04/02/2012

DOCUMENTÁRIO "TEMPO REI" DE GILBERTO GIL

Não tenho muita certeza agora, mas ACHO que é de 1997. Trata-se de "Tempo Rei", um brilhante documentário sobre Gilberto Gil que, sabe-se lá o motivo, ficou perdido. Resgato o audio de uma das melhores partes dessa coisa linda.

Gil e Caetano, tocando em Salvador, nas pedras à beira mar. Muito foda. Em alguns momentos o vento atrapalha a captação do microfone, mas obviamente FODA-SE. É um puta registro de uma música foda do mestre Gilberto Gil.


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31/01/2012

PEJOTINHA FAKE: UM NEGÓCIO RUIM E MUITO ARRISCADO

O amigo @mirandanillo escreveu sobre quem trabalha como empregado, mas emite nota como pessoa jurídica. O popular “pejotinha fake”. Recomendo a leitura de seu texto, com o qual concordo integralmente, antes desses meus chatos pormenores jurídicos. Chatos, mas importantes (acreditem).

Pra começo: SIM, NOSSA CARGA TRIBUTÁRIA É MONSTRUOSA E AS LEIS TRABALHISTAS ATRAVANCAM A EVOLUÇÃO DE MUITOS EMPREENDIMENTOS. Isso é fato e, por óbvio, é necessário que todas essas leis sejam modificadas.

Ocorre que... não é permitido descumpri-las enquanto estão vigentes. É o óbvio do óbvio, mas muitas empresas as descumprem sob a desculpa de que “se não for assim, não dá”. Ora, claro que dá. Ter uma empresa é escolha individual, há milhares de outras opções. Quem escolhe um caminho precisa arcar com seus ônus para colher os respectivos bônus. Só o “venha a nós”, mas “ao vosso reino” nada? Aí não dá.

Atuo na área jurídica empresarial há mais de dez anos e já vi praticamente todas as variações do “empregado que emite nota” para que a empresa “economize” verbas trabalhistas. Essa “economia”, na verdade, é criminosa – Lei 8137/90 (especialmente artigos 1 e 2) e Art. 203 do Código Penal.

Sim, a batata do empresário pode assar (não é comum, não acontece com a gente, “ih, nem dá nada”... vai nessa, campeão). Pode dar merda da braba, sim.

Vários mercados não têm a “cultura de reclamação trabalhista” ou, por outra, há aquela assombração pairando sobre demitidos: “se eu puser no pau, nunca mais ninguém me contrata”. Esse é um dos fatores que costumam fazer a mutreta funcionar. Há, claro, o empregado que nem pensa nisso porque considera um “trato”.

Mas e os fiscais? Pois é, eles às vezes ficam meses ou anos sem dar as caras, mas quando aparecem nem sempre as coisas ficam bonitinhas para o lado do sonegador. Fiscais do trabalho, aliás, podem causar algo mais que mera dor de cabeça: multas altíssimas e, evidentemente, a obrigação de recolher tudo que não foi recolhido (calculado sobre O SALÁRIO EFETIVAMENTE PAGO, não sobre aquele, menor, que se pagaria antes). Vão sentindo o inferno.

Ah, sim, daí os empregados podem deixar de lado o medo e entrarem com várias ações. Más notícias para os BENS PARTICULARES DOS SÓCIOS, pois a jurisprudência é consolidada: execução de verba trabalhista ultrapassa a totalidade dos bens da empresa e avança no patrimônio dos sócios. Pois é, entenderam a parte da batata indo ao forno?

Na lamentável hipótese de um ex-empregado X9 que não entrou com ação, mas acha que seria divertido ver o Ministério do Trabalho dando um alô na empresa, vejam só que coisa linda. Aqui, tabela fixa; aqui, a variável. Notem que, p.ex., contribuições sociais impagas geram multa de 75% do valor devido (além e continuar “devendo o devido”). E isso vale para salário, horas extras, FGTS etc. Uma multa para cada um, e por pessoa.

