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Quarta, Junho 17

[a festa da menina morta]

Matheus Nachtergaele

O filme de estréia de Matheus Nachtergaele como diretor tem acertos e erros. A história nos leva para uma pequena comunidade amazônica que vive em torno de um rapaz que ganhou fama por falar com o espírito de uma menina morta na região. A partir daí, o roteiro se divide entre tentar captar a lógica do ambiente, acertando na caracterização da vila, do cotidiano e de boa parte dos personagens, e ao mesmo tempo fazer o espectador comprar o quanto de underground tem o lugar, comandado por um cara afetado, descontrolado e que vive de vestido e faz sexo com o pai. Nesse aspecto, o filme chega bem perto do cinema 'a vida é dura', de Cláudio Assis, com uma série de momentos que parecem estar ali apenas para garantir a cota de autor alternativo de Nachtergaele: 1) galinha é degolada (esta já virou chavão); 2) porco é afogado (esta é nova para mim); além da tal cena de incesto, que chegou a gerar polêmica, mas é filmada de maneira bem discreta, quase escondida. O maior problema dela é que ela não se justifica no contexto, não acrescenta grande coisa à narrativa. Ou seja, parece gratuita.

Mas Nachtergaele acerta em muita coisa. A fotografia de Lula Carvalho é belíssima e, mesmo que a princípio pareça exibicionista, funciona bastante em favor do filme, que tem uma equipe técnica bem competente, ao mesmo tempo em que o coloca em sintonia com um cinema que sabe explorar a imagem no tom certo (como O Céu de Suely ou Clean). O desenho de alguns personagens é muito bom, como o das senhoras que circulam pela casa do santinho, boas atrizes, donas de cenas fortes. Jackson Antunes também ganha um personagem correto, embora pouco explorado. Já Juliano Cazarré é o melhor em cena, assumindo o papel do homem comum que traz o filme para a realidade e para uma postura mais ética em relação ao mundo. Dira Paes parece perdida, com um personagem sem função, e a aparição de Paulo José é pura perfumaria. Não serve para nada.

No entanto, é Daniel de Oliveira quem sofre com a inexperiência do diretor. Seu santinho é um personagem naturalmente afetado, mas Oliveira é dirigido para dar espetáculos em cada cena que aparece, o que o manda para o terreno do overacting muitas vezes ao longo do filme. É como se o diretor, um ator competente porém exagerado, se jogasse sobre o protagonista. Esse carma teatral atrapalha um pouco os êxitos de Nachtergaele, que, vez por outra, parece estar comandando atores num palco, com cenas muito marcadas, empostação excessiva da voz, excesso nos gestos. O clima over incomoda mais ainda nos momentos místicos do filme, como o encontro do personagem central com a mãe (Cássia Kiss meio deslocada) ou na cena final, que, apesar de uma imagem bonita, parece entregar um autor que não soube como encerrar seu filme.

A Festa da Menina Morta EstrelinhaEstrelinha
A Festa da Menina Morte, Matheus Nachtergaele, 2008

posted by Chico Fireman at 18:05:50 | 23 comentários



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Comentários




Não vi ainda. Algum sinal Claudio Assis no filme?
18.06.09 @ 00:50


Saí da sessão (na Mostra) sem saber se tinha gostado ou não. Fiquei perturbada - como acontece sempre que vejo um filme do Cláudio Assis - e tentando entender certos aspectos, como o do incesto.
Creio que precisaria rever, mas acho que não aguento encarar de novo aquela cena do porco, não.
18.06.09 @ 09:26


É, apesar de ter dado uma estrelinha a mais que vc para o filme, acho que concordo com o que vc disse no texto... saí bem frustrado do cinema. Nossa única discordância é quanto ao Daniel de Oliveira: acho a presença dele fabulosa!
18.06.09 @ 23:36


Tive a oportunidade de assistir a primeira exibição desse filme no Brasil (com legendas em francês, pois tinha acabado de voltar do festival de cannes), foi no Festival de Gramado do ano passado, quando participei do júri poupular formado por representantes de todos os estados. Foi o único filme aplaudido no meio da sessão, aconteceu logo após uma cena belíssima do rapaz dançando no começo da festa em que a câmera acompanha sua coreografia e logo depois se desloca para capturar os fogos no céu. Um momento belíssimo! Foi o filme com o qual eu mais me identifiquei no festival.
19.06.09 @ 13:46


Aliás, "A Festa da Menina Morta" foi o filme que venceu pela escolha do júri popular. Já os críticos escolheram "Nome Próprio", vai entender esses caras...
19.06.09 @ 13:49


Ainda não assisti ao filme, mas já vi muitas pessoas comentando que a sensação depois do final é dicotômica. Concordo que, por vezes, Nachtergaele é teatralmente exagerado, e isso incomoda um cadinho, nada demais.
19.06.09 @ 22:14


Gilson Rangel Rolim
Se as cenas gratuitas e desnecessárias fossem eliminadas - e deveriam - o filme ficaria reduzido à metade do tempo. Não me parece que o diretor tenha conseguido criar a atmosfera adequada à narrativa. Quanto à cena do incesto homossexual pai/filho, além de grosseira é absolutamente dispensável. Cultura popular não é isso. Narrativa dispersiva.
Gilson Rangel Rolim
24.06.09 @ 09:45


Claudia Ignarra
Assisti ao filme ontem e saí impressionada!!
Que filme forte, contundente, perturbador, difícil de digerir!!
Adoraria saber se é real a história da menina desaparecida, cujo vestido foi encontrado rasgado e ensanguentado!!!
Será que houve mesmo essa menina??
25.06.09 @ 16:17



