Sábado, Março 6
[direito de amar]



Os primeiros minutos de Direito de Amar (tradução tosca que deveria ser punida com decapitação) são dignos de respeito. Colin Firth, numa interpretação delicada e sem afetação, vaga por seu apartamento tentando encontrar na rotina, refúgio e motivação. Num dos primeiros dos flashbacks que ditam a construção do filme, ele recebe a notícia da morte do namorado com quem estava junto havia 16 anos. A belíssima cena é toda baseada no rosto e nas expressões do ator, que com sutileza empresta ao personagem uma dignidade dolorosa impossível de não se identificar. É o melhor momento do filme de estreia do estilista Tom Ford na direção. Um dos raros momentos plenos do longa.
O que vem a seguir revela o esforço e a inexperiência do novo cineasta em dar corpo a sua história de solidão. Ford parece bastante interessado em construir um filme plasticamente impecável então, além de caprichar na direção de arte, faz um trabalho interessante com sua fotografia, variando o tom das cores de acordo com o tom das cenas (ideia que fica avariada com a péssima qualidade da cópia digital). A obsessão estética, como classificou minha amiga Dolores Orosco, atravessa o cinematográfico e vai parar no casting: os jovens (homens e mulheres) que cruzam o caminho do protagonista parecem saídos das passarelas mais próximas, sempre bonitos, magros, prontos para posar.
No entanto, embora acerte na escolha da bela trilha de Abel Korzeniowski, que traduz a melancolia do filme, Ford parece não saber dar estofo à angústia de seu personagem. A culpa pode ser anterior, do livro de Christopher Isherwood, que recorre a um texto cheio de metáforas óbvias, como na cena da aula; joguetes de sedução que não saem da mesmica, seja com o prostituto espanhol ou com o aluno assanhado; e momentos de redenção übberclichês, como o banho de mar noturno.
Nem a presença de Julianne Moore, que continua linda e boa atriz, consegue dar densidade à dramaturgia. Na cena do jantar, ela e Firth parecem estar prontos para fazer explodir seus dramas, mas ficam travados pelo roteiro. Falta profundidade e refinamento. O vazio emocional do protagonista, embora bem traduzido na performance do ator principal, se transforma em discurso vazio por causa do texto fraco. Em vez de dirigir, produzir e escrever seu próximo filme, Tom Ford poderia tentar se concentrar numa só função para talvez mostrar tanto talento quanto na passarela.
Direito de Amar 

A Single Man, Tom Ford, 2009
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