HÁ RELATOS de fiscais que não lavram multa alguma (e não falo aqui de “acertos”). O que fazem? Dão um pequeno prazo para que a empresa se regularize. E o que é isso? RECOLHER TODAS AS VERBAS DEVIDAS (tributárias, fundiárias e salariais), REGISTRAR TODO MUNDO etc. Daí, segundo os mesmos relatos, ele volta e fica tudo ok.

Se uma empresa tem uns 10 empregados nessa situação, todos há mais de um ano, pode imaginar O TAMANHO DO ROMBO. Mas há sempre a hipótese de não regularizar nada, fechar a empresa, ficar devendo e rezar para que ninguém ainda assim entre com a reclamação para não perder até os bens pessoais.

Creio que não vale a pena, portanto, usar o expediente Mandrake do “pejotinha” em cima de empregado regular. E o que é o vínculo de emprego? Simples, pois é objetivo quanto a quatro itens: subordinação (há um chefe mandando), remuneração (o trabalho não é voluntário, há contraprestação financeira), pessoalidade (determinado indivíduo precisa estar lá, sem a possibilidade de mandar um substituto quando bem entender) e habitualidade (dias e horários impostos pelo contratante/empregador – e até DIARISTA não é descaracterizada por isso, sério, mesmo indo uma vez por semana).

Há ainda um quinto elemento de vínculo, mas funciona mais nos debates acadêmicos ou para reforçar relações: a “alteridade”, ou seja, “o outro” – é necessário que não haja confusão entre as pessoas etc. (mas a subordinação já resolve esse problema a contento, sem precisar de rococó desse gênero).

Enfim
CLARO que é difícil empreender qualquer coisa no Brasil, mas não adianta usar a dificuldade como desculpa para burlar a lei (até porque existe sempre a opção de simplesmente não abrir uma empresa, contratar menos gente, realizar uma TERCEIRIZAÇÃO DE FATO etc.).

O papo de que “nunca deu nada e nem vai dar” é um dos raciocínios mais imbecis e ao mesmo tempo mais desmentidos desde que o mundo é mundo (serve para brigas domésticas, relação de trabalho, sonegação fiscal, compra de produtos roubados e até doenças venéreas).

Agora, se o empresário sabe mesmo de TODOS esses riscos e ainda assim tá vacilando, convenhamos, não pode depois chorar. Aos que não sabiam até agora (olha o migué), vamos registrar a turminha aí, né?


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24/01/2012

EXPRESSÕES POPULARES: UM IMPASSE PARA OS LINGUISTAS

Entre os estudiosos da Língua Portuguesa, há o famoso embate entre gramática normativa e a linguística moderna. A primeira determina regras, a segunda permite o que serve para comunicar, independentemente da estrita correção da norma. É um resumo tosco, mas foi o que deu neste parágrafo.

Esses linguistas, em sua maioria, são também militantes ligados a ideologias, e isso não depõe contra nem a favor, mas é um dado interessante se visto sob outra perspectiva. Acompanhem.

Pelo pensamento da linguística, não há correto ou incorreto, e a coisa descamba até mesmo para a luta de classes. Ocorre que o “povo” (palavra usualmente empregada para designar pessoas em situação hipossuficiente) não fala apenas “nóis fumo” em vez de “nós fomos” ou “a gente vamos” em vez de “a gente vai” etc.

Esse “povo” também fala “preto”, em vez de “afrodescendente”; “bichona”, em vez de “homossexual”; “dois baitola” em vez “casal homoafetivo”; “burguês safado”, em vez de “possuidor de condições financeiras adequadas a gastos exorbitantes”. Enfim, vocês pegaram o ponto.

E adianto a resposta óbvia: SEI que o papel da linguística é tratar da comunicação, não ENDOSSA expressões discriminatórias ou preconceituosas e, em tese, não há contradição teórica. Em tese, sim. Teórica, talvez. Ou melhor: há sim contradição.

Explico.

A única óbvia maneira do “povo” (é, eu sei...) ADOTAR e COMPREENDER as expressões politicamente corretas é por meio da instrução, e especificamente a gramatical, a da Língua Portuguesa. Sim, a conscientização social é importante, mas sem aprender o “português do ginásio” ninguém formula ou mesmo adota algo como “ítalo-americano” – vai de “carcamano”, que é mais fácil.

