Terça, Novembro 8
[mostra sp 2011: post 12]

Fausto 



Faust, Aleksandr Sokurov, 2011
Difícil a vida de Aleksandr Sokurov. O homem é um dos maiores estetas do cinema recente e, a cada trabalho, gera uma imensa expectativa. Em Fausto, último capítulo de sua tetralogia do poder, o russo conseguiu se superar na composição visual. O filme em que alegoriza a lenda alemã ou o a história do livro de Goethe, como queiram, é ao mesmo tempo sujo e iluminado. Sokurov compõe quadros ao mesmo tempo em que experimenta a luz e distorce as imagens, que nunca foram tão lindas - e olhe que estamos falando do fotógrafo de O Fabuloso Destino de Amélie Poulain.
Mas a embalagem visual, que vai do sublime ao claustrofóbico, é extremamente funcional para a descida aos infernos planejada por Sokurov. Ele amplia, contextualiza, reflete sobre o material original com um humor nunca visto e a densidade costumeira. O papel mais difícil, o de Mefistófeles, é composto com complexidade pelo excelente Anton Adasinsky, que empresta uma estranha humanidade ao personagem.
É curioso ainda como Sokurov escolhe Fausto, um personagem real que ficou célebre num livro, para fechar sua série de filmes sobre o poder. Hitler, Lenin e Hiroito, três ditadores cujas "obras" estão bastante frescas nas nossas memórias, foram os alvos do longas anteriores. Ao narrar a história de Fausto, Sokurov parece lançar sua reflexão sobre o tema num outro nível, saindo da esfera do palpável, buscando razões extra-homem, para chegar a uma apoteose espiritual que sempre fez parte do imaginário do diretor.

Sábado Inocente 


V Subbotu, Aleksandr Mindadze, 2011
A Mostra deste ano trouxe dois filmes com uma mesma temática: quem morava e o que aconteceu na cidade de Prypriat, vizinha de Chernobyl, quando a usina explodiu em 1986. A Terra Ultrajada, que tem um brilhante primeiro ato, mostrando a vida na cidade, se perde no meio do caminho ao adotar uma estratégia sentimental que não consegue se sustentar porque aposta em piedade e ela não vem.
Sábado Inocente segue uma ideia oposta. Joga o espectador dentro da ação, transformando seu primeiro ato numa corrida desesperada por salvação. A câmera que acompanha o protagonista, que tenta escapar da cidade depois que tem conhecimento da explosão, é nervosíssima e seu desespero se transforma no nosso desespero. Mesmo quando o personagem desacelera, a câmera continua trêmula, como ele, como nós. Ela reflete a insegurança do homem diante de um futuro incerto, de um desastre iminente.
A fotografia, excelente, e a atuação de Svetlana Smirnova-Marcinkevich, como a namorada do protagonista, completamente perturbada, traduzem o incômodo que o filme tenta passar.

Os Dias Verdes 


Green Days, Hana Makhmalbaf, 2009
Numa prova de que muitas vezes as experiência cinematográfica sai das telas, o mais legal em assistir Os Dias Verdes nem chegou a ser o filme em si, que é um belo registro, mas vê-lo na frente de quatro iranianos, que faziam comentários em farsi e cantavam as músicas do filme.
A diretora de Os Dias Verdes, Hana Makhmalbaf, filha de Mohsen, que apresentou a sessão, retrata o processo eleitoral que terminou com o golpe de estado de Ahmadinejah, aos olhos de uma jovem em crise com sua identidade e com seu país. A trama que amarra o filme é simples, mas honesta, mas o mais forte está quando ela leva a câmera para as ruas e faz um road movie de depoimentos onde a palavra esperança nunca é pronunciada, mas está em todos os lugares.

Montevidéu - O Sonho da Copa 
Montevideo, bog te video: Prica prva, Dragan Bjelogrlic, 2010
Um dos roteiristas que assinam Montevidéu - O Sonho da Copa é Sdrjan Dragojevic, diretor do ótimo Bela Aldeia, Bela Chama. Sdrjan deveria estar precisando de dinheiro porque este filme, uma espécie de A Vida é Bela sérvio, é o melhor [pior?] exemplo de como um filme pode ser manipulador: um narrador-mirim deficiente físico, uma história de superação cheia de folclore local e protagonistas adolescentes cheios de energia que viram heróis nacionais. Tudo embalado por uma trilha feita-pra-chorar e situações apelativas, onde forçar a barra é regra. Medíocre.
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