Terça, Abril 13
[as melhores coisas do mundo]



Há cerca de oito meses, o cineasta norte-americano John Hughes morreu. E, com ele, parte da adolescência de qualquer jovem que viveu nos anos 80. Apesar de seus filmes serem basicamente comédias, Hughes foi um dos primeiros a encarar o adolescente contemporâneo com seriedade, como um ser em ebulição, cheio de perguntas e doido por respostas. Os filmes do diretor serviram para moldar muito de como o cinema americano passou a tratar os jovens. Foi como o pioneiro de uma tradição. Uma tradição que nunca encontrou par no Brasil. Por um motivo ou por outro, o cinema brasileiro nunca deu muita atenção ao nosso adolescente, que, com raras exceções, quase sempre virou coadjuvante em filmes que se levam a sério.
Mesmo depois da chamada Retomada da produção nacional, termo que já caiu em desuso mas aqui serve para marcar um período histórico, poucas vezes se deu atenção ao jovem sem que ele estivesse dentro de um contexto maior: violência, drogas, criminalidade. Mais raro do que ver um adolescente na tela do cinema brasileiro é ver um filme sobre seu cotidiano, sua maneira de olhar pro mundo e suas dúvidas que não acabam nunca. É meio incrível que um material tão rico tenha sido praticamente ignorado pelo cineastas brasileiros até então. As Melhores Coisas do Mundo tenta preencher esta lacuna.
A cineasta Lais Bodanzky, de Bicho de Sete Cabeças, é quem resolveu mexer no vespeiro. Com a condição de que pudesse dar sua tradução para a série de livros "Mano", de Gilberto Dimmenstein e Heloísa Prieto, Lais aceitou dirigir o filme que acompanha um grupo de amigos na faixa dos 15 anos, alunos de uma escola particular de classe média de São Paulo. Entre eles, o protagonista desta história, Mano, um garoto que, além de seus próprios conflitos pessoais, precisa administrar a separação de seus pais e a depressão de seu irmão mais velho.
Mano ganhou um intérprete impecável. Francisco Miguez, em sua primeira experiência no cinema, vive um clássico herói dos filmes teens dos anos 80: um garoto simples, inteligente, meio tímido, de bom coração. Seu molde pode parecer clichê, mas o rapaz conseguiu dar a tradução exata para o personagem. O ator se adapta com facilidade ao estilo que a diretora impõe ao filme. A proposta da história é naturalista: nada do que acontece com Mano, sua família ou seus amigos ganha dimensões maiores do que deve. Tudo em As Melhores Coisas do Mundo é tratado da maneira mais simples possível, como parte do cotidiano.



Essa simplicidade, mais do que charme, é o que torna o filme um retrato delicado da juventude brasileira. Eu disse brasileira? Esqueçam. Porque esse filme é universal. Lais acerta bastante em dar ao bullying o mesmo espaço que a catarse do protagonista com a mãe, que ganhou de Denise Fraga, geralmente presa ao mesmo personagem, uma bela intérprete. O roteiro de Luiz Bolognesi, marido de Laís, é muito feliz ao passar por diversos aspectos da vida e do perfil do adolescente sem se ater a eles por tempo demais, como quem segue o fluxo dos acontecimentos.
Por isso, a primeira vez do protagonista, o segredo de família, o beijo roubado, o amigo garanhão (o bom Gabriel Illanes) ou a patricinha safadinha, temas que renderiam um filme cada um, terminam fazendo parte de um todo, dando ao filme uma substância até então inédita no cinema brasileiro nesse assunto. Por isso, a principal atriz do filme, a encantadora Gabriela Rocha (entrevista aqui), é uma menina que pouco se parece com as outras meninas da escola, mas que nunca é apresentada como diferente ou especial. A gente apenas descobre que ela é.
A diretora acerta inclusive em deixar o filme mais próximo do jovem de hoje com dois personagens. O irmão do protagonista, vivido por um Fiuk caricato, é um daqueles blogueiros-poetas-artistas romântico-deprimidos-endadonhos que se vendem a quilo na internet. Sua história paralela é o ponto mais frágil do filme, mesmo assim, retrata de maneira bastante fiel um perfil de jovem - adolescente ou mais do que isso - que transforma a vida virtual em motor que catalisa suas angústias. De um lado o peso de uns personagens, do outro uma maneira inteligente e cheia de humor de retratar o culto ao registro com a personagem da Dri Novaes, a blogueira fofoqueira que não perdoa ninguém.
O filme de Lais Bodanzky é um filme romântico. Não no sentido de ser um filme de amor, mas em como a diretora parece apaixonada pelos personagens e por suas histórias. Tanto que Paulo Vilhena e Caio Blat, dois nomes conhecidos do elenco e que devem chamar o público pros cinemas, são meros coadjuvantes. Foi com essa preocupação em ser fiel ao espírito de inquietação de quem está na flor da idade que Laís conduziu a historinha de amor que, claro, também seria fundamental num filme sobre adolescentes. Uma história que a gente já adivinha desde o começo, mas isso pouco importa porque é tão fácil se identificar com os personagens deste filme que não faz mal algum torcer pelo clichê.
As Melhores Coisas do Mundo 



As Melhores Coisas do Mundo
Lais Bodanzky, 2010
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Comentários
No mais, justiça seja feita, para o bem ou para o mal, o Jorge Furtado procura se voltar para o adolescente, em especial "Houve uma vez dois verões" me parece um ótimo filme q. só não foi melhor junto ao público por conta do lançamento, alias, distribuição é parte importante desta discussão: "cineastas X público".
Aguilar, concordo com você quando você fala que o cinema brasileiro dialoga pouco com o público. E isso não está em diminuir os critérios e "se vender" ao cinema comercial. Por sinal, cinema comercial também pode ser bom. Este filme é um bom exemplo de como se fazer um filme inteligente e conversar com o público. E outra coisa: filmes podem ser feitos para públicos específicos. Devem até. Espero que o Brasil comece a tentar conquistar os adolescentes. Pelo menos os inteligentes.
Talvez só no desenlace de algumas situações já no final o roteiro tenha se perdido um pouco mas, até aí já embarcamos TOTAL naqueles problemas e nem nos incomodamos muito.
Espero realmente que o filme possa levar um bom núm. de espectadores.
Se depender do meu marketing boca-a-boca o marketing será de guerrilha!AAAAAAAAAAAAAAAA!
Abraços !
Forte abraço!
O ponto mais fraco é com certeza o personagem Pedro, mas é algo que pode ser relevado numa boa diante do todo, que é ótimo. Puxa!
Forte abraço a todos!
Forte abraço a todos!
Seu Blog é demais!
Até
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péssimo 