Não digo aqui que sou a favor ou contrário às expressões de correção política, mas sei que os linguistas modernos (na maioria) o são. E também são contra a adoção de “certo” e “errado” para a gramática, tornando assim desnecessária a instrução do “povo” quanto às normas da língua.

Na minha opinião, aprender a norma culta é importantíssimo, porque não se trata apenas do “povo” como “inventalínguas” (*), mas do “povo” como um grupo que merece e PRECISA ter acesso a essa língua inventada e aprimorada por seus ancestrais – e também regulada por normas estabelecidas por eles próprios. É o mesmo raciocínio que nos leva a ensinar uma criança a falar “água” em vez de “ága” e assim por diante.

Taí o impasse: sem aprender, não há como compreender ou construir uma linguagem nos termos sociais que agradam curiosamente aos que não defendem o aprendizado estrito da norma. O “nóis vai” é primo-irmão do “baiano vagabundo”.

Saiam dessa, agora.

(*) – expressão de Haroldo de Campos, em “Galáxias”.


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21/01/2012

PARTIDARISMO NA CAUSA GAY

O “partidarismo”, do título, não tem a ver com “tomar partido” – afinal, toda causa já parte desse pressuposto óbvio. Falo aqui de partido político, mesmo. A Causa Gay, ao menos no Brasil, é muito prejudicada por conta da associação a partidos ou grupos partidários.

Recentemente, o Papa alegou que a igreja não aceita o casamento gay e, com isso, levou uma saraivada de xingamentos. Falei sobre isso neste texto. Ontem, três muçulmanos foram presos na Inglaterra por um motivo um pouco pior: produziram e distribuíram um panfleto exigindo PENA DE MORTE a homossexuais. Mas não há nem haverá grande grita.

Na visão ideológico-partidária imbecil de vários militantes, os árabes (especialmente os militantes) são o lado “bom” e Israel e EUA são o lado ruim. Essa excrescência dicotômica é partilhada por alguns dos que defendem (ou alegam defender) a causa gay. E então não se fala muito dos extremismos islâmicos.

Para não parecer picuinha contra seguidores mais radicais do Corão, vale citar também o caso de Edir Macedo que “exorcizou” um gay em seu programa na web. Vejam que patético:

E por que raios a militância EM PESO não caiu matando? Porque ele é dono da Record, que é “do bem” e combate a Globo, “maligna”. Desse modo, como no caso dos radicais islâmicos, rola uma vista grossa. O partidarismo e as ideologias malucas vem primeiro, as causas são sempre secundárias.

É interessante, aliás, ao menos tentar entender o mecanismo pelo qual surgem essas lideranças e demais representantes destacados. Como não há eleição para tais cargos, parece ser meio na base do “ele manja disso”, ou então boas e velhas ONGs que não consideram literal o “N” da sigla.

Fica a impressão nítida de que nunca haverá uma efetiva defesa de causa, qualquer que seja, enquanto não houver um afastamento entre seus representantes dos partidos ou grupos políticos aos quais se vinculam direta ou indiretamente.

Serve para homossexuais, feministas, negros e até mesmo a ecologia: nada disso será efetivamente defendido enquanto boa parte dos líderes estiverem ligados a (ou forem dependentes de) interesses partidários. Porque estes muitas vezes não ligam nem para a ética ou o código penal.


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20/01/2012

CARLOS NASCIMENTO E A MEDIOCRIDADE INDIGNADA

De todos os argumentos usados para “desmoralizar” Carlos Nascimento acerca de sua recente diatribe contra a futilidade que impera no Brasil, há dois que merecem destaque: a) ele trabalha no SBT, emissora que definitivamente não se tornou famosa pela densidade intelectual de seus programas; b) ele próprio não é um gênio do pensamento científico.

Isso é bobagem.

Sim, no SBT só passa tranqueira e Carlos Nascimento está longe de um grau elevado de intelectualidade. Mas isso não é motivo para conter seu ataque, e sim subsídio para justifica-lo. Explico: SOMENTE RECLAMA DA “BURRICE DO POVO” QUEM É MEDÍOCRE. O verdadeiro intelectual, aquele que possui o atributo de pensar com certa liberdade ideológica (além de QI com dígitos favoráveis), não entra nesse raciocínio rastaquera.

