Segunda, Fevereiro 8
[oscar 2010 - os grandes esnobados]



Numa tentativa de parecer mais representativo, o Oscar 2010 apresentou dez indicados a melhor filme, mas mesmo assim a Academia conseguiu deixar Invictus, de Clint Eastwood, de fora da lista de sua principal categoria. O longa do velho caubói é apenas uma das grandes omissões que o Oscar cometeu neste ano. Detalhe: a vaga do filme de Clint, pelo que indicavam as bolsas de apostas, foi tomada por Um Sonho Possível, veículo medíocre que John Lee Hancock dirigiu para dar a Sandra Bullock sua primeira indicação como melhor atriz.
Invictus merecia muito mais, mas como foi lembrado apenas discretamente pelos prêmios da crítica, que servem de precursores para os indicados ao Oscar, morreu nas indicações para Morgan Freeman, inspirado, e Matt Damon, que não merecia a citação, mas poderia ter sido lembrado por sua melhor performance, em O Desinformante, que também teve a ótima trilha de Marvin Hamlisch ignorada pela Academia. Damon não teve chances como ator principal porque o páreo estava duro neste ano.

E esta deve ter sido uma das razões para que Nicolas Cage, praticamente esnobado pelos críticos, não tenha tido indicação pelo seu melhor trabalho desde Despedida em Las Vegas: a versão de Werner Herzog para Vício Frenético, um filme completamente esquecido pela Academia. Se o filme do alemão não tinha chances, o mesmo não se pode dizer do retorno de Spike Jonze ao cinema.
Onde Vivem os Monstros, belíssima adaptação do livro infantil de Maurice Sendak foi ignorado por morar no limite entre a ousadia e o classicismo. Poderia e não foi citado como filme, pelo roteiro, pela fotografia, pela trilha considerada inelegível, pelas canções ("All is Love" foi a melhor música de 2009) e, por que não?, pelos sensacionais figurinos. Mas ousar demais é pecado quando o ano aposta no certo, no óbvio e nas bilheterias para recuperar prestígio e audiência.

Se o encantador filme de Jonze não teve chances, imagina como a história de amores de James Gray foi recebida pela Academia depois do espetáculo bizarro que seu protagonista, Joaquin Phoenix, deu num programa de entrevistas. Amantes, que já não faz exatamente o perfil do Oscar, saiu perdendo. Ficou desacreditado. E nem Phoenix, que está sublime no filme, conseguiu se manter na disputa. Michelle Pfeiffer, por Chéri, merecia mais do que Bullock, mas o filme não foi bem. Mas não indicar os figurinos de Consolata Boyle foi injusto.
Os filmes de terror são tradicionalmente ignorados e, desta forma, a excelente trilha que Christopher Young fez para Arrasta-me para o Inferno foi solenemente ignorada. Entre as animações, mesmo com Tá Chovendo Hamburger perdendo a indicação, o belo australiano Mary e Max e o japonês Ponyo, do grande Hayao Miyazaki, foram esnobados em favor de O Segredo de Kells. O Fantástico Sr. Raposo, indicado e também candidato a trilha, merecia citações entre os roteiros adaptados e as direções de arte.

Dois latino-americanos entraram na lista de estrangeiros (A Teta Assustada e O Segredo dos Seus Olhos), mas um filme melhor do que eles ficou de fora, o uruguaio Mau Dia para Pescar. Outras três omissões imperdoáveis foram a do coreano Mother, do iraniano Procurando Elly e do romeno Polícia, Adjetivo. Os quatro filmes foram inscritos oficialmente por seus países e, desta forma, eram elegíveis para disputar o Oscar. Mas não passaram da primeira peneira na categoria. A Fita Branca, indicado e candidato também em fotografia, poderia ter tido indicações para Michael Haneke ou alguns de seus atores.
Mais absurdo mesmo foi a esnobada geral em cima de Inimigos Públicos, de Michael Mann, que chegou a ser cotado para melhor filme e poderia facilmente parar entre os indicados de montagem, direção de arte, figurinos e, especialmente, pelos ótimos trabalhos em fotografia e som. Mais discreto, Moon, de Ducan Jones, era a esperança dos alternativos de se verem representados na festa do Oscar. Sam Rockwell em sua melhor interpretação se viu esquecido diante da quantidade de candidatos mais "barulhentos" entre os atores protagonistas.

Saoirse Ronan está perfeita em Um Olhar do Paraíso, mas sumiu das bolsas de apostas depois que o filme foi massacrado pelos críticos (de certa forma, até merecidamente). Educação viu Carey Mulligan e o roteiro de Nick Hornby indicados (e ainda disputa como melhor filme), mas nunca foi muito considerado nas categorias técnicas: merecia atenção pelo menos em direção de arte e figurinos. Já o sumiço de Brilho de uma Paixão é meio misterioso. De um dos favoritos, o filme foi perdendo força em praticamente todas as categorias. Abbie Cornish e Jane Campion, em direção e roteiro, caíram e o filme ficou restrito à indicação pelos excelentes figurinos.
Paul Schneider poderia ter concorrido como coadjuvante pelo filme de Campion. E se o Oscar fosse sério, Zach Galifianakis, por Se Beber Não Case, e Bill Murray, por Zumbilândia, poderiam facilmente se juntar a ele na categoria. Star Trek também caiu de roteiro adaptado e direção de arte (e até melhor filme) por preconceito (e por que talvez as cotadas da Academia para filmes de ficção-científica já tivessem sido preenchidas por Avatar e Distrito 9. A Estrada também parece ter ficado à sombra da última adaptação de Cormac McCarthy para o cinema, Onde os Fracos Não Têm Vez, que ganhou vários Oscars. Merecia ator para Viggo Mortensen e maquiagem. Será que o sistema de cotas da Academia mandou pular o McCarthy desta vez?
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Comentários
Sobre "Nine", você tem suas razões, mas deu pra encarar... suspendendo o juízo crítico
Não assisti "Ponyo", mas pude conferir "O Segredo de Kells" no FICI e gostei bastante.
abraço!
Concordo com quase tudo que você disse. é imperdoável a não menção a Mortensen no brilhante A Estrada (o Filhos da Esperança de 2010), Onde Vivem os Monstros, Moon, Mother (que perdeu para o chatinho Ajami de Israel, e o irregular Teta Assustada... os outros três são excelentes ou muito bons).
Apesar de lindissimo Olhar no Paraíso me soou deverás pretencioso, exagerado.
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péssimo 







