17/03/2010

ST. PATRICK, NACIONALISMO E BURRICE

Nacionalistas tendem a ser burros, especialmente quando adotam aquela posição de contestar toda e qualquer manifestação "estrangeira", seja festividades ou esportes, lutando para que algo nacional seja posto em maior destaque. E as aspas no estrangeirismo são necessárias, pois mal sabemos o que se poderia denominar "brasileiro".

Hoje, dia 17 de março, comemora-se o Dia de São Patrício - St. Patrick's Day. Trata-se de festividade irlandesa, em homenagem ao sujeito homônimo que teria pregado o cristianismo na Irlanda. Assim como no Natal, evidentemente, ninguém liga para o contexto religioso e o negócio é festejar: a festa de agora é uma ocasião puramente etílica, em especial para a cerveja.

E a cerveja é tão "brasileira" quanto o futebol - quando se trata de algo estrangeiro agregado e adaptado ao longo dos tempos -, daí o sucesso, a rápida adaptação e a facilidade com que tal "dia" se alastra entre a rapaziadinha descolada e tantos outros.

Assim como a gloriosa bebida não surgiu no Brasil (foi na Suméria, ao que parece), o futebol também não começou aqui, mas na Inglaterra - pertinho da Irlanda, terra da data execrada pelos nacionalistas. E não é só isso: uma porção de outras coisas exaltadas por eles, na verdade, são tão brasileiras quanto um esquimó.

Vejam o samba: é africano. Foi trazido da Bahia para o Rio, mas sua origem é inequivocamente africana, tendo sido adaptado ao longo do tempo pelos brasileiros e, até mesmo, mudado de forma brusca depois da intervenção dos nacionalistas que não aceitavam instrumentos de sopro, entre outras coisas (isso por volta de 1920 - sim, sim, eu li o Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, que remete à brilhante tese do antropólogo Hermano Vianna). E o músico vetado foi ninguém menos que Pixinguinha. Mas sigamos.

Outro símbolo da cultura brasileira é o Carnaval, festa originada na Roma Antiga e definitivamente estrangeira. Não se vê tais idiotas propondo "Semana do Saci", na época dos festejos de Momo, como fazem quando escolinhas infantis sugerem algo para o Halloween ou agora, no dia de São Patrício. Talvez pela antiguidade do Carnaval - mas suspeito que mais pela burrice, já que poucos conhecem a origem da festa.

A lista já está boa, não é mesmo? Cerveja (suméria), futebol (inglês), carnaval (romano-pagão)... O que é "brasileiro" nessa história? Os índios? Quem desses chatos sem vida sexual comemora alguma coisa para louvar Tupã? Nenhum. E muitos fumam Marlboro, esse verdadeiro ícone da brasilidade.

Por essas e outras, aconselho a todos (com idade bastante para isso, é claro) que aproveitem o dia de hoje, ligando ou não para o contexto da festa. E também aproveitem Carnaval, futebol, cerveja e todas essas coisas ótimas que não são brasileiras. Como o samba, aliás. Já ia me esquecendo do samba, quase tão bom quanto o rock, inventado por negros americanos e melhorado por brancos ingleses.

Um dia a gente acerta uma, tenho fé.

Revisão: Hellen Guareschi


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transubstanciado por gravata às 17.03.10 | 18 comentários

15/03/2010

TOP 5 ROBERTO CARLOS

Recebi de meu amigo Ian Black um desses negócios de postagem coletiva, mas ao contrário do que sempre faço aceitei imediatamente. A razão é simples e está no título do post: músicas favoritas do Roberto Carlos. Poxavida, não dá para recusar, não é?

A brincadeira foi motivada por uma exposição na Oca do Ibirapuera, e a sugestão é a de que todos ponham as músicas com áudio. Daí surgiu a idéia (talvez execrada por muitos): resolvi CANTÁ-LAS. E, não contente com a peripécia, também gravar e mostrar a vocês.

(vale lembrar: ninguém é obrigado a ouvir :D)

Desse modo, a seguir estão minhas cinco favoritas, gravadas naquele esquema precário de microfone do PC, e devidamente comentadas. Divirtam-se (se for possível).

Como Dois e Dois

Começo com a menos robertocarlística de todas, pois a composição é de Caetano Veloso e, pra piorar, aprendi a gostar ouvindo com Gal Costa, quando comprei seu disco "Fa-Tal - Gal a Todo Vapor", registro de um show de 1972 somente liberado em CD por volta de 1995. Em 2001, por aí, fui ouvir com Roberto Carlos e a música deixou de ser apenas política para ganhar seu sentido romântico mais amplo.

Porque, de fato, não é apenas uma canção de contestação política. É mais que isso, é "também", mas transcende. E a interpretação de Roberto Carlos permite fazer essas leituras mais amplas - o óbvio da oposição ao regime e a leitura mais complexa de uma relação a dois. O ouvinte de hoje, se alheio ao contexto da época, talvez ache óbvia a leitura mais lírica.

* * *

Fera Ferida

Essa é uma daquelas que ganharam fama de música cafona, justamente por evocar a velha e tradicionalíssima temática da "música de corno", mas é importante notar não apenas a delicadeza da letra mas sobretudo a graça da melodia.

A obra de Roberto Carlos é repleta disso: sentir se sobrepõe a pensar. Viver e agir, portanto, estão num patamar muito menos dependente da perspicácia e absolutamente atrelado às necessidades do sentimento (ou da alma, quando se trata de canções religiosas etc.). Sempre há uma "entrega".

* * *

Ele Está Pra Chegar

Queria colocar uma religiosa, mas a verdade é que não gosto de "Jesus Cristo" - não que não seja boa, acho ótima, mas pelo contexto da época fica patente a imitação das demais canções religiosas feitas no embalo da "soul music" e, na minha opinião, Roberto Carlos já não precisava macaquear esse tipo de coisa.

