COMO COMPOR UMA CANÇÃO BREGA
29/06/2003
COMO COMPOR UMA CANÇÃO BREGA
Na semana passada, falamos do que é preciso para ser um cantor brega. A trilogia continua. Agora veremos os requisitos de uma canção brega.
Quando ouvimos aqueles grunhidos e acordes simplórios, logo imaginamos que a canção foi bolada em um minuto. Bobagem. Talvez tenha sido, cruamente, composta em três segundos. Ou, dada a amplitude intelectual dos compositores, em cinco anos.
Enfim, o importante é saber que não se "escreve uma musiquinha" e sai cantando por aí. Que nada! Há vários estágios e etapas. A coisa é bem mais complicada que se imagina.
Duvidam? Então vejam só:
Nome
Sim, a música precisa de um nome, e o pessoalzinho cafona é melhor do que qualquer outro quando se trata da arte do batismo. São verdadeiras feras. Desde aqueles monstrengos onomásticos de junção, como os nomes que "unem" dois nomes, à adaptação de nomes estrangeiros (Waldisnei, p.ex.), ou ainda aquelas coisas tipo Odvan, que veio da música "O Divã", do Roberto Carlos.
Resumindo, esse pessoal não iria marcar bobeira na hora de colocar nome na música.
Ocorre que, independente da verve criativa dos nossos colegas do brega, há alguns critérios a ser observados quando da denominação de uma música. Vejamos os três casos mais clássicos:
Nome Coreográfico:
Auto-explicativo. É aquele que começa com "a dança....". Essa turma já percebeu que não adianta colocar um nome rebuscado, porque o povão vai sempre chamar de "a dança do....". Desse modo, os "compositores" preferem já usar um nome mais fácil.
Nome da Banda:
Um dos truques mais ridículos é enfiar o nome da banda (ou do vocalista) no refrão de uma música. Planet Hemp e Charlie Brown, além de copiar riffs de bandas gringas, gostam de fazer isso. O pessoal do brega, em geral, também não fica muito distante.
Apelido:
Esse fenômeno acontece quando o compositor não foi talentoso o suficiente para colocar um nome fácil. Aí, claro, a música é chamada por algum apelido. Quase todos os apelidos começam com "Melô". Afinal, para essa gente, "canção" e "melodia" são a mesma coisa. Irônico, mesmo, é ver que as "melôs" têm sempre a mesma "melodia". O que muda é a letra.
Letra
Como sabemos, e lamentamos, essas músicas têm uma letra. Até seria o caso de criar um movimento, no sentido de ABOLIR AS LETRAS DE MÚSICAS BREGAS. Ficaria apenas um grunhido-padrão, para todas. Pensem bem, seria mais prático e menos dolorido aos nossos ouvidos.
Vejamos, abaixo, a estrutura básica de uma letra brega:
Versos:
Nada muito complicado. Tudo bem óbvio. E nada precisa fazer sentido. Você pode soltar a seguinte brasa: "pau que nasce torto nunca se endireita". E depois emendar: "domingo ela não vai... vai, vai...". Que tal? Pode mandar bala. Nada de preocupações com lógica, sentido, e outras coisas que compõem a linguagem e a comunicação do Homo Sapiens. Comporte-se como uma anênoma compositora.
Refrão:
Deixe de ser anêmona por alguns instantes. Afinal, o refrão é aquela parte em que os panacas vão gritar quando sua música for tocada em algum bailinho, rádio AM, ou outra circunstância. Você pode colocar o nome da banda no refrão, como já vimos no outro tópico. Mas é recomendável usar alguma das artimanhas abaixo:
- Palavrão
- Piadinha
- "Apelo Sexual"
- Gritaria
- Palmas, Assovio ou algum grunhido
Não invente gracinhas do tipo "música sem refrão", ou então "refrão dodecafônico". Sem firulas, ok? Manda bala na fórmula e corra para o abraço da galera. Não se esqueça de que você não tem talento nem mesmo para fingir que tem talento.
Rimas:
Sabe aquelas rimas internas do Caetano Veloso? Sabe as rimas invertidas do Chico Buarque? Sabe as rimas inusitadas do Djavan? Até mesmo aquelas coisas do Gil? Pois é. Esqueça. Trate de fazer um feijão-com-arroz, mesmo, e dê-se por satisfeito.
Preparamos um glossário simples, com rimas já testadas e aprovadas pelo público em geral já de alguns anos. Podem copiar à vontade. Literalmente, são de domínio público:
amor - dor
amor - calor
cidade - felicidade
criança - esperança
solidão - paixão
noite - açoite
mel - fel
Abuse das rimas de mesmo verbo: "amar, casar, apaixonar". E não economize rimas em "ão". Aproveite que apenas os brasileiros pronunciam esse fonema e DESÇA A MARRETA NO "ÃO". Coração, mão, melão, pavão, paixão....
