Quinta, Agosto 6
[à deriva]



Ainda não cheguei a uma conclusão sobre o que eu penso do Heitor Dhalia. A única coisa de que não tenho dúvida é de que seus filmes não me convencem. Nenhum deles. A estreia, Nina, era aquele amontoado de clichês sobre a vida na cidade grande, com uma protagonista histriônica (Guta Stresser mais chata do que nunca) e um monte de perfumaria (cenografia e fotografia modernetes e muitas e muitas pontas). O Cheiro do Ralo é uma evolução, mas promete mais do que entrega. Selton Mello está bem, mas fica refém do modus de interpretar que inventou para si. E as cenas boas são sufocadas pelas ideias "descoladas" e pelo texto, raso.
À Deriva, recém-estreado, parece ser seu melhor filme, mas o que isso significa diante de uma obra tão inócua e sem unidade? O Inácio Araújo definiu bem o filme. Ele simplesmente não sabe que caminho seguir. Sua amarração é frouxa, seu roteiro é incoerente e não se sustenta. Dhalia só consegue administrar bem a direção de fotografia e a bela trilha, o que ajuda a ambientar o longa - e a ambientação fake prejudica seus outros trabalhos - mas disso sai um bom filme? É meio risível perceber que a presença de Cauã Reymond é puro golpe promocional. Nada justifica sua escolha para o personagem.
Por sinal, este poderia ser o trabalho do cineasta que melhor consegue esboçar seus personagens, mas isso acaba quando Camilla Belle entra em cena. Seu papel é imensamente prejudicado pela caracterização esquisita, excessiva, quase ridícula. Camilla não tem o physique du rôle mínimo que a personagem exige: tem cara de menina e o roteiro pede uma mulher. Dhalia deve ter percebido isso e a enche de turbantes e brincos enormes como se isso fosse o suficiente para legitimar sua presença. Não foi.
Esse desconforto é percebido em diversos aspectos do filme e reflete até mesmo nas performances dos principais atores. Vincent Cassel - bem, mas nunca além disso - parece ter um papel que não permite que ele cresça no filme. A sensação é de que seu personagem parece saber onde ir, mas o texto simplesmente o paralisa. Deborah Bloch é a mais prejudicada. Sua personagem é potencialmente riquíssima - e a atriz faz o que pode com esse potencial - mas o roteiro murcha suas possibilidades dramáticas e cria momentos anódinos, sem sentido ou motivo algum. A estreante Laura Neiva, bem bonitinha, não acrescenta muito.
O que incomoda mais é que Dhalia não parece um cineasta pretensioso. Pelo contrário. Por isso é meio chato falar mal de seus trabalhos. Quando ele afirma que foi influenciado por François Truffaut (embora o filme pareça querer emular mais Eric Rohmer), parece ingênuo e não metido. Dá para presumir que ele realmente quis fazer um filme inspirado pela Nouvelle Vague, mas a falta de consistência, que já se percebia em seus trabalhos anteriores, aqui ganhou apenas uma embalagem mais bem acabada - e anos-luz de suas anunciadas fontes de inspiração. No fundo, sua falta de maturidade - dramática, estética - continua a mesma.
À Deriva 

À Deriva, Heitor Dhalia, 2009
P.S.: numa iniciativa louvável, a equipe de divulgação do filme pediu para colocar aqui o link para o blogue do À Deriva, mesmo num post que não é favorável ao filme.
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Comentários
O filme mostra com sensibilidade como amadurecer passa por conseguir suportar que os pais não sejam mais os portos seguros da infância, e que eles como nós podem por vezes se perder no mar de incertezas e inconstâncias que é a vida. As cenas que abrem e fecham o filme são uma bela metáfora do flutuar sem apoio que é a existência.
A música e a fotografia me parecem muito legais.
Adriano, eu acho que "Verão de 42" tem outra proposta e outro resultado.
Curioso, Diogo, foi a primeira vez que eu citei o Inácio aqui.
Pois é, Tiago, tem a ver com a Lucrecia tb. Com um wannabe Lucrecia.
Exatamente, Ana. O filme descamba pro chato muitas vezes.
Mas eu sou realmente suspeita, porque não resisto a histórias que mostram relações entre pais e filhos.
De qualquer forma, seu texto é respeitoso na forma como argumenta o seu "não gostar" do filme. Já o Inácio pegou bem pesado. Achei desnecessário.
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péssimo 