Além disso, eu já tinha uns 5, 6 anos quando a música fazia sucesso, de modo que me lembro dela tocando em casa, nas rádios, na TV etc. Para mim, é claro que marcou mais e seria o melhor exemplo de "música religiosa" a ser usado aqui. Por fim, acho a melodia ótima - sem essa letra profética, seria uma canção irretocável sob qualquer ponto de vista.

* * *

Quero Que Vá Tudo Pro Inferno

Ao contrário do que falam sobre "Detalhes", esse é o maior sucesso de todos os tempos da carreira do Rei. A canção ficou nada menos que TRÊS ANOS nas paradas de sucesso - algo um tanto impossível para os dias de hoje. E é simples, até meio boba, mas direta e bonitinha como todas aquelas da Jovem Guarda.

Mais recentemente, ele refutou tudo isso de "inferno" etc., mas não é verdade que a música tenha sido banida de seu repertório tão imediatamente, pois em 1975 ele a regravou (ela foi originalmente lançada em 1965).

* * *

O Calhambeque

É uma canção de Gwen e John Loudermilk, vertida por Erasmo Carlos e, claro, famosa na voz de Roberto. Eu gosto muito e, para mim, é a melhor da Jovem Guarda - em que pese a fama avassaladora de "Quero Que Vá Tudo Pro Inferno". É animada, engraçada, extremamente bobinha, mas a melodia é bonita e, sei lá, eu gosto mesmo.

* * *

Enfim, é isso. A idéia desse negócio passar o post das "5 melhores" para mais tantas pessoas continuarem, como numa corrente. Serei gente boa e deixo a critério de quem quiser. Evamoquevamo!


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transubstanciado por gravata às 15.03.10 | 10 comentários

11/03/2010

HAMBURGRAVATA NO "HOMEM NA COZINHA"

A receita já foi publicada aqui, mas agora resolvi divulgá-la num espaço de maior respeito gastronômico: o blog Homem na Cozinha, do meu chapa Ricardo Cobra. Veja lá!


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transubstanciado por gravata às 11.03.10 | 2 comentários

10/03/2010

15 GAROTAS DO TWITTER QUE VOCÊ TALVEZ NÃO CONHEÇA, MAS DEVERIA...

Anualmente, eu e meu amigo Morróida organizamos uma lista com as "10 Mais Gatas da Blogosfera", cada vez utilizando uma metodologia de votação, e assim por diante. O único 'porém' é que sempre ganham as mesmas garotas - claro, por méritos próprios, sem dúvida alguma. Desta vez, portanto, resolvemos mudar.

Pensamos em escolher aquelas que não são muito conhecidas, não fazem parte das rodinhas mais badaladas, não aderem aos eventos (mesmo aqueles que NÓS realizamos, como "lingerieday"), mas que são definitivamente muito lindas. Ok, ok, parecia fácil.

Então, demos uma dificultadinha: moças lindas e TAMBÉM inteligentes, que mandam coisas legais no tuíter e DEVEM ser seguidas. E então começamos a procurar, também pedindo sugestão para os chegados. Eis a lista, em ordem alfabética (e sem exageros nos comentários, porque muitas namoram, são casadas etc.):


@anapads

Pode fazer uma piada sobre sexo, falar sobre alguma festa, tratar de seriados, ou comentar sobre o jogo WoW - em suma, a musa de todo e qualquer geek tuiteiro. Ana é biomédica, mora no Rio e torce pro Botafogo.

* * *


@anatwix

A gauchinha Ana é estudante de filosofia e literatura brasileira, mas seu tuíter não tem qualquer pedantaria (coisa comum, infelizmente, quando se trata de povinho acadêmico). Ela fala mesmo de música, cinema, TV etc.

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@arashida

Jaqueline Arashida curte MPB, música alternativa e até poesia concreta (a tatuagem é um poema de Augusto de Campos, "Código"). Ela trabalha com publicidade em SP, mas veio de SJC.

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@cau_maria

Claudia Manoela é corintiana fanática e curte BBB. Mas também entende de artes plásticas, fotografia, poesia, música e até mesmo fala sobre os bons hotéis de Botswana (e isso não é mentira). Ah, sim: ela ensina idiomas e mora em Alphaville.

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@duartecarol

Ela junta coisas praticamente imiscíveis: psicanálise e docinhos, Lacan e cupcakes - seus brownies são famosos até entre atores da Globo. Carol, carioca, fala de música, poemas, livros, filmes, feijoada da Portela e, sim, também de doces.

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@galantini

Sarah, uma carioca que mora em Sampa, também mistura coisas não exatamente comuns numa mesma garota. Ela é assim, de aparência "alternativa", toda tatuada, mas trabalha como programadora (e em várias linguagens). E seu tuíter torna mais difícil rotulá-la: dicas de música, tiradas ácidas, piadinhas curtas e certeiras e assim por diante.

* * *


@imbadnews

Andressa, que veio de Brasília para São Paulo, possui algo em torno de 20 mil dígitos de QI (ela consegue terminar uma partida de STOP em 2 segundos, e isso não é uma hipérbole). Em princípio, seu mau humor pode ser interpretado de forma ruim, mas é impossível não gargalhar diante de tanto sarcasmo. Ah, sim: é jornalista, fotógrafa e trabalha com publicidade. E tuíta sobre qualquer coisa da atualidade, especialmente música - obviamente, usando sua ironia.

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@juliabobrow

Ela é atriz e foi bailarina, de modo que seus tweets são muitas vezes sobre arte (sem aquela coisa chata), e quase sempre tratando de teatro. Mas ela também fala de música, literatura e, por óbvio, faz piadas e solta tiradas engraçadíssimas. Julia é de São Paulo.

