos e bons. Poucos, bons e com aquele sotaque inaceitável. Mas va lá.


E hoje? Hoje a Mooca é o retrato da decadência. Parece que toda a cidade de São Paulo avançou, mas a Mooca foi para trás. Retrocedeu. A Paes de Barros virou uma avenida-fantasma. O bairro parece o gramado sobre o qual passaram os hunos.


O Rio de Janeiro era a Capital do Brasil. Capital política, capital econômica, capital cultural. Fervilhava. Todo o Brasil se resumia à Cidade Maravilhosa. Palácio do Catete, Playboys de Copacabana, Bossa Nova.


E hoje? Melhor nem comentar. Perto do que já foi, o Rio de Janeiro é um nada. A melhor cultura que o Rio de Janeiro produziu da Bossa Nova para cá se chama Bezerra da Silva. Com uma ressalva: ele é pernambucano. Los Hermanos não conta, porque Radiohead Cover com Barba de "Paixão de Cristo" com barba Village People/Hippie não merece comentos.


A Argentina centralizava todas as atenções quando o assunto era América do Sul. Aliás, América Latina. Tudo. Até hoje a idéia de que a Capital do Brasil seja Buenos Aires é uma herança desse tempo.


E hoje? Pediram penico. Resolveram sacar todo o dinheiro dos bancos e - eureka! - o dinheiro não existia. Claro. Nem nos EUA ou na Suíça dá certo fazer um saque-em-massa. Princípio basilar da economia. Mas ninguém conta com um ambiente instável ao ponto de ocorrer essa hecatombe. Ou melhor, ninguém contava ATÉ o caso recente da Argentina. Isso porque não entrei em detalhes futebolísticos.


Mas é isso. São três sítios (no sentido bucólico/anti-progressista, mesmo) cercados de "tentativas de desenvolvimento". Deve ser duro para a Mooca, que é um bairro de certo charme, ver o Tatuapé passar-lhe rasteiras diárias. Até pipoqueiro prefere abrir barraquinha no Tatuapé, porque na Mooca, em se plantando, nada dá.


Os cariocas devem querer arrancar a calça pela cabeça ao saber que TUDO QUE ACONTECE DE BOM, ACONTECE EM SÃO PAULO. Com exceção de Show dos Los Hermanos (evento obviamente mais corriqueiro naquela praça).


E os argentinos? Já pensou que amargura saber que os panacas do Brasil são melhores em praticamente tudo? Sim, aquele povinho que fala português e possui um índice de consumo de literatura comparável ao de uma manada de búfalos.


Nos três lugares o povo é nervosinho, esquentado, bairrista e até hoje acha que mora num lugar bacana. Nos três lugares o futebol inexiste, embora já tenha sido algo destacável no passado. Nos três lugares a política virou coisa de coroné. Nos três lugares eu posso morrer de tanta porrada só por ter falado mal de lá.


Pode-se dizer que a Mooca seja um Rio de Janeiro em Sampa. E que o Rio seja uma Argentina no Brasil. E que a Argentina seja a Mooca do mundo.


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