Sexta, Novembro 6
[mostra sp 2009, post 15]

Shirin 

Shirin, Abbas Kiarostami, 2008
A proposta radical funciona muito bem... mas só como proposta. Kiarostami nos convida a acompanhar uma filme sem ver uma única imagem da obra, apenas assistindo as reações de dezenas de mulheres que olham para a tela. O desafio seria testar nossa capacidade de adaptação. A provocação, medir nosso comodismo visual em relação ao cinema. Um experimento válido, mas que não leva a lugar nenhum. Abbas não propõe um novo olhar sobre a fruição de uma obra, não constrói um discurso sobre o novo formato. E ainda parece oferecer muito pouco (a história da princesa armênia é ruim e desinteressante) propositadamente como se fizesse uma piada. A presença de Juliette Binoche entre as dezenas de rostos iranianos só faz reforçar essa ideia.

Cinzas e Sangue 
Cendres et Sang, Fanny Ardant, 2009
O primeiro filme de Fanny Ardant como diretora mostra que a musa do Truffaut ainda tem muito o que aprender. Ousada, ela foi: resolveu levar para o cinema a história de duas famílias vizinhas que se odeiam na Romênia, material original de Ismail Kadaré. Não é à tôa que Cinzas e Sangue lembra aqui e ali Abril Despedaçado, outra obra baseada no escritor, outro filme em que o diretor não acerta o tom e não dá relevo aos personagens a ponto de seu comportamento violento parecer, como todos querem, herança de família. Ardant cria alguns momentos inteligentes visualmente, mas eles duram uma cena - às vezes, uma imagem. No resto, o filme parece querer justificar sua fragilidade com o excesso. Ronit Elkabetz rosna, maquiada como a princesa das trevas.

Perseguição 
Persécution, Patrice Chéreau, 2009
Patrice Chéreau conseguiu fazer um thriller psicológico tão chato quanto vazio. Parece um pastiche de muitas coisas. A cena no metrô lembra Haneke em Código Desconhecido e a obsessão de Jean-Hugues Anglade me fez lembrar de Mulher Solteira Procura, mas as ambições de psicologia do diretor aproximam o filme de alguns longas B norte-americanos com pretensões artísticas. Nem o bom elenco faz a trama idiota funcionar.

A Ilha de Bergman 


Bergman Island, Marie Nyreröd, 2006
Apesar do formato parecer o de um programa do Multishow, A Ilha de Bergman nos oferece a oportunidade única de invadir a intimidade de um cineasta conhecido pela reclusão. O filme posiciona a Ilha de Farö, onde o diretor viveu até sua morte, na história pessoal e na filmografia de Bergman. Utilizando bastante material de arquivo, inclusive cenas de bastidores inéditas, o longa peca na forma, mas acerta na organização do acervo. Os depoimentos do diretor em casa valem ouro, sobretudo aquele em que ele revela a farsa por trás de Gritos e Sussurros.

Lebanon 


Lebanon, Samuel Maoz, 2009
A projeção ao ar livre, cadeiras de plástico e a ameaça de chuva sempre iminente (e concretizada nos 15 minutos finais do filme) garantiram a sessão de cinema mais bizarra da minha vida. Por isso, acredito que minha visão inicial de Lebanon tenha sido prejudicada e seja possivelmente injusta. Mas a primeira impressão que tive do filme, que ganhou o Leão de Ouro no Festival de Veneza neste ano, foi a de que trata-se de mais do mesmo. Samuel Maoz não é um mau diretor: delineia os personagens com uma razoável competência, decreta seu território (o tanque) como limite máximo a percorrer, cria um clima de claustrofobia bastante real, acerta nas cenas iniciais de ataques que traduzem bem suas idéias sobre a guerra. No entanto, os maneirismos aparecem ao longo do filme em personagens secundários, que exalam clichês, e no processo esquizofrênico de um dos protagonistas, acelerado e óbvio demais.
Resenhas de todos os filmes vistos na Mostra 2009.
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