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Terça, Abril 13

[as melhores coisas do mundo]

Francisco Miguez

Gabriel Illanes, Francisco Miguez, Gabriela Rocha

Fiuk

Há cerca de oito meses, o cineasta norte-americano John Hughes morreu. E, com ele, parte da adolescência de qualquer jovem que viveu nos anos 80. Apesar de seus filmes serem basicamente comédias, Hughes foi um dos primeiros a encarar o adolescente contemporâneo com seriedade, como um ser em ebulição, cheio de perguntas e doido por respostas. Os filmes do diretor serviram para moldar muito de como o cinema americano passou a tratar os jovens. Foi como o pioneiro de uma tradição. Uma tradição que nunca encontrou par no Brasil. Por um motivo ou por outro, o cinema brasileiro nunca deu muita atenção ao nosso adolescente, que, com raras exceções, quase sempre virou coadjuvante em filmes que se levam a sério.

Mesmo depois da chamada Retomada da produção nacional, termo que já caiu em desuso mas aqui serve para marcar um período histórico, poucas vezes se deu atenção ao jovem sem que ele estivesse dentro de um contexto maior: violência, drogas, criminalidade. Mais raro do que ver um adolescente na tela do cinema brasileiro é ver um filme sobre seu cotidiano, sua maneira de olhar pro mundo e suas dúvidas que não acabam nunca. É meio incrível que um material tão rico tenha sido praticamente ignorado pelo cineastas brasileiros até então. As Melhores Coisas do Mundo tenta preencher esta lacuna.

A cineasta Lais Bodanzky, de Bicho de Sete Cabeças, é quem resolveu mexer no vespeiro. Com a condição de que pudesse dar sua tradução para a série de livros "Mano", de Gilberto Dimmenstein e Heloísa Prieto, Lais aceitou dirigir o filme que acompanha um grupo de amigos na faixa dos 15 anos, alunos de uma escola particular de classe média de São Paulo. Entre eles, o protagonista desta história, Mano, um garoto que, além de seus próprios conflitos pessoais, precisa administrar a separação de seus pais e a depressão de seu irmão mais velho.

Mano ganhou um intérprete impecável. Francisco Miguez, em sua primeira experiência no cinema, vive um clássico herói dos filmes teens dos anos 80: um garoto simples, inteligente, meio tímido, de bom coração. Seu molde pode parecer clichê, mas o rapaz conseguiu dar a tradução exata para o personagem. O ator se adapta com facilidade ao estilo que a diretora impõe ao filme. A proposta da história é naturalista: nada do que acontece com Mano, sua família ou seus amigos ganha dimensões maiores do que deve. Tudo em As Melhores Coisas do Mundo é tratado da maneira mais simples possível, como parte do cotidiano.

[Mais:]

Gabriel Illanes, Francisco Miguez, Gabriela Rocha

Denise Fraga, Francisco Miguez

Gabriela Rocha, Francisco Miguez

Essa simplicidade, mais do que charme, é o que torna o filme um retrato delicado da juventude brasileira. Eu disse brasileira? Esqueçam. Porque esse filme é universal. Lais acerta bastante em dar ao bullying o mesmo espaço que a catarse do protagonista com a mãe, que ganhou de Denise Fraga, geralmente presa ao mesmo personagem, uma bela intérprete. O roteiro de Luiz Bolognesi, marido de Laís, é muito feliz ao passar por diversos aspectos da vida e do perfil do adolescente sem se ater a eles por tempo demais, como quem segue o fluxo dos acontecimentos.

Por isso, a primeira vez do protagonista, o segredo de família, o beijo roubado, o amigo garanhão (o bom Gabriel Illanes) ou a patricinha safadinha, temas que renderiam um filme cada um, terminam fazendo parte de um todo, dando ao filme uma substância até então inédita no cinema brasileiro nesse assunto. Por isso, a principal atriz do filme, a encantadora Gabriela Rocha (entrevista aqui), é uma menina que pouco se parece com as outras meninas da escola, mas que nunca é apresentada como diferente ou especial. A gente apenas descobre que ela é.

