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Quarta, Outubro 14

[festival do rio 2009, post 15]

Marco Pontecorvo

Parada EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
Pa-ra-da, Marco Pontecorvo, 2008

Eu só tenho elogios para Parada. O filho de Gillo Pontecorvo, Marco, estreia com o pé direito como diretor com um filme que facilmente cairia no dramalhão em mãos erradas. O longa mostra a história do palhaço de rua francês que vai para Bucareste quando ouve falar das crianças sem famílias, que moram nos esgotos, e passa a desenvolver um trabalho com elas. Com um plot desses, era de se esperar um filme piegas, que se utilizasse dessa história real para conquistar o espectador. Mas Pontecorvo evita o maniqueísmo com uma narrativa quase documental e um vigoroso domínio da imagem. Parada é muito bem filmado. Tem uma câmera viva, colorida, que se movimenta na medida certa.

Roberto Rochin

Purgatório Estrelinha
Purgatorio, Roberto Rochin, 2008

O filme é baseado em três contos de Juan Rulfo. Espero nunca mais ver nada adaptado desse escritor porque, por mais que Roberto Rochin tente diferenciar seu filme com um jogo de cores no preto-e-branco, os textos são muito ruins, exalando um pessimismo esquemático, difícil de comprar. Os personagens ou são vítimas do destino cruel ou são condenados por seu comportamento discutível. Nunca verossímeis. A tentativa de elaboração visual também é pífia. Às vezes, o preto-e-branco parece apenas um descolorido digitalmente.

Martin Scorsese

American Boy EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
American Boy, Martin Scorsese, 1978

O documentário de Scorsese é nada mais do que uma entrevista com Steven Prince, amigo do diretor que foi ator em Taxi Driver e trabalhou em diversas funções em outros filmes do cineasta. No entanto, além de explorar o personagem que Prince criou para si, um falastrão maluco com histórias extraordinárias geralmente envolvendo drogas, submundo e um estilo de vida "alternativo", Scorsese faz um trabalho exemplar de desconstrução da narrativa, com uma série de interferências durante a entrevista, quebrando o padrão fechado do documentário, duas décadas antes dessas experimentações virarem moda. O filme é de um frescor impressionante e, apesar dar barbaridades que o personagem conta, é igualmente leve.

Tommy Pallotta

American Prince EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
American Prince, Tommy Pallotta, 2009

Pallotta reapresenta Steven Prince, trinta anos depois e o personagem continua interessantíssimo. O filme, no entanto, não tem a informalidade e o formato mais descolado do documentário de Scorsese. É mais convencional. Há dois grandes trunfos: um uso farto de material de arquivo, que ilustra a entrevista de Prince sobre seus passos após o filme de 78, e o próprio passar do tempo, que nos explica que episódios reais da vida do homem foram parar em filmes como Waking Life (Richard Linklater produz e é um dos entrevistadores do cara neste doc) e em Pulp Fiction (a famosa sequência da injeção de adrenalina).

Oumnie Lecomte

Uma Vida Nova em Folha EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
Une Vie Tout Neuve, Oumnie Lecomte, 2009

O primeiro filme da franco-coreana Ounie Lecomte é uma auto-biografia bastante correta sobre sua infância. A diretora se esquiva dos excessos melodramáticos ao apostar numa narrativa simples, sem firulas, com evocações neo-realistas, que se resume a acompanhar a protagonista, abandonada pelo pai num orfanato. O filme tem ecos do chinês Nenhum a Menos, de Zhang Yimou. Lecomte tenta conquistar o espectador sem manobras dramáticas, o que funciona muitas vezes, mas corre o risco de gerar indiferença. Fotografia básica, eficiente.

O Lar das Borboletas Escuras

O Lar das Borboletas Escuras EstrelinhaEstrelinha
Tummien Perhosten Koti, Dome Karukoski, 2009

O maior pecado deste filme é tentar ser uma daquelas pequenas pérolas com histórias simples e melaconcólicas passadas no campo. Bem produzidinho, o filme até funciona no básico, mas é confeccionado no modo piloto automático, recorrendo a todos os esquemas dos melodramas de crianças internas, com pequenos segredos pululando na tela, e um tom eternamente triste. Seria um filme mais interessante se morresse nessa proposta, mas o roteiro reserva flashbacks meia-boca, que intercalam ações no tempo presente da maneira mais didática e maneirista possível, que revelam um grande mistério familiar que explicaria os motivos do protagonista.

Rob Epstein

Os Tempos de Harvey Milk EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
The Times of Harvey Milk, Rob Epstein, 1984

Excelente sacada do Festival do Rio resgatar o documentário que ganhou o Oscar de 1984 bem no ano em que o filme de Gus Van Sant chegou aos cinemas brasileiros. Aqui o personagem é bem maior do que o filme, que é bastante convencional em sua arquitetura, não aproveitando a "ousadia" do retratado em sua forma. No entanto, funciona e muito como documento, com um farto material de arquivo, inclusive cenas da correria dentro da prefeitura no dia da morte de Milk. A comparação com o filme de Van Sant faz o doc crescer já que muito do material apresentado aqui foi dramatizado com Sean Penn. Por sinal, o ator fez um trabalho impressionante de caracterização do personagem, encontrando um tom equilibrado, sem exageros. Como retrato de uma época e de um "movimento", esse filme cumpre perfeitamente seu papel.

Marco Martins

Como Desenhar um Círculo Perfeito EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
Como Desenhar um Círculo Perfeito, Marco Martins, 2009

O eterno duelo entre forma e conteúdo. Marco Martins tem uma habilidade inquestionável para filmar. A câmera passeia com elegância pelos cenários e registra os corpos com a intimidade que reflete as relações dos personagens. O diretor é bastante talentoso para criar esse clima de clausura familiar e isso dá o suporte necessário para que o protagonista ganhe solidez. No entanto, Martins se apoia demais na "ousadia" de seu plot e o filme parece estancado na proposta.

Comentários rápidos e primeiras impressões no twitter.

Outros filmes do festival: 35 Doses de Rum, (500) Dias com Ela, Abraços Partidos, Aconteceu em Woodstock, Adam, Amália, O Amor Segundo B. Schianberg, Amreeka, Antes que o Mundo Acabe, Aquário, The Bad Lieutenant: Port of Call, New Orleans, Barba Azul, Uma Barragem contra o Pacífico, Bastardos Inglórios, Boogie, Boy, Brilho de uma Paixão, A Casa Nucingen, Coco Antes de Chanel, Coco Chanel & Igor Stravinsky, Cornucópia, Corações em Conflito, A Criada, Deuses, O Dia da Transa, Distante Nós Vamos, Distrito 9, Doce Perfume, An Englishman in New York, Erótica Aventura, As Ervas Daninhas, Eu Matei a Minha Mãe, Eu, Ela e Minha Alma, A Física da Água, A Fita Branca, Hotel Atlântico, Insolação, Julie & Julia, Lake Tahoe, London River, Luisa, Mais Tarde Você Vai Entender, Maradona, Marching Band, The Messenger, Mommo, Morrer como um Homem, Mother, Nova York, Eu Te Amo, Pequeno Soldado, Politist, Adjectiv, Porco Cego Quer Voar, As Praias de Agnes, O Rei da Fuga, Ricky, Sede de Sangue, Sedução, Séraphine, Singularidades de uma Rapariga Loura, The Time That Remains, Tokyo!, Viagem aos Pirineus, Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo, Vincere, White Material.

posted by Chico Fireman at 18:56:31 | 0 comentário



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