Isso lembra muito os queixumes quanto à música do povão-pra-valer. Quem as faz não são maestros ou musicistas, mas sim apreciadores de... MÚSICA POPULAR! Como gostam de algo que – para eles – representa algo mais sofisticado, não entendem o porquê do povão apreciar algo “menor” (sem darem conta, claro, que para um erudito a música popular “melhorzinha” é igualmente idiota sob perspectivas técnicas).

Carlos Nascimento, aliás, é a outra face da mesma moeda em que figura sua criticada, a Luíza do Canadá – e também congêneres. Se ela é a ação (criticada) e ele é a reação (previsível e medíocre). Da mesma forma que as redes sociais divulgam a piada dos chamados “memes”, elas próprias tem também seus Carlos Nascimentos que condenam tudo isso a toda hora, reclamando de quão fúteis todos somos etc.

E alguém já parou para pensar em quem, na internê, fala mal da futilidade dos memes e coisas afins? Exatamente: não são grandes pilares da comunidade acadêmica ou científica. São medíocres, patéticos, no máximo exitosos na elaboração de trocadilhos (o que equivale a ter relativo sucesso em produzir algo já nascido como falho).

Carlos Nascimento, portanto, é o representante dessa turma na TV. E a comparação se torna mais adequada pelo fato dele ser do SBT.


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transubstanciado por gravata às 20.01.12 | 13 comentários

18/01/2012

REDES SOCIAIS INFLUENCIAM POUCO NA HORA DA COMPRA

Eis um famoso “aponta estudo”, com o detalhe de ser uma vasta pesquisa feita pela respeitadíssima KPMG e divulgada agora em janeiro. Claro que todos podem fazer suas métricas, mas uma análise global elaborada por uma das líderes mundiais em auditoria e aferições, convenhamos, possui grande credibilidade.

De todos os entrevistados, 80% são envolvidos ativamente nas redes sociais. Um número altíssimo, que talvez pudesse elevar a importância de tais redes na decisão de compra. O problema é que não influi, pois apenas UM TERÇO alega ter influência nas decisões de compra.

O estudo sugere, p.ex., que startups não confiem nas mídias sociais como parte de sua estratégia de vendas. De fato, são números nada abonadores.

Quase a metade dos entrevistados se declara influenciada pelos PRÓPRIOS SITES DAS EMPRESAS, a despeito do terço que se declara mais influenciado pelas redes sociais (como Twitter, Facebook etc.) - chegam a falar especificamente das fanpages.

Brasil: a coisa é ainda pior
A mesma KPMG fez uma outra pesquisa, e esta mostra que mais de 70% das grandes corporações mundiais estão nas redes sociais. Há, portanto, um universo já quase todo preenchido. E nosso país está entre os líderes em presença de empresas nas redes.

O Brasil é o QUARTO COLOCADO nesse ranking, na frente de Reino Unido, Alemanha, Japão, entre outros. Os três primeiros colocados são China, EUA e India – lembrando que o primeiro ainda por cima não é dos mais chegados a abrir as redes sociais para o que bem entendem (até o mecanismo de pesquisa do Google é controlado).

Essa pesquisa é anterior àquela que revela a pouca influência na decisão de compra por parte das redes sociais, o que – até tal época época – permitiria a Sanjaya Krishna, da KPMG, o seguinte diagnóstico:

"Em vez de enxergar nas redes sociais riscos abjetos, os executivos deveriam ser melhor aconselhados a equilibrar o risco de entrar nos meios de comunicação social diante do custo com a perda de oportunidades de não participar. Não se engane, há riscos a serem considerados, e ninguém deve entrar nas mídias sociais sem ter pensado em um modelo de governança associado."

Com os novos dados, talvez os executivos das grandes corporações não tenham assim tanto otimismo. Mas não custa fazer torcida e apresentar prognósticos otimistas.