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@liisie

Liz é de BH e estuda Artes Visuais. E seu caso é mais ou menos comum no Twitter: há uma diferença entre a parte pública da timeline e aquilo que se conversa pelos 'replies'. Em suma: ela não está nem aí com nada e escreve o que dá na telha, o que é divertidíssimo, mas se você puxa QUALQUER assunto, ela se mostra inteligentíssima, atenciosa e ainda por cima engraçada. Façam o teste.

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@lilianeferrari

Talvez, desta lista, Liliane Ferrari seja a mais famosa - embora esteja longe de ser "hype de listinhas". Ela já foi bailarina em Londres e pode explicar qualquer coisa sobre Schopenhauer. Também sabe tudo e mais um pouco a respeito da História da Arte e discorre com facilidade sobre as mais transgressoras formas, como os "stickers". Mas não se empolguem: é casada e tem uma filha.

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@maiazinha

Claudia, publicitária, fica entre Friburgo e Laranjeiras, o que definitivamente faz dela uma pessoa feliz em termos de moradia. No Twitter, usa toda sua inteligência em nome do sarcasmo e da mais fina ironia. Vez por outra fala sobre música, comenta algum evento da TV, mas sempre tirando sarro exatamente daqueles detalhes que nos escapam. Hm... Claudia tem um pequeno defeito: tuíta pouco (mas, no fim das contas, pode ser uma grande qualidade, não?)

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@marianacatto

Mariana é de São Paulo e reúne tweets das mais variadas temáticas, e todos com um traço comum: qualidade intelectual. Pode reclamar do trânsito, de alguma chatice monotemática da timeline ou fazer galhofa sexual. Tudo é sempre com com muita classe - sem prejuízo do valor do escárnio. E se alguém acha que é fácil tirar sarro do trânsito e ainda assim fazer bem feito, experimente ir a um show de standupbr.

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@marianagogu

Seria impossível colocar uma foto da Mariana, que é de BH, sem algum gato por perto. Ela ama gatos. Ela tem blog sobre gatos e fala muito sobre gatos. Mas também fala sobre política, temas da atualidade, música e até vegetarianismo (pois é, ela não come carne).

* * *


@priparj

A Pri, carioca, é economista, corredora urbana e estudiosa da Cabala. Mais uma dessas misturas, né? E são três temas recorrentes em seu tuíter, além de música e dicas de bons lugares do Rio - sobretudo quando ela avisa que acabou de chegar de determinado bar ou restaurante.

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@setembro

Muitos amigos sugeriram vários nomes, chegou a ter discussão e foi complicado colocar as 15. Mas sou obrigado a dizer que a Thaís (setembro) foi exigência do Morróida, sob pena de nem participar da brincadeira. O mais engraçado é que ela estaria de todo jeito, mesmo assim ele avisou desde o início - e como viu que ela estaria, pediu para que eu colocasse essa observação. Aí está: o Morróida sairia da brincadeira se não houvesse a Thaís na lista. Ok? Como sobrou pouco espaço, vale dizer que ela é de BH, inteligentíssima e sem qualquer papa na língua para falar de tema algum. Mesmo.

* * *

Enfim, essa é a lista e, CLARO, não há condições de colocar todo mundo que poderia fazer parte. Provavelmente, haverá gente discordando, mas a idéia, antes e acima de tudo, foi propor algo diferente das tradicionais listagens do tipo "mais gatas" e que tais. Espero que entendam o propósito e vamoquevamo!

(sem revisão, não reparem a bagunça)


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transubstanciado por gravata às 10.03.10 | 32 comentários

09/03/2010

GENTILI X HIPÓCRITAS: AÍ EU FICO COM GENTILI

Danilo Gentili fez uma piada sobre a Hebe, chamando-a de Múmia, já que a apresentadora comemorou vinte e sete séculos nesta segunda-feira. Não é meu tipo favorito de piada, até porque só não é mais velha que a própria apresentadora. Mas, vamos e venhamos, é o tipo de chiste que grassa pelo tuíter. Provavelmente acuado diante dos protestos, apagou a anedota.

Não deveria.

Uns dizem que o contexto foi inadequado. Ora, por quê? Qual é uma boa hora para a piada? Quando ela está de costas? Ou por via indireta? Porque, bem sabemos, o Twitter é o IMPÉRIO DAS INDIRETAS e o Território Livre da Covardia, de modo que esse tipo de anedota, como sói, jamais seria bem-vinda pelo crivo da cordialidade babaquara tapuia.

Já divergi muito de Danilo Gentili, mas dessa vez não vi problema nem graça no tweet, apenas fiquei chateado porque foi apagado. Ele deveria, ao contrário, ter descido a marreta em todo o anedotário sobre terceira, quarta, quinta e sexta idades - até chegar à vigésima, provavelmente a da Hebe.

No tuíter, havia muita gente aplaudindo a "primeira dama da televisão", até mesmo profundos conhecedores do alto de seus 18 anos. A elas, que não chegaram a ver boas atuaçõe, e aos esquecidos que se emocionaram ontem, trago um pouco da história da INTOCÁVEL. Vejam que brilhante momento:

(atenção: se você condenou a piada sobre a Hebe, lembre-se de jamais fazer qualquer uma sobre o Maluf, porque além de também ter tido câncer, ele é um senhor de 79 anos de idade, ok?)

Hebe, além de ser uma apoiadora histórica de Paulo Maluf, ícone da honestidade política, também participou do maravilhoso movimento CANSEI. Sim, aquele mesmo. E essa memória seletiva se parece com a raiva do pessoal, quando muitos estavam enaltecendo o maestro João Carlos Martins e resolvi lembrar essa historinha. Acreditem: brigaram comigo no tuíter (como se eu fosse culpado pela lambança envolvendo... PAULO MALUF! - sempre ele).

Depois, reclamam que brasileiro tem memória curta.