Acordes
Ei, que cara de susto é essa? Calma! Ninguém precisa saber tocar nada! É que a palavra certa para definir o seu barulhinho é "acorde". Mas fica frio. Relaxa.
Seguinte, pode descer o braço no violão ou no tecladinho. Sem neuras. O importante é ter uma bela ferramenta de afinação por computador. Isso também serve para a voz. Então, como eu disse, sem neuras.
Quando algum produtor colocar "nos eixos" a sua barulheira, provavelmente ele o fará dentro de acordes simples, compassos descomplicados. O mesmo nível de complexidade daquela já mencionada buzinadinha: "pampararampam...pampam!".
Ritmo
Também não é para difundir o pavor! Ninguém precisa saber tudo de batucada, ou das novas tendências musicais. Mais uma vez: SEM NEURAS.
Abaixo, preparamos uma lista das "desculpas rítmicas" que eram dadas ao longo dos anos. O que rolava? O caboclo compunha, vamos supor, "atirei o pau no gato". Aí, dependendo da época, ele era obrigado a colocar umas traquitanas só para dizer que a música era "adequada ao seu tempo".
E TODA MÚSICA BREGA É ADEQUADA AO SEU TEMPO. Para norteá-lo quanto a isso, vejam o simpático retrospecto que elaboramos:
Anos 60 - Influência do Rock
Na teoria:
Compositores, cantores, bandas e afins, todos, buscavam as influências do que de mais moderno havia na música mundial. E essa modernidade apontava para os lançamentos do "rock", tais como Revolver, SgtPeppers, e afins.
Na prática:
Era uma cópia descarada dos Beatles. Cópia sem vergonha, mesmo. E, claro, versões bem pioradas. Se até hoje o Oasis não conseguiu imitar direito, imagine o Renato e seus Blue Caps.
Anos 70 - Influência de Disco e Soul
Na teoria:
As canções recebiam um tratamento mais moderno, inserindo batidas típicas do "Disco", além das influências da "Soul Music" na cantoria.
Na prática:
Era uma mistureba ridícula. As canções imitavam James Brown, mas também imitavam aquelas batidas "Disco". Tudo descaracterizado, descontextualizado. Um lixão, isso sim.
Anos 80 - Influência do NewWave
Na teoria:
O NewWave foi celebrado como uma adaptação do punk ao pop, ou seja, a simplicidade dos acordes do punk, com uma deliberada (e muitas vezes brincalhona) associação comercial. Cores berrantes e batidas excessivamente repetidas davam o visual e o tom.
Na prática:
Era um bando de coió com calça xadrez e camisa verde limão. Cantavam as mesmas músicas idiotas, mas agora com tecladinhos ridículos e batidas intoleráveis. E só.
Anos 90 - Influências Regionais
Na teoria:
Após desastres como Lambada e Sertanejo, os músicos entenderam que o negócio era "flertar" com ritmos regionais. Assim nasceram novas bandas e novos ritmos. Basta lembrar que os Raimundos foram considerados precursores do "forró-core" (forró com hardcore).
Na prática:
As mesmas bandas, tocando o mesmo lixo, mas agora com um idiota tocando pandeiro ou berimbau.
Anos 2000 - Influências do Techno
Na teoria:
Desde o Kraftwerk que as batidas eletrônicas foram tomando conta do gosto dos jovens. Do quarteto alemão a Fatboy Slim, muita água passou debaixo da ponte.
Na prática:
A mesma lengalenga, só que com uma batida de "tuts-tuts". De vez em quando, algum DJ engraçadinho pega uma música e mexe aqui-e-ali, só para falar que "mixou". No mais, house, dance, trance, techno, tudo isso tem o mesmo significado prático: nenhum.
Parcerias
Há dois tipos de parceria: a de criação, e a de execução. O primeiro tipo é perigosíssimo, pois coloca em xeque a breguice do compositor. Assim, uma música do Zé da Esquina, em parceria com um medalhão da música, convenhamos, acaba transformando o coitado do Zé num "pretendente a músico sério". E lá se vai, pelo ralo, todo o seu árduo trabalho brega.
Então, limitemos as parcerias ao âmbito da execução. Aí pode. Até pega bem para o brega, de vez em quando cantar com alguma figuraça.
Coreografia
Fundamental. Sua dança PRECISA ter uma coreografia. Dança da bundinha, dança da motinha, dança disso, dança daquilo. Faça também a sua. E há várias categorias:
Partes do Corpo:
Bundinha
Peitinho
Claviculinha
Tendãozinho-de-Aquiles
Animais:
Elefantinho
Passarinho
Pernilongo
Ornitorrinco
Objetos:
Motinha
Manivela
Cinzeiro de Acrílico
Correia dentada de Dodge
Então é mais ou menos isso, rapaziada. Acho que já dá pra compor uma musiquinha brega, né?
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transubstanciado por gravata às 29.06.03 | 1 comentário
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Comentários:
com as suas dicas vou fazer brega para vender para algum desses que vão no faustão ou no Raul gil rsrs
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