Lições
Esses dados são péssimos, não adianta negar. E é igualmente pueril brigar com eles, alegar que “percebe coisa diferente” ou algo do tipo. Os profissionais inteligentes tirarão proveito dessas informações para melhorar as eventuais carências de seus clientes – no caso específico, a baixa influência na decisão de compra.

Tudo isso, no fim das contas, representa algo que sempre foi meio óbvio: não há “bolha” de investimento nas redes sociais. Nunca houve.

O conceito de “bolha”, para a economia, pressupõe um GRANDE investimento, em escala mesmo gigante, e que depois se mostra como frustrante quanto ao retorno – foi assim, por exemplo, na época das “pontocon”, algumas vendidas por dezenas de milhões de dólares e simplesmente sem lucro (várias com prejuízo, aliás).

As redes sociais, ao contrário, recebem pouca verba publicitária. Muito pouca, mesmo. Seria uma “bolha” se ao menos houvesse investimento paritário, mas não há; as cifras para as propagandas em redes sociais são ínfimas perto das propagandas em veículos de televisão, publicações impressas ou mesmo portais.

Com tais dados, e vendo pela perspectiva estritamente empresarial, talvez isso não mude muito cedo. Mas permanece o desafio aos profissionais, pois quem conseguir reverter tudo isso (em vez daquela coisa de “só quero reforçar a presença da marca”) pode receber mais grana.

Empresas não jogam dinheiro fora nem pagam para receber poemas em forma de gráficos. Empresas querem lucro. Uns podem brigar com essa verdade óbvia, outros podem usá-la em seu favor na carreira e nas propagandas. Mais ou menos a diferença de quem é mal ou bem sucedido.


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transubstanciado por gravata às 18.01.12 | 2 comentários

15/01/2012

ESTUPRO NO BBB? VAMOS COM CALMA...

Não houve. Ao menos é o que mostram as imagens e não é preciso ser um ~CSI de Youtube~ para chegar à óbvia conclusão. Isso porque estupro não é um conceito filosófico, mas sim tipo penal que decorre ESTRITAMENTE do que está escrito na lei.

Vejamos o Código Penal:

“Art. 213. Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso: (Redação dada pela Lei nº 12.015, de 2009)” (grifos nossos)

VIOLÊNCIA e GRAVE AMEAÇA são condições fundamentais para que haja o crime definido como Estupro, nos termos do Código Penal (é atualmente a legislação que vale, em vez de opinião de gente do tuíter – podem perguntar para magistrados e afins).

Não houve violência. Não houve grave ameaça. Fim. Não foi estupro. Ah, mas foi errado? Depende, é preciso consultar todas as partes, colher opiniões, saber o que aconteceu debaixo do edredon (já que ninguém viu nada).

De todo modo, vejamos o artigo 215 do CP reproduzido a seguir:

“Art. 215. Ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso com alguém, mediante fraude ou outro meio que impeça ou dificulte a livre manifestação de vontade da vítima: (Redação dada pela Lei nº 12.015, de 2009)” (grifos nossos)

O tipo penal transcrito acima diz respeito a Violação Sexual Mediante Fraude (não é Estupro, e não adianta brigar comigo: o código penal vale pelo que nele está escrito, não pelo que as pessoas gostariam que ele determinasse).

A parte complicada desse artigo quanto às interpretações do caso em tela é a “fraude”. O termo, em seu valor absoluto, presume iniciativa do eventual violador, mas é totalmente razoável o debate sobre casos em que há aproveitamento de uma situação. Eis aí um ponto interessante para a discussão qualificada.

E houve, afinal, quem suscitasse o Art. 217-A, que trata do Estupro de Vulnerável mas, à luz dos fatos e das declarações da própria moça do BBB, parece ser totalmente inaplicável.

Ela alega estar consciente. Isso basta para afastar o “Estupro de Vulnerável” – a condição para tanto seria embriaguez completa, a ponto de não haver discernimento ou resistência – o parágrafo que estabelece tais circunstâncias equipara esse tipo de situação à dos doentes mentais e enfermos.

Enfim...
É IMPOSSÍVEL saber o que realmente houve por baixo do edredom do BBB. Aquela que seria a vítima, por sua vez, alega que estava consciente e não houve sexo. São esses os elementos concretos e de fato.

