Segunda, Janeiro 25
[um sonho possível]



Todo mundo já deve saber que Sandra Bullock é a favorita para ganhar o Oscar de melhor atriz neste ano por O Lado Cego. Difícil é acreditar que a boa (e inofensiva) comediante esteja sendo cotada por um filme tão medíocre em que nem sua saudada interpretação vale nota azul. O longa de John Lee Hancock tem iscas para atrair o público: trata-se de uma história real de superação que tem como pano de fundo o futebol americano, um das paixões nacionais nos EUA. E as iscas deram bastante certo: o filme terminou 2009 como a oitava maior bilheteria do ano, mais de US$ 233 milhões.
Tanto dinheiro deu visibilidade ao filme e, especialmente, a Sandra, que começou a aparecer em listas de melhores atrizes do ano, dividiu o Critics Choice com Meryl Streep e ganhou, sozinha, o Globo de Ouro e o prêmio do Sindicato dos Atores. Parece imbatível. Infelizmente porque, apesar de já ter tido momentos inspirados em comédias passadas, esta atriz mostra todas suas limitações quando se arrisca em filmes dramáticos. E aqui não foi diferente. Sandra, basicamente, interpreta uma perua firme e decidida, mas de bom coração, que adota um garoto negro gigante e o ajuda a descobrir seus talentos no esporte.
A personagem dela é bastante simpática, mas Sandra não sabe nos oferecer qualquer nuance de sua personalidade. Sua Leigh Ann Tuohy é uma linha reta (o que piora tudo quando sabemos que é uma personagem que segura suas emoções), o que emula o próprio filme, burocrático e convencional, que não apresenta uma só curva dramática e que, se foge de momentos de dramalhão, também é incapaz de elaborar os conflitos emocionais do protagonista e do papel de Sandra, sua principal interlocutora.
John Lee Hancock elege o filme como veículo para sua atriz a tal ponto que sequer sabemos do que a família Tuohy vive. No único lampejo de inventividade do filme, os filhos de Leigh Ann são flagrados pela mãe numa livraria, onde folheiam "Onde Vivem os Monstros", de Maurice Sendak. Se Sandra Bullock realmente ganhar o Oscar neste ano, o prêmio não terá vindo por méritos seus, mas por uma conjunção de fatores que tornaram O Lado Cego um sucesso de público e pela inesgotável simpatia da atriz, que provavelmente não terá outra chance de ir tão longe.
Um Sonho Possível 
The Blind Side, John Lee Hancock, 2009
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E a atriz principal mandou muito bem.
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