A diretora acerta inclusive em deixar o filme mais próximo do jovem de hoje com dois personagens. O irmão do protagonista, vivido por um Fiuk caricato, é um daqueles blogueiros-poetas-artistas romântico-deprimidos-endadonhos que se vendem a quilo na internet. Sua história paralela é o ponto mais frágil do filme, mesmo assim, retrata de maneira bastante fiel um perfil de jovem - adolescente ou mais do que isso - que transforma a vida virtual em motor que catalisa suas angústias. De um lado o peso de uns personagens, do outro uma maneira inteligente e cheia de humor de retratar o culto ao registro com a personagem da Dri Novaes, a blogueira fofoqueira que não perdoa ninguém.

O filme de Lais Bodanzky é um filme romântico. Não no sentido de ser um filme de amor, mas em como a diretora parece apaixonada pelos personagens e por suas histórias. Tanto que Paulo Vilhena e Caio Blat, dois nomes conhecidos do elenco e que devem chamar o público pros cinemas, são meros coadjuvantes. Foi com essa preocupação em ser fiel ao espírito de inquietação de quem está na flor da idade que Laís conduziu a historinha de amor que, claro, também seria fundamental num filme sobre adolescentes. Uma história que a gente já adivinha desde o começo, mas isso pouco importa porque é tão fácil se identificar com os personagens deste filme que não faz mal algum torcer pelo clichê.

As Melhores Coisas do Mundo EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
As Melhores Coisas do Mundo
Lais Bodanzky, 2010

posted by Chico Fireman at 02:43:39 | 18 comentários



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Comentários




Borboletas nos Olhos · http://borboletasnosolhos.blogspot.com/
Se o filme for belo e delicado como esse comentário, vale demais assistir.
13.04.10 @ 10:13


Rayanne Allane
Melhor Filme que já vi em toda minha vida '-'
13.04.10 @ 15:21


Eduardo Aguilar
O Inácio Araujo em recente post no blog q. utiliza via uol levanta a questão sobre o impasse do cinema nacional. Ele faz uma comparação com o cinema argentino na relação entre os filmes pequenos e os blockbusters, em linhas gerais, ele aponta q. fora os blockbusters perdeu-se o contato com o público. Na visão dele, o problema parece estar associado principalmente ao fato do público estar catequisado a um determinado tipo de produção. De minha parte, acho q. ele tem razão, mas na outra ponta, os nossos cineastas perderam os laços com o seu público. Eu entendo q. um cinema brasileiro q. pouco explora o futebol - uma paixão nacional! -, precisa ser repensado, e como vc. bem aponta, um cinema q. não fala com os adolescentes, parte expressiva do público q. vai as salas de exibição, certamente está perdido no diálogo com seu público.

No mais, justiça seja feita, para o bem ou para o mal, o Jorge Furtado procura se voltar para o adolescente, em especial "Houve uma vez dois verões" me parece um ótimo filme q. só não foi melhor junto ao público por conta do lançamento, alias, distribuição é parte importante desta discussão: "cineastas X público".
13.04.10 @ 15:30



Aguilar, concordo com você quando você fala que o cinema brasileiro dialoga pouco com o público. E isso não está em diminuir os critérios e "se vender" ao cinema comercial. Por sinal, cinema comercial também pode ser bom. Este filme é um bom exemplo de como se fazer um filme inteligente e conversar com o público. E outra coisa: filmes podem ser feitos para públicos específicos. Devem até. Espero que o Brasil comece a tentar conquistar os adolescentes. Pelo menos os inteligentes.
13.04.10 @ 15:58


Bem lembrado! "Houve uma vez dois verões" é ótimo!
13.04.10 @ 23:04


O filme é muito bem feito e tem um realismo, uma ligação forte com a realidade do jovem brasileiro. Gostei bastante, também.
14.04.10 @ 00:11


Denise Fraga está realmente impecável no filme.Uma das mais vulneráveis e contraditórias mães do cinema brazuca.Talvez a das melhor até aqui.Outros pontos positivos do filme: Poderíamos destacar todo o frescor naturalista do filme inteiro mas,a doçura com que o ator compõe Mano que acaba fazendo um momento raro no nosso cinema.
Talvez só no desenlace de algumas situações já no final o roteiro tenha se perdido um pouco mas, até aí já embarcamos TOTAL naqueles problemas e nem nos incomodamos muito.
Espero realmente que o filme possa levar um bom núm. de espectadores.
Se depender do meu marketing boca-a-boca o marketing será de guerrilha!AAAAAAAAAAAAAAAA!
14.04.10 @ 00:18


Fiquei curioso...vou assistir no fim de semana! Depois comento!
14.04.10 @ 00:24


Gostei muito do blog, suas críticas são mt interessantes e irei ver este filme da Laís. Em breve deixo um coment aqui.

