Quinta, Junho 25
[oscar 2010: dez indicados para melhor filme ]

A princípio, parece uma notícia boa: vai ficar mais fácil ser indicado ao Oscar de melhor filme. Mas a que custo? Imagina o terror: uma indicação por ano para o Ron Howard. Outra para o Lasse Hallström. Mais uma para o Alejandro Gonzalez Iñarritu. E, por fim, uma indicação anual para o Paul Haggis. Tristeza, hein?
Eu definitivamente não gostei nada da notícia de que Oscar do ano que vem vai ter dez indicados a melhor filme. É uma decisão burra que torna a seleção ainda mais questionável do que usualmente é. Ora, se todas as outras categorias têm cinco candidatos, qual é a lógica de haver dez melhores filmes? Essa nova determinação enfraquece o conjunto de indicados ao Oscar. Conseguir uma vaga para disputar o prêmio principal vai virar algo banal ou, no mínimo, menos nobre.
As razões para a novidade são várias: indicar mais filmes 1) faz o prêmio parecer mais democrático; 2) agrada à indústria (já que dez filmes vão poder explorar comercialmente o fato de terem sido indicados ao Oscar principal); e 3) atrai mais público (porque os blockbusters terão mais chances). Nenhum destas razões parece muito justa. Com dez filmes, quais vão ser os critérios de seleção?
Até então, chegar à reta final da disputa do Oscar era realmente um mérito (às vezes mais da campanha publicitária do que do filme em si, mas ainda assim um mérito). Os filmes eram lançados, enfrentavam o público e precisavam passar pela peneira dos prêmios dos críticos e das listas de melhores da imprensa para aparecerem com chances de ganhar o Oscar. A via crucis nem sempre parecia justa, mas a graça de acompanhar os esforços dos estúdios e o caminho dos filmes independentes para conseguirem uma indicação morava justamente no processo de seleção.
Vejamos o que poderia ter acontecido no ano passado. Com o número de indicados estendido, Batman - O Cavaleiro das Trevas e Wall-E, os dois principais filmes esnobados segundo os críticos e o consenso geral, certamente estariam lá, mas quais mais? Teríamos uma histórica indicação para um filme baseado em HQ, mas conseguir essa vaga seria realmente tão meritoso assim? E daria para considerar a eventual indicação do filme do robozinho da Pixar tão válida quanto a citação de A Bela e a Fera, em 1991, que conseguiu uma vaga entre cinco?
A Academia poderia reparar injustiças como dar uma chance para o ótimo O Lutador, que teve sua carreira no Oscar resumida a duas indicações. Ou resolveria que só assim Gran Torino, que não teve uma mísera lembrança, mereceria entrar na disputa. É, poderia ser bom, mas também poderia ser forçado. Será que a Academia não resolveria abraçar os filmes independentes e indicaria Rio Congelado ou O Visitante? Mas, cá entre nós, estes filmes apenas corretos teriam substância para aparecer numa lista de melhores do ano? Não pareceria que se está forçando a barra? Dúvida, um filme de elenco, certamente teria uma vaga, não? Mas ele é um dos melhores do ano?
Não é meio bizarro pensar que o Oscar a partir de agora vai ter um top ten? Qual será a lista de 2009, alguém arrisca? Hoje, eu diria que Invictus, de Clint Eastwood, sobre Nelson Mandela, lidera a lista ao lado do elogiado Bright Star, de Jane Campion. Já o sistema de cotas pode garantir vagas para (o musical) Nine, de Rob Marshall, (o policial) Public Enemies, de Michael Mann, (o indie do momento) Precious, de Lee Daniels, (a biografia) Amelia, de Mira Nair, ou até para Avatar, de James Cameron. Outros títulos a se considerar são The Lovely Bones, de Peter Jackson, An Education, de Lone Scherfig, Shutter Island, de Martin Scorsese e The Informant, de Steven Soderbergh, entre outros.
Uma breve história do Oscar
Antes que me venham com aquele discurso de que no Oscar só tem filme ruim, de que o que vale é o dinheiro e tal, eu já passei da idade de questionar isso. É claro que eu sei que nem os todos os tradicionais cinco indicados ao Oscar são cinco filmes bons. Às vezes, nem o vencedor é, como Uma Mente Brilhante, de 2001. Mas esta nova regra põe em cheque a credibilidade fake que o prêmio tem. Brincar de acreditar que os cinco finalistas de uma categoria são os melhores é divertido.