“Ah, mas dá para ver que...” – não é assim que a banda toca. A vítima diz que estava consciente, estava consciente. Peço novamente que não culpem a mim: estou passando o que diz a lei. Não há meio de iniciar uma ação penal (que, por sinal, é CONDICIONADA À INICIATIVA DA VÍTIMA) quando ela própria alega não ter havido abuso nem estado de inconsciência.

Poderia ser algo errado? Sim. Há leis para isso? Sim, também. Mas temos que ter cuidado nessa coisa maluca do efeito manada acusatório. Assim como o código penal vale pelo que é, não pelo que gostaríamos, os atos também devem ser punidos pelo que REALMENTE houve, não pelo que ACHAMOS ter havido ao ver um vídeo de Youtube.

Daí imputam crime de estupro a quem, diante das circunstâncias de fato, não o cometeu e, bom, o natural seria processo criminal de calúnia (atribuir a outrem crime não cometido) e também processo civil de reparação do dano moral decorrente de tal acusação.

Por fim, o criminoso é aquele com condenação TRANSITADA EM JULGADO, depois do devido processo legal que consiste na chance de sua manifestação em juízo. Falamos aqui de um caso que nem foi para qualquer esfera judicial e, mais ainda, a própria suposta vítima afastou basicamente todos os pressupostos de dolo.

Chamar alguém de estuprador mesmo após tudo isso é uma irresponsabilidade tamanha – ou apenas má-fé. Evitem isso.

Se não por cautela, ao menos em atenção à presunção de inocência consagrada pelo nosso sistema normativo. Mas, acima de tudo, por pura e simples noção – esse atributo tão mal distribuído no Brasil.

ps. Tecla Sap - Não estou DEFENDENDO nada nem ninguém, mas sim dando um toque para que o pessoal EVITE acusar ou imputar crimes na hora da raiva ou por qualquer outro motivo passional. TENHO CERTEZA DE QUE NINGUÉM EM SÃ-CONSCIÊNCIA é a favor do estupro. Eu não sou, obviamente. Também sou contra qualquer tipo de abuso de embriaguez total ou coisa do tipo. A tecla sap é necessária porque a internê não é moleza nessa hora.


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transubstanciado por gravata às 15.01.12 | 24 comentários

14/01/2012

FAÇA VOCÊ MESMO: EPISÓDIO DE SÉRIE POLICIAL

Começa aqui a série “Faça Você Mesmo”, um serviço de utilidade pública que busca demonstrar a facilidade de algumas atividades consideradas complexas. Aprendam hoje a fazer um episódio de “seriado de puliça”. É fácil e rápido:

Introdução: Ceninha de “Achar Defunto”
Esse é o GRANDE momento da criatividade, uma das raras ocasiões em que se pode brincar com qualquer elemento ou tema. Claro que geralmente são pessoas em seus passeios matinais, ou trabalhadores matutinos etc. Mas também há cachorros que escapam das coleiras, crianças na areia da praia. Geralmente é o fecho para a abertura da série; mas às vezes há...

Piadinhas na Cena do Crime
Pois é! Pode ser um cara partido em mil pedaços ou uma mulher decapitada. Tanto faz. Algumas séries – pode ser sua escolha manter tal estrutura – adotam o esquema piadinha e/ou frase de efeito (o e/ou é porque há a PIADINHA DE EFEITO!). O inteligentão que vai investigar chega todo onça-pintada e já solta um chiste ~de referência~, faz cara de sabido e aí sim toca o tema de abertura.

Vilões Aparentes x Bonzinhos Suspeitos
O programa precisa durar uma hora, então não faz sentido investigar alguém e tal pessoa já ser a culpada. Nunca. E o fator de complexidade que mais funciona nesse tipo de ~dramaturgia~ é a exposição da dualidade “vilão na cara dura x bonzinho até demais”. Será que é o óbvio culpado ou aquela figura da paz não seria a grande interessada? Jogue com isso. Mas exceto quando há....

