SALVAR VIDAS

04/08/2003

SALVAR VIDAS

Já salvei uma vida. Sim, já salvei. Mas não fiz isso sozinho. Tive a ajuda de Léo, amigo de Ubatuba. Foi assim: estávamos pegando onda, lá bem no fundão. E então ouvimos uma gritaria vindo da praia. Parecia uma multidão reclamando conosco. Em princípio, pensamos em rir.


Que nada.


Havia próximo de nós um sujeito aparentemente boiando, mas visivelmente chapado. Remamos até ele e vimos que estava meio desacordado, com um cheiro fortíssimo de cachaça. Talvez pareça simples, mas não foi nada fácil levá-lo de volta à praia.


Isso porque a correnteza estava muito forte. E em dado momento, sabíamos, as ondas começariam a estourar na nossa cabeça. Na nossa tudo bem, mas tínhamos ali um "carona". Bom, fomos assim mesmo. Não tinha um helicóptero nem algum outro meio.


Ondas na cabeça, tombos, desequilíbrios, mas chegamos. O cara, cambaleante, caiu na areia. Fomos aplaudidos. Depois de um tempo, esse mesmo cara que salvamos apareceu e nos abraçou, elogiou, fez o diabo.


Engraçado que nunca tinha lembrado disso. Fui lembrar outro dia, e por um motivo meio drástico: Léo morreu.


Sim, ele morreu. Bom, grande coisa para vocês, né? Todo mundo morre. Mas esse cara era um puta esportista; não fumava, não enchia a cara, tinha uma vidinha até que regrada. Mesmo no auge da "fase baseado", de todos lá de Ubatuba, ele pegava bem leve.


Ah, mas são esses mesmos que morrem cedo, não é mesmo? Sempre que ouvimos de alguém que morreu, essa pessoa era esportista, era abnegada, era celibatária, era isso e aquilo. Nem adianta elogiar; as pessoas têm o péssimo hábito de maquiar defuntos com palavras elogiosas, e agora sinto-me vítima de uma arapuca por mim sempre criticada.


Conheci Léo no ano de 1984. Desde então, com as típicas variações de "galera-de-praia", fizemos parte das mesmas turminhas. Tivemos um pequeno afastamento quando, além de amigo, ele passou a acumular a função de cunhado. Mas foi algo rápido.


Depois, por força das circunstâncias, todos dessas turminhas foram se afastando. Soube de sua morte pelo meu irmão. Não fui para o velório nem para o enterro: não somente porque fiquei sabendo já muito tempo depois do ocorrido, mas também porque moramos em cidades distintas.


A vida é assim, né? E que bosta de vida...


Ficamos sabendo da morte de um amigo de infância, sem tempo até de comparecer à missa de sétimo dia. Somos pessoas ocupadas. Ocupadíssimas.


É, Léo... Essa correnteza é brabeira, meu caro.


Posts similares:
REVEILLON ECUMÊNICO: O APLIQUE
O gato subiu no telhado
Adeus: a senhora do café, o tchau para o pai e o último dia

transubstanciado por gravata às 04.08.03 | Alguém?



(Os comentários abaixo exprimem a opinião dos visitantes, o autor do blog não se responsabiliza por quaisquer consequências e/ou danos que eles venham a provocar.)

Atalho pra o formulário

Comentários:

Sem Comentários para esse post ainda...


Deixe seu comentário:

Seu endereço de email não será exibido nesse site.
Sua URL será exibida.