Terça, Agosto 9
[jornada de cinema silencioso 2011 - filmes]
Tenho dedicado boa parte do meu tempo livre para a quinta edição das Jornada Brasileira de Cinema Silencioso, um dos meus festivais de cinema favoritos. Estes são os primeiros longas (ou médias) que eu vi.

O Fauno 



Il Fauno, Febo Mari, 1917.
O mundo era muito mais fantástico em 1917, quando a estátua de um Fauno ganhava vida para satisfazer a carência de mocinhas traídas. Febo Mari dirige e interpreta o "mito" nesta pequena pérola em que mistura um tema caro à época, o adultério (no caso aqui, a traição porque a mocinha era apenas a "pequena amiga" de um escultor boêmio), com simbolismos e mitologias. Mari acredita na fábula e assume sem qualquer pudor o lado fantasioso de sua história. Mesmo sendo um filme mudo, o diretor-astro também faz as vezes de mestre de cerimônias, abrindo e encerrando seu conto moral, reforçando a encenação.

O Fogo 


Il Fuoco, Giovanni Pastrone, 1915.
Pina Menichelli, que assombro! Uma das principais musas do cinema silencioso italiano era um vulcão. Os gestos exagerados e as as feições maiores que a tela transformaram a atriz no estereótipo da mulher fatal, sedutora. Giovanni Pastrone, o mesmo de Cabíria, explora esse perfil numa história de amor que guarda uma reviravolta que revela a verdadeira natureza de sua personagem. Novamente, o adultério dá as caras. Pastrone traz algumas de suas técnicas revolucionárias de seu filme mais famoso, rodado um ano antes, para esta obra, mas a temática limita suas experiências a algumas cenas com câmera em movimento.

Guardas do Farol 



Gardiens du Phare, Jean Grémillion, 1929.
Um filme fortíssimo que, a princípio, parece não se decidir entre sua linha narrativa e suas experiências visuais que se aproximavam do expressionismo alemão. Mas o diretor Jean Grémillion consegue casar as duas coisas no desesperado processo de enoluquecimento do protagonista, cuja visão deturpada do mundo se espalha pelo próprio filme. O tormento de um personagem poucas vezes foi tão bem capturado por um cineasta, que incomoda o espectador com o turbilhão de imagens e um certo frenesi que tira tudo do lugar. O maior mérito de Grémillion é fazer um filme belíssimo visualmente no meio de tanta informação.

Sangue Napolitano 

Assunta Spina, Gustavo Serena e Francesca Bertini, 1915.
Apesar de ter sido uma megaprodução e um filme polêmico à época, Sangue Napolitano é uma decepção. Formal, sem muita ousadia, o filme se sustenta completamente na interpretação de Francesca Bertini, uma espécie de ancestral de Anna Magnani, que deve ter ajudado a criar o estereótipo da mulher italiana. Gustavo Serena não faz muito: deixa tudo para as idas e vindas de seu texto, vindo do teatro, que servia de plataforma para Bertini.

Saturnino Farandola 



Le Avventure Straordinarissime di Saturnino Farandola, Marcel Fabre e Luigi Maggi, 1913.
Deliciosa coleção de episódios de uma série de aventura dos anos 1910, livremente inspirada em Julio Verne. Saturnino Farandola, interpretado por Marcel Fabre, uma versão antiga de James Franco, era um clássico herói físico, que percorria o mundo em busca de aventuras, repletas de momento cômicos. A edição cria um começo-meio-e-fim para a história, mostrando a origem de Saturnino, um bebê-náufrago, criado por macacos (homens vestidos como animais, hilários). A imaginação de Fabre, que também dirigia a série, não tinha limites: há cenas deliciosas, como um fundo-do-mar com escafandros, baleias e ostras de mentira e uma batalha entre balões nos EUA onde ele teve um papel importante na Guerra da Secessão. Delicioso.

Tigre Real 


Tigre Reale, Giovanni Pastrone, 1916.
Em Tigre Real, novamente sob a batuta de Pastrone, ela encarna a mulher desejada por todos que aos poucos se livra de um trauma amoroso, narrado num flashback original para a época, e encontra um novo amor. Pastrone, com sua queda para o grandioso, faz um final épico, criando um incêndio de grandes proporções, utilizando técnicas impressionantes com a ajuda de Segundo de Chomon. E Pina, no meio disso tudo, está explosiva.

Os Últimos Dias de Pompeia 


Gli Ultimi Giorni di Pompei, Eleuterio Rodolfi e Mario Caserini, 1913.
Estamos em 1913 e haviam os efeitos especiais em grande escala. Numa das cenas mais ousadas de Os Últimos Dias de Pompeia, os diretores dividem a tela (que parecia cortada com tesoura) para mostrar uma personagem tendo uma "visão". O filme é a terceira (ou quarta) adaptação da novela de Edward George Bulwer-Lytton, que ganhou uma versão dirigida inclusive por Sergio Leone, mais de quatro décadas depois. A história é simples e retrata a Roma Antiga, óbvia escolha para dezenas de produções do cinema mudo italiano, e serve de escada para a destruição da cidade, com efeitos menos impressionantes do que se esperava, mas bastante "pensados". Muita fumaça e uma maneira digna de se criar lava.
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