Claro que Hebe Camargo tem méritos, assim como já pisou muito na bola. Mas a questão principal é uma e apenas uma: assim como qualquer outra pessoa, ela não é uma divindade e não está imune ao humor. E os brasileiros precisam parar com essa bobagem hipócrita de reclamar com quem faz piada com esses "ícones" - sobretudo quando desconhecem praticamente toda a história desses "heróis" (ou dão migué e fingem desconhecê-la, por amizade ou medinho).

Depois da Hebe, veio o programa na Globo homenagendo Chacrinha. De novo, aplausos, lágrimas e aquela gritaria em letra de fôrma. Perguntem a um músico, especialmente da turma do então novo rock nacional, o que era preciso pra tocar no programa do Velho Guerreiro. Alguns já cagüetaram por aí, e se bobear dá pra ler alguma coisa procurando no Google (ok, o @blogcitario mandou um link via tuíter).

Mas fazem vista grossa. Brasileiro é essa desgraça de sempre.


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transubstanciado por gravata às 09.03.10 | 15 comentários

08/03/2010

OSCAR: SÃO OS ADULTOS QUE VOTAM (SOBRE A DERROTA DE AVATAR)

Há uma grande choradeira entre as crianças: Avatar perdeu. Sim, perdeu. Levou uma surra, na verdade. O filme foi espancado sem dó nem piedade, levou uma piaba homérica no Oscar. A parte engraçada do chorinho são as justificativas. Vamos a elas:

O Filme é Campeão de Bilheteria! - é a popular "saída Zezé di Camargo", usada para confundir qualidade e audiência. Como sabemos, o referido cantor e compositor também é campeão de vendagem de CDs e nem por isso podemos dizer que seja o "melhor" do Brasil. Faustão, Gugu, BBB e afins, por vezes, são programas de maior audiência televisiva e vale o mesmo raciocínio. Mas depois de engolir uma mandioca pelo método invertido, resta essa explicação.

James Cameron Está Rico! - geralmente explanado por quem não possui remuneração das mais louváveis, esse argumento é engraçado e lembra quando torcedores não têm mais o que falar de seus times que só perdem e sacam coisas como "já vi o tamanho da torcida?" ou algo do tipo. Mas isso, convenhamos, é pior. Imagine você, dono de um contracheque desprezível, dizendo que um diretor ganha bem. E isso depois desse mesmo diretor voltar da cerimônia do Oscar levando um esculacho. Não basta ser patético o bastante para TORCER POR UM FILME, é preciso JUSTIFICAR falando da grana do cara. Se mata.

São Velhinhos Que Votam! - essa é grande, vai o resto do texto.

Não são velhos, mas adultos. Alguns poucos idosos, é verdade, dão lá seus votos, mas boa parte dos eleitores têm por volta de 40, 50 anos. James Cameron, por exemplo, é um senhor que neste ano completa 66. O filme, como se sabe, é feito para crianças e pré-adolescentes - e admirado por muitos outros, sem dúvida.

A trama tem a profundidade de um pires (dos tradicionais, bem rasinhos) e serve de desculpa para mostrar toda a tecnologia visual, a luta do bem contra o mal e aquela coisa toda. Também foi útil para inspirar fantasias carnavalescas e ajudar pessoas de pouca instrução a dar nomes aos filhos (sim, nos EUA há uma recente cultura onomástica graças ao filme e, se forem procurar, vão ver o istáile dos pais).

Essencialmente, Avatar é um filme feito para tocar o público infantil e aí estão todos seus méritos. Mas os fãs (e é mesmo estranho filmes terem "fãs") não aceitam esse fato, de modo que "torciam" pelo Oscar e, hoje, arrumam "desculpas" e "explicações" para o óbvio do óbvio: a derrota retumbante.

É simples: Avatar é ruim. Coração Valente já ganhou, às vezes acontece de uma zebra levar, bem sabemos. Mas havia "Bastardos Inglórios" e uma ótima surpresa de baixo orçamento: "Guerra ao Terror" - dois filmes inequivocamente melhores, muito acima da produção zilardária de James Cameron. Não se trata de birra ou picuinha, mas de obviedade. São filmes-filmes, não mero entretenimento visual para emocionar crianças.

E nem coube a "Guerra ao Terror" ser um filme tão genial, bastou ser melhor que "Avatar", ou seja, um filme muito bom, quase ótimo, que agradou aos votantes de idade adulta. Uma tarefa talvez não exatamente simples, mas que bastou para este ano.

Mas é isso. Cameron está rico, não é mesmo? E graças à grana de seus fãs e "torcedores" (é mole?). Toda essa multidão de milionários que hoje brigam violentamente por causa do Oscar (até ontem, davam como favas contadas). E todo mundo achando que "fã de BBB" fosse o mais baixo na escala do fanatismo.

Ah, sim: ENGOLE O CHORINHO!


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transubstanciado por gravata às 08.03.10 | 14 comentários

05/03/2010

MARAVILHAS DA VIDA MACHA: GAROTA QUE GOSTA DE FILME PORNÔ

A "garota que gosta de pornô" sempre foi vista como exceção da exceção da exceção, mais ou menos como o "cara que não topa ménage com duas garotas". Ou seja, algo em torno de 1% dentro dos respectivos gêneros. Mas isso é bobagem - ao menos quanto às moças apreciadoras da putanhági na telinha, haja vista o percentual muito maior e, portanto, longe de ser algo excepcional.

Desta feita, a figura da moçoila apreciadora de peripécias pornográficas filmadas deixa de ser algo mitológico, transformando-se numa MARAVILHA DA VIDA MACHA, isso porque adoramos esses filminhos - a essa altura do campeonato, não adianta negar.

É verdade, sem dúvida alguma, que as mulheres dependem de mais (e melhores) estímulos, especialmente os intelectuais, ou seja, todo um processo elaborado, geralmente por meio de palavras, percepções etc. Nós, homens, somos geralmente mais visuais e tácteis, ainda que também gostemos desses estímulos libidinosos do intelecto.

