Segunda, Janeiro 18
[oscar 2010 - a corrida depois do globo de ouro]

O que a festa deste domingo dos Globos de Ouro representam na corrida pelo Oscar? Mais certezas do que se possa imaginar. A vitória de Avatar nas categorias de filme dramático e direção deve ser um indício de que, além da já esperada enxurrada de indicações técnicas, o filme de James Cameron chegue mesmo como favorito nos dois quesitos principais. Entre a condição "brincadeira cara", filme pouco sério, a marco na história do cinema, Avatar ganhou o apoio da crítica, a aprovação de todos os sindicatos de categorias e uma bilheteria mundial de mais de US$ 1,6 bilhão.
E não é à toa que o Globo de Ouro tenha sido o primeiro prêmio importante a reconhecer o filme. Em 1998, Los Angeles - Cidade Proibida, de Curtis Hanson, ganhou praticamente todos os prêmios da crítica até chegar ao Globo de Ouro, quando Titanic, do mesmo James Cameron, levou filme e direção. E reprisou a façanha na noite do Oscar. A história se repete? É muito provável. Principalmente porque esse é um ano sem grandes favoritos. Eu arriscaria dizer, sem grandes filmes. E os modestos resultados dos concorrentes dos naa'vi tendem a desaparecer diante da monstruosidade de Avatar.
Veja o caso de Amor Sem Escalas. É um filme simpático, com atores simpáticos, mas além de ser um filme extremamente convencional (e eu diria até conservador em suas ideias sobre felicidade), tem uma virada de direção tão abrupta em sua segunda metade que o protagonista, antes tão cético quanto a suas posições, parece um traidor de sua causa. É difícil comprar a mudança. Além disso, a história pequena do personagem de George Clooney carece de representatividade. Por que um filme com alcance tão limitado deveria ser o melhor do ano? Amor Sem Escalas ganhou um esdrúxulo prêmio por seu roteiro, justamente o maior senão do filme. Parece muito mais resistência em arriscar do que certeza de merecimento.
Outro filme que fica pequeno perto de Avatar é Preciosa, de Lee Daniels. Embora tente ser um filme mais sério do que Amor Sem Escalas, tocando em temas mais imediatos, cruéis e pesados que representam toda uma condição social, ainda assim termina sendo a história de uma adolescente. Parece pequeno. Daniels nem chegou a ser indicado em direção e o único prêmio da noite foi a performance de Mo'Nique, em quem eu desacreditava durante boa parte do filme, mas que me conquistou especialmente em sua sequência final. Preciosa pode ficar restrito a isso: virar um filme de atores, de roteiro, que nem é lá essas coisas, de um diretor estreante. Cruel.
Chegamos então a Bastardos Inglórios. Sim, um grande filme, mas é impressionante como os EUA ainda resistem a Quentin Tarantino. Somente Pulp Fiction foi um filme amplamente premiado. Jackie Brown, Kill Bill e À Prova de Morte, todos ótimos, ou foram ignorados, ou ficaram restritos a categorias menores. Tarantino parece ser visto como um adolescente brincalhão. Nunca é levado a sério. O novo filme parecia que mudaria essa visão, mas até agora não fez nada de muito relevante nos precursores. Perdeu em roteiro, o que, se não abalou, não fez sua carreira deslanchar. Somente Christoph Waltz parece uma certeza. O que dizer do resto?
Por fim, Guerra ao Terror, o filme escolhido por nove em cada dez críticos neste ano. A temática (a guerra) ajuda, a realização técnica é impecável e o comando está nas mãos de uma mulher. Que tal acertar as contas, indicar a quarta diretora da história do Oscar e dar o primeiro prêmio a uma mulher? Parecia barbada. Kathryn Bigelow ganhou quase todos os prêmios de filme e direção da crítica, mas no Globo de Ouro seu filme não levou nem um "boa noite e boa sorte". Idiossincrasias à parte, eles já haviam premiado Barbra Streisand, não tinham que "corrigir" a história. O Oscar teoricamente tem. Mas será que o filme de Bigelow tem a representatividade necessária para ser o "filme do ano"? Será que num ano com dez longas concorrendo ao Oscar, a Academia vai achar que esse filme merece ganhar e outros nove e fazer história? Até ontem eu achava que poderia, sim, sobretudo na categoria de direção. Hoje, eu já não tenho tanta certeza.
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Comentários
Pois é, Rodrigo. Também tenho um certo pé atrás com o Waltz. Acho que, no fim, eles podem seguir outro caminho. Quanto à Bigelow, acho que o Cameron pode ser atrapalhado pelo excesso de digital no seu filme. Será?
"Avatar" inaugura uma nova possibilidade de cinema, Diogo. Não é só um filme de efeitos visuais. Eu tenho minhas ressalvas quanto ao filme, mas ele é um bom filme. E tem um significado simbnólico, de marco, de renovação, bem grande. Nunca pensei nisso, mas num momento de cinema está em crise financeira, "Avatar" e sua tecnologia são como os salvadores de sua espécie.
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