Quinta, Junho 10
[cinema filipino]

De tempo em tempos uma cinematografia até então remota parece querer dominar o mundo. Ganha a atenção de festivais e começa a gerar falatório. Foi assim com o cinema iraniano e o argentino e, mais recentemente, com o coreano e o romeno. E a bola da vez, há um belo par de anos, é o cinema feito nas Filipinas. O Indie Festival do ano passado dedicou sua principal Mostra a Brillante Mendoza, um dos maiores nomes da safra de cineastas do país.
No entanto, a maior parte dos filmes mais importantes desta filmografia ainda estava inédita no Brasil. Ontem isso começou a mudar, com a abertura, no Centro Cultural do banco do Brasil, em São Paulo, da mostra Descobrindo o Cinema Filipino (programação completa aqui), uma iniciativa extremamente louvável dos curadores Leonardo Levis e Raphael Mesquita. A mostra acontece em São Paulo até o dia 27 deste mês vai fazer um panorama da produção cinematográfica do país para depois seguir para Rio e Brasília com seus mais de 30 longas, médias e curtas.
O evento traz destaques como filmes do cultuado Raya Martin, cujo impressionante Independência foi exibido em São Paulo durante a Mostra de Cinema de 2009, e de outros cineastas importantes, como Khavn, Lino Brocka e John Torres. Os três filmes mais recentes do já citado Mendoza (os ótimos Serbis e Kinatay e o ainda inédito no país, Lola) serão exibidos durante o festival, que trará longas de Lav Diaz, diretores de filmes gigantescos como Melancolia (441 minutos) e Evolução de uma Família Filipina, com assustadoras mais de 10 horas de duração. Ambos na programação.
Abaixo, reproduzo os textos sobre os dois filmes de Brillante Mendoza que eu já tive a oportunidade de ver. Mais resenhas virão.

Serbis 



Serbis, Brillante Mendoza, 2008
Serbis é o filme mais polêmico de Mendoza. Talvez porque contenha cenas explícitas e o sexo dos atores. Mas nada me pareceu gratuito nesse inventário da decadência de uma família, que mora num imenso prédio sujo onde funciona um cinema pornô, que a matriarca da família (Gina Pareños, intensa) chama de sua última "casa de cinema". Mendoza tem um talento impressionante para fazer os corpos ocuparem seus espaços no cenário. Então, o garoto andando de velocípede pertence àquele lugar tanto quanto os garotos de programa que buscam clientes. A atriz Jaclyn Jose, que administra a "casa" é excepcional. Assim como o cinema de Brillante Mendoza.

Kinatay 



Kinatay, Brillante Mendoza, 2009
Kinatay parece querer dar conta do mundo. Logo na primeira cena a câmera do filme de Brillante Mendoza acompanha trêmula um jovem casal de sua casa até o local onde vão oficializar seu casamento. No meio do caminho, na mesma medida em que os segue, a câmera se distrai com tudo o que pode, do caos das ruas hiperpovoadas de Manilla até uma tentativa de suicídio. Parece que a ideia é não deixar nada de fora, abranger o mundo de uma vez só, assim como na vida.
Mas a beleza quase inocente com que o filme apresenta seus personagens contrasta com o passo seguinte. Mais uma vez, assim como na vida, Mendoza introduz o outro lado do protagonista. O jovem Peping perde parte de sua pureza inicial em práticas ilegais que desencantam o espectador. Em seguida, ele mergulha, ainda que sem querer, num submundo perverso, que irá tentar corrompê-lo.
A mudança de tom é bem marcada pelos opostos mais óbvios, dia e noite. Mas na noite de Kinatay, o áudio assume as vezes da câmera na tentativa do cineasta de tomar o mundo para si. A partir daí, música, ruídos, vozes e todos os tipos de sons surgem juntos para oferecer um mosaico vivo que captura o que está a seu alcance. Esse trabalho torna a viagem de Dante do personagem muito mais real, muito menos óbvia.
As imagens e os sons de Mendoza indicam que qualquer ação é resultado de um conjunto de coisas. As cenas fortes de agressão, estupro e mutilação, filmadas da maneira mais elegante possível, têm um objetivo, que mora muito mais próximo da consciência do imprevisto como soma de movimentos, o curso natural da vida, do que da gratuidade. Assim como na vida, nem sempre é fácil dizer não. E nem sempre um "sim" revela tudo.
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