O grande erro, contudo, é fechar homens e mulheres cada qual em um grupo, como se não pudessem apreciar as delícias dos demais prazeres. É bobagem. Assim como homens também gostam das safadezas faladas e das provocações preliminares, muitas mulheres adoram, sim, putanhagens visuais - e nelas estão incluídos os filminhos (até mesmo os "da pesada").

Devemos, mais uma vez, agradecer à internet por facilitar o acesso a todo tipo de produção e, desse modo, fazer com que as garotas conseguissem encontrar seus estilos favoritos dentre as mais variadas modalidades filmográficas. Um agradecimento especial, sem dúvida alguma, vai para a contribuição da queda do Muro de Berlim na melhoria qualitativa das películas do sapeca iá-iá, em especial quanto às atrizes egressas dos países outrora integrantes da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.

Com a chegada dessas intérpretes, o mundo da pornografia passou a exigir mais das demais trabalhadoras do ramo e, assim, as norte-americanas até então mais afrescalhadas precisaram - por força da demanda - aperfeiçoar suas aptidões e peripécias. Desse modo, aumenta-se também a variedade de estilos, chegando-se hoje a uma miríade impensável há vinte anos.

Por fim, além da evolução tecnológica e a pletora de modalidades, oriunda de, entre outras coisas, fatores geopolíticos (orra, meu!), há também uma evolução social que, hoje, permite às garotas não apenas ver filmes pornôs, mas também declarar entre as amigas e amigos o prazer em vê-los, coisa até então também impensável.

E nem falo aqui daquele mito, o "pornô com história". Alguém já teve curiosidade de ver um filme com as chamadas "histórias"? São patéticos e involuntariamente feitos para a gargalhada, com diálogos do tipo: "olá, como está a fila do banco?" / "demorada, mas podemos trepar" / "ok, vamos agora" - entre outras situações extremamente comuns em nosso dia a dia.

Agora, as produções deixam de lado essas babaquices e fazem algo mais ou menos assim: apresentam as atrizes, dizendo que OBVIAMENTE são atrizes e aquilo é, sim, um filme, para em seguida anunciar brevemente o que farão. Em alguns casos, como nas direções da Belladonna, há uma mistura de filme e "por trás das cenas". De forma proposital, fazem o inverso daquilo que poderia ser uma "historinha".

Isso também serve para derrubar outros mitos, como aquelas coisas de "erotismo x pornografia" ou "erotismo x vulgaridade". Há espaço para tudo, sem que sejam mutuamente excludentes. É muito bonito dizer algo como "prefiro erotismo à pornografia", mas na prática qual efetivamente é o problema com as coisas pornográficas? E qual o erro com a vulgaridade, no contexto em que sejam cabíveis as coisas vulgares?

Chamar de puta, bater na bunda etc., p.ex., são coisas vulgares e pornográficas - e há contexto para isso, não? Pois são como os filmes. Não parece muito inteligente supor que TODAS as mulheres odeiem tudo isso, pelo fato de que são bonitinhas, meigas, fofas e delicadas. Na vida, há espaço para tudo - mesmo quando, socialmente, elas declaram não gostar dessas coisas.

Às vezes, são apenas mentirinhas necessárias.

Revisão: Hellen Guareschi


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transubstanciado por gravata às 05.03.10 | 7 comentários

03/03/2010

CARIOCA É BAIRRISTA ATÉ COM MIJO

Não gosto de bairrismo, exceto quando é para fazer algum tipo de gozação - nesses casos, aceito piada de humor negro e deixo de lado boa parte da correção política. Vejam, por exemplo, o bairrismo carioca. Ontem, fiz piada com a cerveja "Devassa", lembrando que é parte do grupo Schincariol e questionando sua qualidade.

Meu Deus!

Parece que mexi com a integridade do Cristo Redentor! Aparentemente, ameacei explodir o Pão de Açúcar! Se a contestação qualitativa da cerveja fosse feita em rede nacional, num programa de relativa audiência, seguramente receberia abaixo-assinado e texto feroz de algum "carioca por adoção" - ou mineiro ou nordestino -, os mais ferozes defensores do Rio (como Ruy Castro ou algum pau-de-arara do Pasquim).

Há algum tempo, expliquei essa raiva dos cariocas, e é claro que os entendo. Do início do século até 1950, por aí, o Rio era o centro de tudo. Mas, de repente, as coisas ficaram feias. Mudaram a capital, mudou o eixo econômico, o centro cultural se diluiu e com isso houve alguns efeitos colaterais - futebol, p.ex., pela atração natural da força da grana. Ainda há cocaína, é verdade.

E praias. Muitas. Tirando a poluição das águas, as praias são lindas. Mas até que ponto isso faz uma boa cidade? Imaginem o triste cidadão que acorda em uma magnífica casa em Paris, olha ao seu redor, e constata: "DROGA, NÃO TENHO UMA PRAIA!". O mesmo em Berlim, Londres, ou até NY (se quiser algo parecido, corra para Coney Island...). Mas o carioca de Bonsucesso não tem esse azar: ele tem praia (e esquistossomose, a depender da proximidade do córrego a céu aberto).

O carnaval... Getúlio Vargas foi do Rio Grande do Sul até o Rio, onde humilhou a cidade inteira instalando uma ditadura (nem vou dizer quem resistiu ao ditador...). Em sua sanha fascista, GV pôs ordem no samba e INSTITUIU o carnaval desfilado, sem instrumento de sopro e apenas os marciais, tudo cronometrado, em alas etc. Hoje, é um símbolo da cidade.

Alguns blocos resistem, e isso é saudável. Mas nem tudo é "salutar", pois há uma multidão mijando pelas calçadas. Quando soube disso, imaginei uma reação raivosa dos cariocas, pois foliões ousavam urinar em sua cidade das maravilhas. Qual nada! Defendiam, ali, o xixi derramado! As desculpas eram ótimas, e a principal era a seguinte: "os banheiros químicos não eram muito limpos". É mole? Porque as ruas, com seus ratos, baratas e cocôs, como sabemos, são limpíssimas.

