Quinta, Outubro 29
[mostra sp 2009, post 8]

Independência 


Independencia, Raya Martin, 2009
A composição visual deste filme filipino é, de longe, seu maior acerto. O longa de Raya Martin, que faz parte de uma trilogia sobre a colonização do país, assume a artificialidade como linguagem. A primeira impressão de Independência é que estamos diante de um filme norte-americano dos anos 30. Um daqueles sobre lugares "exóticos". A textura do preto-e-branco é exatamente a mesma. E o cenário de floresta equatorial é composto por plantas falsas e um fundo pintado, como Eric Rohmer fez em A Inglesa e o Duque. Com essa artificilidade, Martin parece querer criar um lugar imaginário, onde os personagens principais conseguem se refugiar da ocupação dos EUA, justamente nos anos 30. A história central, da família na floresta, pouco importa, talvez só exista para que os personagens possam usar suas metafóricas asas de palha. O posicionamento político do diretor fica mais flagrante quando a narrativa é cortada por um cine-jornal em tom irônico que apresenta "o mundo real". Apesar de suas ousadias, o filme, no entanto, parece meio confinado ao formato de "cinema para festivais", um calabouço ainda mais artificial do que o que o diretor quis apresentar.

Trilogia II: A Poeira do Tempo 

I Skoni Tou Hronou, Theo Angelopoulos, 2009
Decepcionante o segundo filme da trilogia iniciada em 2004 por Theo Angelopoulos. Enquanto o primeiro era focado num período histórico (a Grécia entrando no século XX), este acompanha a história errante de uma família. O diretor assume os vai-e-vens no tempo como modelo narrativo, mas praticamente os abandona depois da metade do filme, o que deixa o conjunto de certa forma caótico e o drama dos personagens, diluído. A decisão de manter Irène Jacob no papel feminino principal na juventude e na maturidade não funciona muito. A Eleni velha nunca parece natural. Até a fotografia, que geralmente sustenta os filmes de Angelopoulos parece menos esforçada aqui. Há momentos belíssimos na primeira metade de A Poeira do Tempo, mas depois tudo fica mais convencional. A trilha sonora é uma beleza.

Esburacando 

Man tänker sitt, Henrik Hellström e Fredrik Wenzel, 2009
O tratamento dado aos personagens parecia perfeito até a metade do filme (embora as falas do protagonista, um garoto de uns 8 anos, fossem difíceis de engolir). Pessoas perdidas no mundo, presas a convenções, limitações, formalidades, cujas vidas solitárias eram captadas por uma câmera naturalista. A fotografia e a quase ausência de trilha sonora ajudavam a estabelecer um clima melancólico, seco, não-dramatizado. No entanto, a certa altura, os diretores resolveram se perder mais do que os personagens e praticamente jogaram tudo pro alto. Numa reviravolta Iñarrituiana, se recorre ao choque para que a trama exploda e, de repente, o filme se enche de canções, que se tornam cânticos quase gregorianos. O atropelo final é a tentativa de resolver o personagem do garoto, numa cena calculada para "significar" e vazia para todo o sempre.
Resenhas de todos os filmes vistos na Mostra 2009.
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