COMO SER UM CANTOR BREGA
23/06/2003
COMO SER UM CANTOR BREGA
É normal que a galera saia por aí xingando algum “cantor brega”. O mesmo se dá, por óbvio, em relação às bandinhas cafonas. Mas pera lá! Vocês pensam que é assim tão fácil? Acham que não há pedras no caminho dessa gente?
Bobagem.
Veremos a seguir que a rapadura é doce, mas está bem longe de ser mole. Há uma série de etapas que precisam ser seguidas à risca.
Sintam o drama:
Nome
Taí um lance curioso. Nomes que hoje podem ser considerados bregas, talvez no futuro sejam o máximo da elegância. Isso acontece. Então é preciso ter MUITO CUIDADO na hora do batismo da breguice.
Vejam alguns exemplos de nomes que no passado seriam bregas, mas agora são aceitáveis:
- Raimundos
- Trio Mocotó
- Los Hermanos (*)
- Otto
Agora, vejamos o contrário; nomes que hoje são bregas, mas já foram chiques:
- Engenheiros do Hawaii (com os dois “is”, então...)
- Paralamas do Sucesso
- Ednardo
- Belchior
Há nomes, porém, que SEMPRE SERÃO BREGAS. Atentem para os exemplos a seguir, e tratem de criar algo parecido:
- Trio Parada Dura
- Tiririca
- Lindomar Castilho
- Raimundo Fagner
Visual
O “visual” enfrenta o mesmo problema dos nomes, como é notório. As calças boca-de-sino, por exemplo, já foram o máximo da moda. Caíram em desuso. Tornaram-se o cúmulo do cafona. E nos anos 90 voltaram como algo “da moda”. Vai entender...
As costeletas também. O visual “Seu Madruga” já foi o padrão. Depois, claro, pararam com essa baboseira. Aí, figuras como o José Rico (que faz dupla com o aclamado Milionário) eram tratadas como cafonas. Mas depois as costeletas voltaram à moda.
Dessa maneira, é muito complicado dizer que tipo de roupa ou visual seja “ideal” para alguém que pretende embarcar na onda brega. Mesmo assim, montamos uma pequena listagem do que, atualmente, possa ser considerado “brega”:
- Cabelinho Mullet;
- Bigode-Solo (sem barba ou cavanhaque);
- Camiseta com mensagem;
- Calça Santropeito;
- Cinto com fivelona;
- Sapato com meias brancas ou tênis “futurista”.
O ideal é usar TUDO JUNTO. Além disso, como vocês notaram, selecionamos apenas itens que são facilmente encontráveis. Não somente a extravagância é brega. Vejam o caso do Falcão... Em vez de brega, tornou-se praticamente um paradigma da estética universal.
Sotaque
Qualquer que seja sua origem, ela deve ser acentuada ao máximo. O sotaque é um instrumento de forte persuasão. Vejam o caso do Dhomini. No dia-a-dia do Big Brother, falava como uma pessoa normal. Mas era só aparecer o Pedro Bial que o bichinho se transformava no Nerso da Capitinga.
Todos os bregas são assim.
Você, é claro, fala normalmente (por “normalmente”, já compreendemos aqueles erros idiotas que provavelmente você comete, como “há tantos anos atrás” ou “pra mim fazer”). Assim sendo, é bom treinar seu sotaque.
Bordões
Além do sotaque, você deve ter uma série de frases feitas, pois servirão para identificá-lo. Seu sucesso será comprovado quando alguma pessoa citar um de seus bordões da seguinte forma: “como diria o fulano, é tal tal tal”.
Algo assim:
- “Como diria o Falcão... I’m not dog no...”
- “Como diria Tiririca… Não sei se tu me ama, pra que tu me seduz...”
- “Como diria Lindomar Castilho... Você é doida demais...”
- “Como diria Los Hermanos... Ôôôô, Ana Julia!!!”
Isso, além de ser uma comprovação do sucesso, também serve como marketing. Afinal, para o brega, é fundamental estar na boca do povo.
Em geral, essas frases são extraídas do seu repertório. Mas você também pode lançá-las em todas as entrevistas. Para efeito de marketing, porém, não é razoável que sejam mais do que três.
Comportamento
Calma! Você vai continuar sendo o mesmo idiota de sempre. Até porque isso é incorrigível. Ocorre que, POR MARKETING, e exclusivamente por força disso, alguns comportamentos devem ser minuciosamente planejados.