Mas entrar no campo do bairrismo é fria. Ou melhor: não é. Porque os paulistanos não temos exatamente bairrismo, nem esquentamos a cabeça com isso. Para os cariocas - sério - é uma briga perdida. Nós, de São Paulo, somos filhos ou netos de italianos, espanhóis, portugueses - fora aqueles que vieram do interior, do Sul (Paraná, SC, RS), e ainda muitos do nordeste ou até mesmo do próprio Rio de Janeiro (não são poucos os que largam a maravilha de viver perto da praia pelo infortúnio de um emprego decente).

Muitos vêem nisso uma legítima virtude por parte do povo do Rio. Talvez seja, mas discordo. Defender um espetáculo nascido de aspirações fascistas? Brigar por causa de uma cerveja? DEFENDER O MIJO? Declino. Ter "amor" por uma circunscrição territorial não está dentro dos sentimentos que me parecem mais nobres - ou sábios.

E parece o último refúgio, aquela coisa desesperadora depois de que se perdeu tudo. Enquanto grandes potências se vangloriam de suas conquistas (sei lá, peguem os EUA para comparação), caboclo bate no peito defendendo o direito de urinar na calçada, ou o sabor de uma "ruiva gelada" ou as alegorias e adereços de alguma escola da Sapucaí. Ah, sim, e as praias.

As maravilhosas praias que faltam àquele desgraçado do exemplo, o pobre-coitado de Paris. Ou ao infeliz dono de um apartamento ao lado do Central Park. Londrinos, berlinenses, entre tantos outros. Sorte, mesmo, tem quem mora em Quintino Bocaiúva, Ramos, Abolição, Coelho Neto. Só precisa ficar de olho na hora de mijar na rua.

(sem revisão, só na raça e na malandrági)


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transubstanciado por gravata às 03.03.10 | 33 comentários

02/03/2010

O QUE É PIOR: EXPULSAR GORDO DE AVIÃO OU ABUSAR DE TRABALHO INFANTIL?

E um c.q.d. quanto ao fato de que, para o público-alvo consumidor, alguns escândalos não fazem o menor efeito - independentemente de tuíter.

Foi-se o tempo em que, para ser nerd, era preciso tirar boas notas e, em seguida, ter uma boa qualificação no mercado de trabalho, invariavelmente transformando-se num milionário (veja o caso de Bill Gates). Hoje, qualquer excluído da sociedade, sendo suficientemente feio e gostando de filmes de ficção científica, pode usar o termo "nerd" para definir a si próprio.

E essa turma também costuma ter uma lógica toda pessoal, não exatamente aquela do nosso querido Aristóteles, que durante milênios ajudou a sustentar o Ocidente. Vejam, por exemplo, o caso do simétrico cineasta Kevin Smith. Ele foi expulso de um avião porque mal cabia no assento - tanto que comprou duas passagens, mas preferiu dar uma de espertucho e pegar um voo adiantado.

Sim, claro, a empresa errou. Para a turma da lógica, o correto seria investir em pessoal mais qualificado, além de uma contraofensiva nos veículos de massa. Para os "nerds" (os dos novos tempos, não os das boas notas etc.), o ideal seria uma "boa equipe de social media" - para eles, qual a vida fora desse mundo? Mas sigamos.

Recentemente, foi noticiado que a Apple, queridinha de muitos dos "neonerds", emprega trabalho infantil - além de acusações quanto ao abuso dos demais trabalhadores (em países cuja mão de obra é um primor, tais como China, Malásia, Singapura, Tailândia, Filipinas etc.). A reação? Nada.

Tirar Kevin Smith de seu assento no voo adiantado (porque ele quis adiantar) foi um DESASTRE. Usar trabalho infantil? Nada, bobagem, nem merece comentários. Todos continuam usando seus iPods, iPhones, MacBooks etc.

Quando houve o incidente aeronáutico, alguns "gênios das mídias sociais" previram verdadeira catástrofe empresarial, e aqui mesmo assinalei que nada aconteceria. Porque - e isso é simples - o público da companhia a escolhe em função do preço, entre outros tantos fatores (um deles, importantíssimo: não são os interlocutores de Kevin Smith).

O que ocorre, agora com a Apple, é algo parecido: as pessoas preocupadas com empresas "do bem", salvo raras exceções, não são exatamente aquelas com poder aquisitivo para comprar os caríssimos produtos da Apple e, de mais a mais, usarão desculpas do tipo "ah, toda empresa faz isso".

E os que ganham como brinde, bem sabemos, não podem jogar fora porque não conseguirão comprar nem "HiFone" ou aquelas estrovengas para pagar em milhares de prestações, de modo que engolirão calados essa mancada da companhia do bom moço Steve Jobs.

Ah, sim: o erro da Apple não foi a carência de uma "boa equipe de Twitter", mas sim falta de adultos trabalhando nas fábricas - antes que alguém fale novamente esse tipo de bobagem.

Vida que segue.

Revisão: Hellen Guareschi


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transubstanciado por gravata às 02.03.10 | 8 comentários

27/02/2010

E MAIS RELIGIÃO: RÉPLICA A TEXTO DE FILIPE GARCIA

Ia escrever sobre o politeísmo católico, mas fui avisado por Flavio Morgen sobre texto publicado por Filipe Garcia, no qual haveria contestação a outro, deste blog. O argumento é muito bom e, desta feita, vale réplica. Em outra ocasião tratarei dos vários deuses do panteão católico.

