Quinta, Maio 13
[robin hood]



O paralelo mais imediato que se pode fazer (para ilustrar o que é esse Robin Hood de Ridley Scott) é com Rei Arthur, longa assinado por Antoine Fuqua em 2004. Ambos os filmes partem do pressuposto de que vão contar a verdadeira história por trás de uma lenda britânica. Detalhe: nos dois casos, os filmes vendem gato por lebre em sua tentativa de emprestar embasamento histórico ao nosso inventário popular. O fato é que essa arte da "reimaginação", como se costuma chamar filmes golpistas como estes, é um belo de um pé no saco.
E essa definição se acirra quando se trata de um filme de Ridley Scott. O cineasta já teve sua fase de filme notáveis tempos atrás, mas de uns anos pra cá, parece repetir o mesmo modelo de filme-verdade, com câmera trêmula e fotografia azulada, seja na Roma Antiga (Gladiador, 2000), na África em guerra (Falcão Negro em Perigo, 2001) ou no Oriente Médio recente (Rede de Mentiras, 2009). Em Robin Hood, seu método documental tenta credibilizar ~sua versão para a lenda do arqueiro renegado.
Para tentar embasar este texto, revi a incursão mais clássica do mito para as telas, As Aventuras de Robin Hood, dirigido por Michael Curtiz e William Keighley em 1938, uma das sessões da tarde mais reprisadas de todos os tempos. O objetivo era observar as modificações na história feitas por Scott já que o conceito defendido no filme de Curtiz pouco foi modificado nas versões feitas do herói até então, passando pelo Robin raposa da Disney e até pelas encarnações de Sean Connery e Kevin Costner. E Scott mudou bastante.
Robin virou um cruzado, perdeu sua origem nobre, ganhou quase que uma sina de salvador e não chega a enfrentar seu maior rival, o xerife de Nottingham, duelo que o cineasta parece guardar para a sequência, que, se não vier, não será por falta de deixa. E Lady Marian, aqui Marion, não é mais uma donzela protegida pela realeza. Cate Blanchett tenta defendê-la em vão. Scott não poupou nem os fatos históricos: no filme de 1938, a história se passa quando Ricardo Coração de Leão é aprisionado na Áustria por nove meses para só então voltar a assumir a Coroa Britânica. Aqui, o rei morre numa batalha na França logo no começo do filme antes de retornar a seu país depois das Cruzadas (fato que aconteceu!).
OK, as alterações seriam até justificadas se o filme se aproveitasse delas em prol de seus atributos cinematográficos, mas isso não acontece. Essa preocupação em deixar tudo muito sério e sinistro emperra o ritmo do filme, que parece mecânico em excesso e nunca chega a empolgar, como em várias sequências memoráveis de seu ancestral de 1938. Errol Flynn fazia um herói incotestável, mas cheio de humor e leveza, o que decretou para sempre o perfil do herói de capa e espada. Já Russell Crowe, que não chega a incomodar aqui, vive um homem que carrega um peso invisível que não se justifica a não ser para dar o tom sério e importante que Scott confere ao filme.
Se o herói de Errol Flynn era mais autêntico por sua esponteidade, o de Crowe tenta ser mais "humano" e termina virando um grande chato. Sobretudo quando, na batalha final do filme (uma versão do Dia D de O Resgate do Soldado Ryan medieval), seus atos heroicos não passam de uma sequência de cenas truculentas filmadas como cinema-verdade que não convencem ninguém de que ali está um filme bom. Talvez somente a presença de Max Von Sydow, sempre um bálsamo em qualquer filme, chegue perto desse feito.
Robin Hood 

Robin Hood
Ridley Scott, 2010
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Comentários
Gosto bastante e acompanho seu blog há um tempinho.
Realmente esse Robin Hodd parece um engodo rsrs.
Tudo bem fazer um "filme de origens", mas deixar de lado a essência dos personagens já é demais... E concordo que quando Max von Sydow está em cena as coisas melhoram um pouco. Mas isso não faz do filme um filme bom.
Pois é, Fred, a Marion virou ninja.
Camila, obrigado pelas visitas. Depois me diga o que vc achou.
Pergunta: Robin Hood é um título fadado a gerar filmes ruins? Não vi o original, mas não podemos deixar de lembrar o grandioso fiasco intermediário. Aquela coisa ridícula como o Kevin Costner...
Valeu pela ousadia. E adorei ver Lady Marion tomar atitude e não ser aquela chatinha que fica dando gritinhos. Espero pela sequência.
Gosto de diferenças.
Se fosse para ver o mesmo, esperaria passar na seção da tarde.
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