Abraços !
15.04.10 @ 01:09


Alexandre Carlomagno · http://cinemorfose.wordpress.com/
Assim como "Chico Xavier", não tive a oportunidade de assistir este tão elogiado filme. Aliás, me desculpe se tal comparação foi feita em seu texto (pretendo ler após assistir ao filme), mas como este se equipara a Apenas o Fim, outra tentativa - falha, na minha opinião - em se comunicar com o público adolescente?

Forte abraço!
16.04.10 @ 03:36


Puta texto, Chico. O meu por enquanto está só no rascunho, mas sai em breve. Saí ontem da sessão do filme muito satisfeito.

O ponto mais fraco é com certeza o personagem Pedro, mas é algo que pode ser relevado numa boa diante do todo, que é ótimo. Puxa!
17.04.10 @ 12:58


Ah, torço muito pra esse filme dar certo. Não vi, mas tenho certeza que é ótimo. Pelos comentários que eu tenho visto, lembra um pouco o Podecrer!, não acha? Eu gostei muito desse filme, é outro que fugiu do que sempre é feito por aqui.
18.04.10 @ 23:58


Alexandre Carlomagno · http://cinemorfose.wordpress.com/
Belíssima comunicação entre cinema e o público jovem. Mais que uma excelente peça da cinematografia nacional, As Melhores Coisas do Mundo é necessário e muito benvindo para quebrar a já quase hegemonia do diálogo entre personagens marginais e o adolescente brasileiro. Eu talvez esteja soando radical e impetuoso em demasiado, e por isso peço desculpas, mas o filme da Bodanzky vem para projetar uma realidade orfã nos filmes modernos do Brasil - muito mais que a porcaria pretensiosa Apenas o Fim, este é um genuíno exemplar de cinema digno de aplausos.

Forte abraço a todos!
27.04.10 @ 21:38


Alexandre Carlomagno · http://cinemorfose.wordpress.com/
Belíssima comunicação entre cinema e o público jovem. Mais que uma excelente peça da cinematografia nacional, As Melhores Coisas do Mundo é necessário e muito benvindo para quebrar a já quase hegemonia do diálogo entre personagens marginais e o adolescente brasileiro. Eu talvez esteja soando radical e impetuoso em demasiado, e por isso peço desculpas, mas o filme da Bodanzky vem para projetar uma realidade orfã nos filmes modernos do Brasil - muito mais que a porcaria pretensiosa Apenas o Fim, este é um genuíno exemplar de cinema digno de aplausos.

Forte abraço a todos!
27.04.10 @ 21:39


Alaine Cristine
O filme é muito incrivel, tive a belissima oportunidade de assisti-lo ontem e fiquei tão feliz que nosso cinema nacional esteja dando espaço para jovens talentos!
Seu Blog é demais!
Até
03.05.10 @ 08:40


Tatiana Borges
Olá,posso dizer que estou apaixonada pelo filme. Muito lindo! Já sou fã da Laís Bodanzky desde o filme "Bicho de Sete cabeças", então já imaginava que seria bom, porém, foi muito mais que isto. Não é um filme para adolescentes e sim sobre a adolescência. Me identifiquei, me emocionei muito. O elenco está excelente, principalmente os atores Francisco Miguez e Gabriela Rocha, já que é o primeiro trabalho deles. A diretora soube tratar os temas de uma forma muito sensível, foi muito natural. Abraços
08.05.10 @ 18:04


Maria Cecília Félix Salsa
OI,FRAN!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! É A CECCEL,LEMBRA??? DESCOBRI SEU "PARADEIRO" ATRAVÉS DA MARIA. QUE SAUDADE.FIQUEI FELIZ EM PODER FALAR COM VC E APRECIAR SUA GENIALIDADE,QUE DESDE CEDO JÁ ERA VISTA POR TODOS. MANDE UM ALÔ NO MEU E-MAIL.BEIJO GRANDE.
13.05.10 @ 20:55


Bel
O Filme é otimo esse foi o melhor filme brasileiro que ja assistir fala do dia-a-dia de um adolescente que sofre com o pai que é Gay e no final dá tudo certo e ele acaba ficando feliz com sua familia *---*
18.05.10 @ 23:33


Este post tem 4 comentários aguardando aprovação...

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