A seguir, trechos do post de Filipe:

"...Fernando não nega a existência de um certo desejo, comum a todos os homens, que nenhuma felicidade natural é capaz de satisfazer. Essa é uma constatação óbvia, pois todos já tivemos a sensação de carregarmos dentro de nós um vazio que não pode ser preenchido. Isso é demonstrado por sentimentos como nostalgia, romantismo, utopia, carência, angústia, insatisfação e outros sentimentos que, se não forem compartilhados por todos os seres humanos, o são, pelo menos, pelos mais sãos dentre nós (1) (...) Diante de afirmações como essas, podemos afirmar, com Chesterton, que, podendo ou não o homem ser lavado em águas milagrosas, não resta nenhuma dúvida de que ele deseja lavar-se. Ou seja, podemos até negar a água, mas não podemos negar a sujeira — assim como não se pode negar o desejo que todos temos de ter essa sujeira removida. Em outras palavras, podemos até negar a existência do paraíso dos religiosos ou do lugar de compensações de Dostoiévski, mas não podemos negar nosso intenso desejo de que lugares como esses existam. Estas são afirmações das quais, creio eu, ninguém discorda. É essa a base do ateísmo e é essa também a base do cristianismo. Afinal, se for verdade (como certamente é) que temos desejos que nenhuma felicidade terrena é capaz de satisfazer, só podemos fazer uma dentre duas deduções; ou devemos negar a existência de Deus, como fazem todos os ateus; ou devemos negar a presente união entre Deus e o homem, como fazem todos os cristãos. Negar o desejo não seria, em absoluto, uma alternativa honesta e sensata. Isto posto, podemos seguir adiante e questionar: há alguma razão para supormos que a realidade ofereça alguma satisfação para esse desejo? "Nem a fome pode provar a existência do pão" — disse Matthew Arnold. Mas eu acredito que não se trata exatamente disso. A fome física de um homem realmente não prova que ele encontrará pão; ele pode morrer de fome na travessia do Saara ou em uma jangada em pleno Atlântico. Mas, com toda certeza, a fome de um homem prova que ele pertence a uma espécie cujo corpo é restaurado por meio de comida e habita em um mundo onde existem substâncias comestíveis. Da mesma maneira, meu anseio pelo paraíso pode até não ser prova de que eu vá usufruir dele, mas é, acredito, um sinal bastante seguro de que existe algo parecido com o paraíso e de que alguns homens vão encontrá-lo (2). Um homem pode apaixonar-se por uma mulher sem conquistá-la; pode desejar levá-la pra cama sem conseguir; mas seria algo muito estranho se um homem sentisse isso em um mundo assexuado. De semelhante modo e como já dito, todos já nos sentimos deslocados, como se de alguma forma não pertencêssemos a esse mundo. Não há, até onde eu sei, uma única pessoa que não tenha chegado a conclusão de que esse é um mundo imperfeito ou que não tenha desejado viver em um lugar melhor. E eu fico me perguntando; como é possível chegarmos a esse tipo de conclusão? Afinal, se fôssemos realmente um mero produto do universo, como poderíamos não nos sentirmos em casa? Será que peixes reclamam do mar por este ser molhado; ou seja, por ser o que é? Ou, se eles reclamassem, não seria isso um forte indício de que eles nem sempre haviam sido, ou de que nem sempre seriam, apenas criaturas aquáticas? Um homem sente o corpo molhado quando entra na água porque não é um animal aquático; um peixe não se sente assim. Da mesma forma, se nós pertencêssemos a esse mundo não reclamaríamos por ele ser como é. E se o universo inteiro não tivesse sentido, nunca perceberíamos que ele não tem sentido — do mesmo modo que, se não existisse luz no universo e as criaturas não tivessem olhos, nunca nos saberíamos imersos na escuridão. A própria palavra escuridão não teria significado (3). Mas, afinal, a fome prova ou não prova a existência da comida? Ora, se não houvesse comida, não haveria fome. Assim como não haveria um desejo por compensação, se não pudéssemos ser compensados. Portanto, podemos até não ter escutado o chamado ou visto a luz de que falam os religiosos, mas assim como um homem sedento que não encontra água no deserto estaria errado em negar a existência de água, nós estaríamos errados se assumíssemos que o chamado ou a luz não existem apenas porque não escutamos ou vimos. Ou será que aqueles que dançam sempre deverão ser considerados loucos pelos que não podem ouvir a música? (4)" (os pontos em negrito indicam a ordem pela qual serão comentados os tópicos levantados pelo texto)

1) Na verdade, não é que não nego, mas afirmo categoricamente: as pessoas vão atrás de qualquer tipo de amparo, qualquer coisa que lhes diminua dores e angústia. Mas não faço aqui um elogio a elas, apenas registro um traço comum, notado nos homens das cavernas, ianomâmis, antigos egípcios, esquimós etc. Antes de haver uma explicação para as tempestades eletromagnéticas, o medo ou a necessidade de chuvas criavam a adoração por deuses como Thor - pelos ancestrais daqueles que hoje habitam a Escandinávia.

E nem toda "carência" existencial se resume à religião, à falta de um deus ou coisa do tipo. Pode ser saudade da pessoa amada, por exemplo - seja no sentido romântico, ou um ente querido morto recentemente, dentre várias hipóteses. Mesmo o mais ferrenho e devoto religioso, alguém detentor da sorte de já ter ouvido o chamado e visto a luz, fatalmente estará sujeito a esse tipo de angústia, carência, tristeza e infelicidade.

Nem toda "imaterialidade" é sacrossanta ou divina. Os sentimentos, e atitudes deles decorrentes, são atributos humanos e bem terrenos, ajudando a separar os seres humanos em pessoas boas e ruins, muitas vezes definindo o caráter de cada um.

2) As menções ao paraíso surgem primeiro nas obras produzidas pelo homem para, sem seguida, despertar desejo naqueles que as leram. O processo é natural e de explicação relativamente simples: vive-se uma vida ruim, triste e infeliz e há a promessa - escrita num livro religioso - de algo melhor após a morte. Desse modo, surge a vontade de ter aquela coisa prometida. A promessa escrita ANTECEDE a imaginação de um paraíso, seja ele qual for.