A Variável “Coadjuvante Famoso”
Daí não tem como escapar: aparece um “famosinho” (aka gente de outras séries ou mesmo atores de cinema) e já sabemos que é o culpado. Não adianta correr, ele é o culpado e fim de papo. Dizem que em alguns estados nortemericanos cabe pena de morte para roteirista que coloca outro culpado quando há um “famoso” no episódio.

A Fugidinha Idiota
Isso é tão importante quanto a cena de achar defunto. TODO SANTO EPISÓDIO PRECISA TER. Nem tente tirar, pois seria uma corrupção do gênero, uma subversão do estilo, um vilipêndio completo. Funciona assim: algum dos investigados (e nem sempre é culpado, taí um dos charmes da coisa) simplesmente SAI CORRENDO A PÉ quando a polícia chega. É óbvio que será pego, pois são 250 policiais, mas ele corre mesmo assim. Uma saída comum é tal pessoa ser culpada de outro delito.

Do Jogo Duro à Confissão
O fato da série durar uma hora faz com que seja NECESSÁRIO (obviamente) não pegar o culpado logo de cara. Pelo mesmo motivo, entretanto, chega uma hora em que precisa acabar. Muito raramente há um flagrante e testemunhas geralmente são péssimas e suspeitas. Uma das saídas comuns (por incrível que pareça) é o bandido altamente psicopata e inteligentíssimo ceder ao jogo psicológico barato na sala de investigações e, de repente, depois de ANOS sendo frio e calculista, cai aos prantos e confessa tudo com a maior raivinha.

Importante: Submundos em Geral
Alguns episódios acontecem dentro de submundos. TUDO É SEMPRE UM SUBMUNDO. Já vi – é sério – um assassinato cometido numa convenção de anões e, no decorrer da coisa toda, descobre-se que é tudo uma verdadeira máfia perigosa. E assim acontece com o mundo dos colecionadores de selos, profissionais da bocha, sapateadores etc. Há sempre sexo, drogas, subversão, troca espúria de favores e assim por diante. Faça QUALQUER ambiente parecer a máfia russa.

***

Taí. Agora é só preencher os campos corretamente, inserindo diálogos e cenas aleatórias, e seu episódio está pronto.


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transubstanciado por gravata às 14.01.12 | 1 comentário

12/01/2012

O PRIMEIRO AMOR É O VERDADEIRO

Eis uma tese que defendo ou divirjo, a depender de circunstâncias pessoais ou o contexto em que ela se apresenta. De fato, acho que faz sentido e é bem por aí; ao mesmo tempo, há uma dúvida que talvez seja eterna: quando sabemos que determinado sentimento é EFETIVAMENTE amor?

Sentimos algo violentamente forte, vivemos uma relação, terminamos e ainda continuamos sentindo; mesmo sem gostar da pessoa, temos na memória que aquilo, sim, foi um amor verdadeiro. Alguns casos vêm e vão e corroboram tal “certeza”.

Mas, de repente, pode surgir alguém e o sentimento tornar-se MUITO maior que aquele que, até então, era o que considerávamos o amor-amor. Ou ninguém aqui achou que tivesse conhecido o limite sentimental até que outra pessoa apareceu e surgiu algo ainda mais intenso?

Sim, isso aconteceu e acontece com todos. Então voltemos àquele tempo em que achávamos ter amado... Na hora, diante do que (e de quem) até então conhecíamos e sentíamos, era o auge. Nada poderia ser maior. Uma certeza absoluta que tínhamos. E se quebrou depois. E depois.

Daí que, pela lógica, talvez o PRIMEIRO amor seja mesmo o verdadeiro, o maior, o mais intenso. Mas nunca teremos a completa certeza de que o estamos vivendo ou, por outra, que possa acontecer em nossas vidas algo acima disso, no futuro.

Digo isso do PRIMEIRO porque, quando nos pegamos realmente amando (ou supomos que seja essa a situação), logo vem uma outra certeza-do-momento: “aquilo lá de antes não era amor, isso que é”. E assim criamos um mecanismo lógico/sentimental que determina ser o sentimento mais forte o amor de fato, requalificando os anteriores (ou posteriores menos intensos) de outras formas, com a segurança de que não foram nem seriam amores.