O que mais me interessa no Oscar é como a Academia funciona com seu padronizado sistema de escolhas. Acompanhar este processo é uma delícia. Localizar meses antes os filmes que têm o perfil de indicação, os que podem ser boas surpresas, os que contarão com a fama criada em festivais e listas de críticos, os que serão ajudados pelas bilheterias. Ao longo destes 80 e poucos anos, o Oscar organizou suas idiossincrasias e estabeleceu seus padrões e parâmetros. Com esta novidade, tudo muda. Vira bagunça.
O pior foi a justificativa do presidente Sid Ganis de que, com a decisão, a Academia vai retomar algumas de suas antigas tradições. Que balela! Isso nunca foi tradição. O número variável de indicações era muito mais uma mistura entre a tentativa da própria Academia de encontrar o formato ideal para sua premiação e a necessidade de agradar a todos. Só para lembrar, no primeiro Oscar, relativo aos anos de 1927 e 1928, foram duas categorias de melhor filme: "melhor filme" e "melhor filme único e artístico".
Isso não durou muito. Nos três anos seguintes, os indicados eram cinco. Na festa relativa aos anos de 1931-1932, foram oito finalistas. E depois virou um samba do crioulo doido. Dez indicados para o ano em que se premiaram os filmes de 1932-1933. Nos dois anos seguintes, inacreditáveis doze indicados. Entre 1936 e 1943, o número de indicados foi dez. Depois disso, os finalistas caíram para os cinco que nós conhecemos. Ou conhecíamos até ontem. Cadê a antiga tradição?
Bem, agora é esperar. Ao contrário do que alguns colegas questionaram na internet, não acredito que o circuito brasileiro vá deixar de absorver todos os filmes indicados. Geralmente isso acontece até com filmes com indicações de coadjuvantes ou roteiros. Acho que não muda muito. O que muda é o prestígio. Sid Ganis disse: "vamos lançar nossa rede mais longe, e com isso quem sabe o que não poderemos pescar?". Pois é, Sid, eu faço a mesma pergunta. Essa pescaria pode trazer muito peixe ruim.
As indicações para o Oscar serão anunciadas no dia 2 de fevereiro de 2010. A cerimônia de entrega dos prêmios está marcada para 7 de março.
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Comentários
Enfim... Há os melhores filmes concorrendo, e há aqueles que entram na briga apenas pela politicagem. De forma que todo ano vemos pelo menos uns 3 filmes bacanas, e uns 2 que parecem estar lá apenas porque forçaram a barra. E estes 2 findam roubando a vaga de uns 4 ou 5 mais merecedores e poderiam bater de frente com os vencedores, por vezes até ganhando. Por exemplo: tenho dúvidas se Slumdog Millionaire ganharia fácil se tivesse batido de frente com o furacão The Dark Knight e sua bilheteria bilionária. Quero crer, mas é pura torcida, que as vagas políticas não serão infladas, abrindo espaço para os injustiçados, que são tantos e perderíamos dias e mais dias aqui só listando os mesmos. Mas a verdade só saberemos quando janeiro chegar.
Isso é verdade, Ailton. Quando falei do circuito, pensei em São Paulo mesmo. Falha minha.
Certamente querem mais audiência, além de tornar o prêmio mais "importante".
Marlos, a história do Oscar confirma que a política, a publicidade, a pressão dos estúdios, o sucesso de público contam muito mais do que os méritos de um filme na hora de eleger o Oscar. Dois exemplos: "Rocky" ganhar de "Taxi Driver" e "Kramer vs. Kramer" vencer "Apocalypse Now" e "All That Jazz".
Quem elege os finalistas são os membros da Academia. Pelo que eu sei, cada categoria vota nos indicadados da sua área e mais em melhor filme.
Eu acho que, com 10 indicados, os critérios ficam muitos mais maleáveis. Se eles já não são justos agora, com 5, imagina com o dobro de indicados.
O Oscar já não anda com muita moral mesmo.
Então, porquê não?
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