Acho que não, mas não sei.
26.06.09 @ 10:25


RICARDO ARAÚJO
Assisti a exibição de A Festa da Menina Morta no Cinema da Fundação, aqui em Recife, com a presença do diretor.
Não saí por educação.
A Festa da Menina Morta é um curta metragem aguado dentro de uma sessão de slides. Chato e cansativo.
Pelo o menos tem a boa atuação de Daniel Oliveira vestido naturalmente de seu personagem.
Sinceramente, Cláudia Ignarra, concordo com você. A Festa da Menina Morta é perturbador (ou perturbado) e dificil de digerir (se alguém conseguir engolí-lo primeiro...)
16.07.09 @ 05:38


Rodrigo Nunes
A narrativa apresenta propostas e jamais as conclui, é indecisa e inconclusa até os ossos. Considero o filme um amontoado de afetações teatrais, experimentações injustificadas e momentos de gosto duvidoso e totalmente gratuitos. O filme se lambuza e abusa do cinema experimental. Gostei não.
09.08.09 @ 13:29


Eu
Incesto?
Não vou perder meu tempo.
Se o Nachtergale quer chocar, dê a bunda dele em público.
05.09.09 @ 12:28


Arthur
Assisti ao filme ontem e, ao sair da sala, comentei exatamente essas coisas com um amigo. Também achei a atuação de Daniel de Oliveira teatral demais. Quando está na cadeira em frente ao vestido, chega a contrastar com a naturalidade dos outros personagens que tentam segura-lo. Achei que Juliano Cazarré era um ator da região norte, demonstrou conhecer mesmo os costumes e relações.
Nas cenas da degolação da galinha e afogamento do porco fiquei pensando o que se passava na cabeça dos vegetarianos da sala. Uma amiga que estava ao meu lado comentou, porque fizeram isso com o bichinho. E olha que, nesse dia, ela havia almoçado carne de porco comigo na universidade.
11.09.09 @ 10:55


gutemberg
mateus e gutemberg Recife PE assiste o filme gostei
15.10.09 @ 20:39


José Solon
Assistí ontem, no mesmo dia em que o filme saiu em DVD. Na contramão de práticamente todas as opiniões achei um filme que não explica a estória da menina morta, mas tudo o que acontece, os relacionamentos subjetivos e até explícitos como o incesto, as personagens e imagens que com certeza não são européias ou americanas, mas sim amazonicas, enfim, um desfile bizarro para alguns, mas que pode ser real. Imagens desconcertantes e belíssimas, interpretações impecáveis e se o filme por vezes choca é porque as pessoas não suportam ver certas coisas de outras culturas e outras estéticas. O incesto existe desde o famoso Édipo Rei e Electra, passando por Shakespeare e a psicanálise. Para finalizar, ache que o Mateus não quis chocar, mas passar uma poética pessoal que incomoda muita gente. Filmaço nota dez, uma espécia de Bergman nos igarapés perdidos no coração da mata!
13.11.09 @ 22:49


Marcelo Castro Moraes · http://cinemacemanosluz.blogspot.com/
assisti novamente agora a pouco e mesmo assistindo pela segunda vez é meio que dificiel digerir o que se acaba de assistir, é preciso refletir e bem.
Semana que vem irei fazer uma critica no meu blog e direi o que achei realmente
14.11.09 @ 21:57


Celso

Muito bom! Gostei de tudo que vi.É um filme muito pertubador que nos leva a refletir sobre a construção da fé e da riqueza da religiosidade popular no Brasil, uma mistura de catolicismo com candomblé. Há relações muito complexas no filme, como a cena do incesto, que devemos contextualizá-la melhor. Vale a pena assistir é um filme para pensar.
29.11.09 @ 22:16


Rui
o filme tinha um ótimo roteiro, mas foi arrastado demais, muitas cenas desnecessárias, como ficar mais de 40 seg. mostrando uma pia com cacos de vidro e sangue. Outras cenas como essa se repetem várias vezes.
Mas o pior mesmo é o final, classificá-lo como "aberto" é encobrir a bizarrice do diretor que ñ teve competência para terminar o q começou.
01.12.09 @ 19:16


Spielberg
Pouca e pobre imaginação brasileira.
06.12.09 @ 20:43


Fabio Ferreira
Em concordância com a sua crítica, admiro muito a sua bela fotografia, mas assisti o filme com bastante expectativa pela estréia Nachtergaele como diretor, mas confesso que me decepcionei ao ver um peso teatral exarcebado e desnecessário em um filme que tinha tudo pra ser mais atraente e original.
08.01.10 @ 00:56


alex
Não concordo... acho que a cena do incesto é fundamental para entender o porque e o quão disturbado é o Seu Santinho (esquizofrenia??).
Gostei muito. Eu dou 4 estrelinhas. =)
10.04.10 @ 16:12


elizabeth carvalho · http://elizabeth carvalho
peralá, maioria! o filme é mto bom. como dizia nietzsche, quem não entende julga, ou moraliza! o filme se banha em boas águas de guimarães rosa (o menino q fica no lugar da mãe na cama do pai bêbado e vira santo), passa pelas víceras e de um almodóvar e desagua na crítica de um david byrn. quemais vcs querem. as imperfeições ou cacoetes do diretor são pra dar sabor, porque um filme perfeito seria mto chato.
07.09.10 @ 16:20


mila
a mi me parecio un excelente film ,es para pensar.desde lo social ver el ambiente donde transcurre la historia. todo tiene que ver con todo. la actuacion de Daniel es maravillosa!!!! yo le pongo *****cinco estrellas, excelente film!!!! A PENSAR.....
21.04.11 @ 23:13


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