Sexta, Julho 23
[festival de cinema latino]
Desculpem pela demora, mas não deu para publicar antes. Aqui estão minhas impressões sobre os sete filmes que eu vi no Festival de Cinema Latino-Americano, encerrado no último domingo, em São Paulo.

Ao Mar 


Alamar, Pedro González-Rubio, 2009
Este filme mexicano é um dos mais intrigantes dos últimos tempos. É um quase-documentário sobre pai e filho. O pai, um mexicano descendente dos maias - isso segundo o catálogo porque nunca se explica nada sobre sua origem -, é um pescador que teve um affair com uma turista italiana por três anos. Fez neném. O filho mora com a mãe, em Roma. O filme acompanha uma espécie de temporada de férias que o garoto passa com o pai numa casa-palafita erguida dentro do mar há alguns metros de uma praia paradisíaca mexicana. O diretor ocupa a tela com o cotidiano dessa convivência de forma bem documental: pescar, tratar peixes, preparar o jantar, brincar com as aves marinhas. Começa bem chato e pretensioso, mas aos poucos o carinho entre os protagonistas se toma conta das cenas. E o registro do dia-a-dia dos dois se transforma num documento dos laços entre pai e filho.

Dois Irmãos 


Dos Hermanos, Daniel Burman, 2010
Daniel Burman não aposta muito em provocações. Seus três primeiros filmes são histórias sobre microversos familiares que não se esforçam para escapar do "simpático". Depois de uma tentativa ruim de intrincar sua temática, o fraco Ninho Vazio, Burman retorna ao conforto dos relacionamentos familiares. Para isso chama dois atores veteranos, ambos na casa dos 70, e explora sua relação de amor e ódio. Graciela Borges, que já tinha sido vista em O Pântano, assume um modelo de personagem (entre o bufo e o melancólico) clássico em filme hispânicos. Mas é ela, com sua petulância charmosa, quem diferencia esse Dois Irmãos do resto da fimografia de Burman.

Hiroshima 


Hiroshima, Pablo Stoll, 2009
Hiroshima parece ser a prova de que Pablo Stoll era o responsável pela metade insólita de Whisky, filme que dirigiu ao lado do falecido Juan Pablo Rebella, que deveria ser a metade doce da dupla e a quem este filme é dedicado. O longa é uma brincadeira ora esquisita, ora despretensiosa, mas sempre muito agradável com musicais e filmes mudos. Stoll explora ao máximo as possibilidades sonoras do filme, repleto de trilhas e efeitos, mas priva os personagens de falar, traduzindo-os em letreiros. O protagonista, um personagem que vive num universo completamente particular, é um loser que mora com os pais, tem um trabalho qualquer e passa os dias vagando à procura de algo realmente significativo.

Impulso 
Impulso, Mateo Herrera, 2009
O primeiro filme equatoriano que eu vi na vida é uma decepção. A trama, à primeira vista, parece bem simples: uma garota resolve procurar o pai que não conhece. Mas o diretor Mateo Herrera tem intenções maiores e insere elementos metafísicos ralos que nunca são assumidos completamente e parecem jogados às pressas na história como numa tentativa de tornar o filme peculiar. A encenação é uma lástima.

Mente 
Miente, Rafi Mercado, 2009
Este filme portorriquenho tem um acabamento visual caprichado, mas sua vontade de ser uma espécie de Tarantino + Guy Ritchie é meio infantil. A historinha com cara de suspense indie ganha intenções psicológicas que parecem surgir do nada - e que também não são grande coisa. No conjunto, decepciona pela fragilidade, mas há acertos aqui e ali. As cenas estilizadas começam funcionando bem. Mas o diretor resolve pecar pelo excesso e as usa mais do que manda o bom senso.

As Viúvas das Quintas-Feiras 


Las Viudas de Jeuves, Marcelo Piñeyro, 2009
Depois da derrapada de O Que Você Faria?, uma espécie de O Aprendiz espertinho, Marcelo Piñeyro volta a acertar. As Viúvas das Quintas-Feiras volta a uma fórmula já usada pelo cineasta argentino: partir de um gênero cinematográfico para passar suas impressões sobre um período histórico. O diretor aposta na ambientação familiar para retratar a crise econômica de seu país no início da década passada. O filme é ao mesmo tempo sutil na composição das tramas particulares e contundente quando a história central precisa de mão firme. Piñeyro come pelas beiradas para mostrar um país cheio de rachaduras.

Zona Sul 



Zona Sur, Juan Carlos Valdivia, 2009
Este filme boliviano foi a maior surpresa do cinema sul-americano nos últimos anos. A primeira impressão é de que o longa esbarraria em suas próprias pretensões: todas as cenas são filmadas em plano-sequência, sem cortes e com movimento, retratando cenas do cotidiano de uma família que mora numa mansão num bairro rico de La Paz. Os personagens parecem estereotipados, mas o roteiro se revela aos poucos, num exercício de sutileza, que, a cada cena, elege um ponto de partida para examinar a situação política do país, mas sem nunca colocá-la em primeiro plano. Essa narrativa circular, inteligente, justifica o projeto estético que se revela um projeto de linguagem. Filmaço.
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Comentários
Acho que "Zona Sul" cai muito bem em circuiro.
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péssimo 