Em primeiro lugar, você DEVE FINGIR QUE TUDO ISSO É SÉRIO. Claro! Nada de cair na gargalhada quando te chamarem de “brega”. Senão você entrega o ouro. Tem que fazer aquele olhar ríspido, e continuar cantando, manter a pose de “eu-faço-isso-porque-eu-realmente-acredito”.
Funciona que é uma beleza!
Até Rogério Skylab, cujo maior mérito artístico é falar palavrões para o deleite de adolescentes, finge que sua “obra” seja algo sério. E até assevera, em entrevistas, que se trata de um trabalho “pra valer”.
Ou seja, se o máximo da patacoada diz que é sério, é porque o negócio é falar que é sério. Siga os mestres.
Repertório
Cada brega com seu repertório correspondente. A Família Lima manda a “Primavera”, do Vivaldi. O Gilliard colocou o povo para dançar com a musiquinha da pulga e do percevejo. Nahin regravou “Dadada”, do grupo alemão “Trio”, cunhando versos como “se eu pedir você me dá... um copo de guaraná...”.
Assim você precisa ter talento para compor ou garimpar sucessos brega, pois esses vão de clássicos seculares a músicas jocosas de autoria própria, passando por traduções hilárias ou gravações em inglês-abrasileirado (sim, abrasileirado, porque o que o Falcão faz não tem nada a ver com “aportuguesar”).
O ideal é fazer a “anti-caetanização”. Ou seja, o contrário do que faz Caetano Veloso. Afinal, o cantor baiano normalmente grava alguma música idiota e todos passam a considerá-la “uma música bacana”. Tente fazer o contrário.
Grave Tom Jobim, Chico Buarque, Caetano Veloso, entre outros, de uma maneira que as músicas se transformem em verdadeiros hinos da breguice. Parece impossível? Então fique com boas sugestões:
- Tom Jobim: “Wave”
- Chico Buarque: “Ludo Real”
- Caetano Veloso: “Grafiti”
- Gilberto Gil: “Punk da Periferia”
Se até algumas canções dos “mestres” podem ser transformadas em algo brega (não que já não tenha assim vindo de fábrica), cabe ao candidato a “cantor cafona” dar uma boa garimpada no cancioneiro nacional.
Dica importante: evite coisas manjadas. Não adianta gravar aquilo que TODOS já sabem que é brega. Ao contrário do que se pensa, essas canções já se transformaram em algo “cult”. O legítimo brega não é cult. Ele é brega mesmo.
Duplas, Trios, Bandas
Como sabemos, é possível montar bandas, trios ou até mesmo duplas. Esse negócio de “duplinha”, que sempre foi algo brega, parece que caiu em desuso. Talvez por conta de dois óbitos no universo sertanejo, o mercado “acordou” para o fato de que não precisa ter dois bocós para fazer sucesso.
Basta um.
Mesmo assim, você ainda tem tempo de montar sua duplinha. Bem como seu grupo. Bandas são sempre bem vindas ao cenário brega. Há espaço para todos. Quando menos esperamos, aparece alguma excrescência digna de levar petelecos por todo o sempre. Afinal, para que mais serve uma coisa como o tal “P.O.Box”?
Mas o bacana MESMO é montar um trio. E o legal é colocar “Trio” no nome. TODOS OS TRIOS são bregas. Não adianta. Se é trio, é brega. E fim de papo. The Police, por exemplo, era um trio. Mas nunca foi brega. Por quê? Porque nunca chamaram “The Police Trio”.
Alguns trios cafonas:
- Trio Parada Dura
- Trio Esperança
- Trio Los Panchos
- Humberto Gessinger Trio
- Moreno + 2 (**)
(*) – “Los Hermanos”, para boa parte da Comunidade Blogueira, tem o mesmo valor sacrossanto que “Darth Vader” para os Cavaleiros Jedi, ou “Neo” para os Matrixers, ou o “Spock” para os Trekkers. Resumindo, é algo que MERECE SEMPRE SER ZOADO, só para criar polêmica com um grupo desprezível.
(**) – O filho do Caetano Veloso, que é uma das criaturas mais desafinadas do Universo, tentou se sair com essa “artimanha matemática”. Não interessa. Um mais dois são três. Então é trio. E agora mudaram para “Fulano de Tal mais dois”. Até lançarem o terceiro disco, dando nome para o terceiro “Beltrano”, e de novo a merda de “Mais dois” no nome.
Então é isso, mocidade! Mexam esses traseiros opulentos e tratem de ganhar alguma grana!
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transubstanciado por gravata às 23.06.03 | Alguém?
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