Quarta, Outubro 13
[festival do rio 2010, post 9]

Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos 

You Will Meet a Tall Dark Stranger, Woody Allen, 2010
Nos últimos anos, Woody Allen ressucitou. Alternando belos dramas shakespeareanos (Ponto Final e O Sonho de Cassandra) e comédias escrachadas (Scoop e Tudo Pode Dar Certo) estava acertando em amior ou menor grau em todos seus projetos. Por conta desta sequência inspirada é que seu último filme seja uma decepção. O texto é frágil e parece ecoar alguns de seus filmes mais banais. É um projeto pequeno, mas parece pequeno demais. Do elenco, apenas Gemma Jones se destaca com a mulher abandonada pelo marido e que se apoia nos conselhos de uma vidente charlatã. No mais, Anthony Hopkins não convence como a persona de Woody, Josh Brolin não é Michael Caine e Naomi Watts parece perdida.

Poesia 


Shi, Chang-dong Lee, 2010
Os poemas que a protagonista deste filme compôs com tanta espontaneidade e inocência provavelmente nunca serão lidos. Essa provocação do diretor deixa ainda seu longa ainda mais melancólico. À primeira vista, este filme parecia mais um daqueles orientais dedicados a investigar a beleza da pureza, mas Poesia vai além do que o título sugere. Embora haja gorduras em seus 140 minutos, consegue fazer uma ponte eficiente entre as duas linhas narrativas percorridas pela personagem, seu curso para escrever poemas e seu movimento para encobrir os pecados do neto. A mudança de tom no final é um bela surpresa.

A Primeira Coisa Bela 



La Prima Cosa Bella, Paolo Virzì, 2010
Fazia tempo que um filme não me chorar tanto no cinema. Mas ao contrário do que possa parecer, este melodrama italiano não tem nada de dramalhão. A Primeira Coisa Bela é apaixonante justamente porque o drama do homem que guarda traumas do passado parece muito fiel à vida real. Os diretores conduzem o filme com tanta leveza que fica fácil comprar a ideia pronta de que cada um atravessa determinadas situações da sua maneira. Os atores estão inspirados, especialmente Stefania Sandrelli, maravilhosa num papel reduzido. As cenas de redenção - sem o peso da redenção, na verdade - são belíssimas e completamente banais.

Ondine 

Ondine, Neil Jordan, 2009
O novo filme de Neil Jordan começa curiosíssimo, brincando com fábulas, amarrando sua história a essa ideia. Colin Farrell é o homem do mar que literalmente pesca uma mulher misteriosa, que sua filha, ótima, acredita ser uma selkie, uma espécie de mulher-foca das lendas escocesas. Enquanto leva a brincadeira a cabo, Jordan compõe um material melancólico interessantíssimo embalado por uma canção do Sigur Rós e um clima de inverno eterno que só perde a força quando a vida real toma posse da história.

Tudo o que Quiseres 

Todo lo que Tú Quieras, Achero Mañas, 2010
Esse melodrama espanhol tem uma primeira metade bastante convincente, trabalhando com a perda de uma maneira bonita. Mas no meio do filme, o diretor resolve apostar numa ideia bizarra para chacoalhar a trama. Consegue esconder seus êxitos com a mudança de foco, deixando todas as questões acerca dos personagens ofuscadas.

Ano Bissexto 

Año Bisiesto, Michael Rowe, 2010
México, gente. Lembra do Iñarritu e seus roteiros "chocantes"? Pois é, o diretor aqui resolve vencer pelo grotesco. E terminou ganhando o Camera d'Or em Cannes. A história de sua protagonista, refém de sua própria solidão, ia bem até que o filme promove uma virada apoiada na exploração de imagens de masoquismo e submissão. O novo "material" consegue se inserir bem à narrativa, mas à medida que o filme avança, os afetos se acirram e o explícito toma às rédeas com o intuito bastante claro de chocar. A radicalidade do discurso final ainda me confunde: até que ponto se consegue atender seus desejos?

Um Quarto em Roma 

Room in Rome, Julio Medem, 2010
Onde será que foi parar o bom diretor de Os Amantes do Círculo Polar e Lucía e o Sexo? Julio Medem, que já havia pisado na bola com Caótica Ana, resolveu entregar um projeto fechado que explora os limites do ridículo. De verdade. Tudo é conduzido para que o espectador não apenas duvide do filme, mas o ache uma piada. A plateia desistiu de se queixar dos diálogos farsescos das duas protagonistas que resolvem passar a noite juntas num hotel em Roma e resolveu gargalhar de tudo. O que eram risos nervosos no começo da projeção virou uma reação legítima diante da "brincadeira" proposta por Medem, que num jogo de identidades falsas invade a fronteira do kitsch, radicalizando algumas escolhas feitas em seu filme anterior. Ele parece pouco se importar em que o público não compre sua história. O cineasta parece bem mais interessado em levar sua experiência até o fim.
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