E soma-se a isso a complexidade (quase impossibilidade) de conceituar “amor”. A palavra que representa o sentimento entra naquela categoria na qual figura, por exemplo, “liberdade”. Sabemos o que é, podemos explicar, mas é impossível fechar um único conceito – até porque ambas variam semanticamente para cada um.

Por fim, mais um mindfuck, dos infinitos possíveis: há a chance, claro, de uma segunda (ou terceira, quarta...) relação com determinada pessoa ser no fim das contas aquela a despertar algo bem mais intenso, de modo a configurar, assim, o amor – aliado à certeza de que, antes, por mais que fosse forte, não era exatamente esse amor de agora. E assim por diante.

ps - não tinha foto alguma para o tema "amor", então pus essa da Monica Bellucci porque, bom, acho que representa a contento o tópico ora comentado :D


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transubstanciado por gravata às 12.01.12 | 4 comentários

11/01/2012

A “GERAÇÃO INTERNET” E OS TRABALHOS ESCOLARES: EVOLUÍMOS

Tenho ouvido/lido uma ladainha há anos, eis um resumo: a geração de agora, com a internet, não aprende como antes, isso porque eles copiam tudo da internet, muitas vezes no copy/paste, sem qualquer critério. Os choramingos de protesto variam em torno desse raciocínio, enfim.

O que acho: bobagem.

As crianças, hoje, têm condições de aprender mil vezes mais que todos nós, estudantes do primário/ginásio nos anos 80s e até mesmo início dos 90s. É preciso parar com esse bairrismo de gerações que se manifesta ora por meio daquela confusão entre memória afetiva e qualidade artística, ora (como neste caso) na base do famoso (e errado) “no meu tempo é que era bom”.

Não, não era. Era ruim. Péssimo, na verdade.

A professora nos pedia um trabalho, sei lá, sobre Tiradentes. Não havia como fazer uma pesquisa decente e dávamos esse nome o ato de procurar o verbete no índice de alguma enciclopédia (Barsa, Mirador, Conhecer etc.) e depois COPIAR exatamente o que estivesse escrito.

Em alguns casos – e fiz muito isso –, íamos à papelaria comprar uma gravura para colocar na capa do trabalho, devidamente manuscrito em papel almaço. Esse era nosso trabalho de “pesquisa”, algo muito mais físico e braçal que intelectual.

Hoje, há o Google e a criançada digita o nome do que quer, aparecendo um monte de resultados. SOMENTE O ATO DE ESCOLHER O MELHORZINHO já é uma “pesquisa” maior que a nossa d’antanho – afinal, não buscávamos mais que UMA fonte, que era exatamente uma enciclopédia – e esses compêndios sobre tudo são famosos não apenas pela falta do chamado rigor científico como também pelas sínteses exageradas (afinal, se escrevesse a fundo sobre tudo os verbetes reunidos exigiriam milhões de volumes).

Qual exatamente a justificativa, portanto, nessa idéia tacanha de considerar “pior” o que se faz hoje em relação àquilo que fazíamos em nosso tempo? Hoje é bem melhor! Sim, claro que nenhum estudante agora faz uma efetiva pesquisa minuciosa, mas a nossa era tão ruim, mas tão ruim, que buscar no Google é algo mais proveitoso intelectualmente.

E aí entra a parte braçal, curiosamente martelada pelos professores, que em tese deveriam ter uma preocupação maior com o intelecto. Explico. Se um aluno pratica o tal copy/paste, é automaticamente desclassificado. Tira zero. Mas, antes, o que fazíamos? Copiávamos ipsis-litteris o textos da Barsa ou correlatas. A diferença, portanto, era o trabalho braçal de mini monge copista - fora a caminhada à papelaria.

No fim das contas, ninguém aprende de fato nada na escola. Antes, o trabalho “dava trabalho”, hoje é fácil de fazer; mas, antes, não aprendíamos coisa alguma e, hoje, é possível ter ao menos uma noção do tema “pesquisado”.

Claro que ainda está ruim, mas evoluímos. Reconheçam.


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transubstanciado por gravata às 11.01.12 | 6 comentários