E há vários outros exemplos corroborando tal fato, como os muçulmanos e suas 70 virgens, em vez da imagem de um céu habitado por anjos e harpas. Ou as imagens criadas ao longo dos séculos e milênios para cada devoto das mais variadas crenças. Como sempre, a promessa de salvação (produção cultural; humana, por óbvio) precede a fantasia de algo que passa a ser desejado NOS EXATOS TERMOS EM QUE FOI PROMETIDO DE ACORDO COM A FÉ DE CADA INDIVÍDUO.

E por quê? Porque as pessoas, em sua imensa maioria, vivem em condições miseráveis - mormente do ponto de vista material. E, inequivocamente, há maior "evasão religiosa" por parte daqueles dotados de mais posses. Quanto maior a pobreza e a miséria, tanto maior a visitação a igrejas das mais variadas cores e bandeiras - em qualquer que seja o país. Alguns alegam que isso esteja atrelado à instrução ou intelectualidade.

Mas talvez a explicação seja muito mais simples: satisfação material e falta de problemas decorrentes da miséria e da pobreza. Em todos os casos, apenas na velhice ou iminência da morte é que muitos voltam a prestar atenção nas religiões ou mesmo freqüentar templos, capelas e congêneres.

E, claro, há várias "fomes" que não comprovam a existência dos respectivos "pães". Muitos pais estimulam o lado lúdico de seus filhos contando histórias de Papai Noel, a ponto deles escreverem cartas e desejarem com todas as forças seus presentes. Há visivelmente uma "fome" e um "pão", no sentido da analogia proposta. Mas, como sabemos, a chaminé permanece intacta. E nem falo daqueles que, levados a crer nos poderes do Superman, atiram-se de sofás ou mesmo das janelas, acreditando na veracidade do respectivo "pão" diante de sua "fome" de voar.

Em suma: nem tudo que imaginamos e desejamos pode necessariamente existir, apenas pelo fato de que desejamos, seja por anseio legítimo e originário ou por leitura de obra produzida pelo homem. Sim, muitas vezes levamos vidas miseráveis, mas SOMENTE isso não é justificativa bastante para que haja algo melhor em algum outro lugar - embora às vezes sirva de subsídio que religiões produzam textos prometendo exatamente isso.

3) Posso não ter entendido o centro da explanação, mas jamais me senti "fora" deste mundo. Eu não acredito em deus, nem em criação, nada disso, mas quem acredita, convenhamos, até que ponto pode dizer que este seria um mundo "imperfeito" e, mais ainda, a que ele não pertenceríamos? De minha parte, sinto-me pertencente a isso aqui e não acredito ser descendente de um único homem, criado a partir do barro, do qual tenha sobrado outro único homem sobrevivente de uma enchente e salvo por uma arca construída por suas próprias mãos, e assim por diante.

Mas, vendo toda a história humana em retrospecto, faz sentido a idéia de "imperfeição" quanto às tentativas de apostar nas pessoas e na civilização. Se houve mesmo um criador, por mais que nunca tenha feito sentido sua motivação (pois o objetivo é acabar com tudo no final), ele deve estar pra lá de desapontado com seus filhos-criaturas.

4) Ainda sobre a "fome" e a "comida", é preciso lembrar que não há somente uma comida, um único alimento, um único prato, uma única iguaria. A fome, de fato, é um único desejo, uma vontade única. Mas pode ser saciada de diversas formas. Ela não prova a existência de "comida", apenas prova a existência da... FOME! Nada além disso.

Para alguns, a fé sacia o apetite sugerido; para outros, a arte cumpre esse papel. Há quem se farte com sexo e os que se dão por satisfeitos com o trabalho. Muitos, como sabemos, preferem a vida em família, fazendo o bem, e assim aplacam tal apetite. Que "fome" é essa? Seguramente, a vontade de ser feliz - ou mesmo de fazer feliz a quem amamos.

É perigoso quando os religiosos se sentem superiores pela suposição de que foram "tocados" por algo transcendente, aludindo a uma divindade ou algo assim. Os ameríndios também foram tocados por Tupã. Egípcios antigos foram tocados por Amon-Rá. Gregos foram tocados por Chronos, Zeus e sabe-se lá mais quem. Nórdicos, entre outros, por Odin, Thor etc. Africanos, de algumas tribos, tiveram experiências tácteis com Ogum, Oxum, Xangô, Oxóssi e muitos outros.

O cristão, portanto, foi tocado APENAS por uma dessas divindades, deixando de experimentar a graça e o gozo de conhecer o que muitos outros vislumbraram - e assim saciar sua fome de outras maneiras, mesmo no campo da religiosidade.

E também não é justo que os cristão digam que nós, ateus, "negamos" a existência de deus. Porque eles também negam. Negam a de todos os deuses de outras crenças. Eles são, portanto, "ateus dos deuses alheios". São como nós, com exceção de seu próprio deus. Se há "fome", eles só aceitam comer um "único prato", refutando todas as demais iguarias da vida como forma de experiência positiva nesse mesmo sentido.

E nós, ateus, não somos pessoas más. Apenas não acreditamos naqueles deuses todos - ou mais um, dois, três, vá lá. Mas, agora falando por mim: gosto de minha família, trabalho, pago meus impostos, gosto de música, cinema, literatura, filosofia, sexo, romance, paixão...

Reconheço a existência de algumas "fomes", só refuto a idéia de matá-las por meio de um único "prato" do cardápio, que é tão variado. Ou, por outra, não acredito nesse "prato sugerido", pois não há mesmo prova alguma de sua existência, e escolho, de forma variada e ao longo dos dias, todos os demais que me apetecem. É isso.


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transubstanciado por gravata às 27.02.10 | 18 comentários



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