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Sexta, Abril 24

[a tortura do medo]

Michael Powell

De queixo caído. Depois de ver este filme, uma das obras mais a frente do seu tempo que eu tive o prazer de assistir, fica fácil entender o estrondo que ele fez quando foi lançado. A Tortura do Medo provavelmente pode ter parecido um golpe de Michael Powell, diretor de filmes adoráveis como Coronel Blimp e Sapatinhos Vermelhos, e que, àquela época, já estava há uns bons dez anos sem aparecer com nada significativo. De repente, o cineasta correto, amigo da vizinhança, dono de filmes coloridos, surgia com um longa macabro que, ao mesmo tempo que aposta numa trama violenta e chocante, coloca em cheque a posição do espectador.

A primeira cena já revela que o protagonista é um assassino, com características psicóticas, que mata suas vítimas filmando cada segundo de suas mortes. Ele é o voyeur por natureza, um homem obcecado, apaixonado e dependente do registro. A Tortura do Medo antecipa em quase 50 anos filmes como Cloverfield e Diário dos Mortos. É o vovô dos filmes sobre voyeurs, anos antes de Dublê de Corpo e muito mais visceral do que Janela Indiscreta ou Psicose, ambos de Hitchcock. O último lançado no mesmo ano.

Hitchcock, por sinal, deve ter morrido de inveja porque, apesar de ser um cineasta maior do que Powell, nunca levou às telas um personagem tão complexo. A história e os motivos do protagonista, explicados ao longo do filme, não importam. O que conta é como ele está próximo do espectador. Ele, o cara que observa, como o cara que está sentado na poltrona do cinema, é o vilão do filme. Mas este filme não o trata tão mal assim. O espectador, nas cenas seguintes, é, de certa forma, induzido a achar aquele cara, claramente perturbado, um cara legal. E ser colocado na mesma condição de um assassino não deve ter sido fácil para quem viu o filme à epoca. Fracasso de crítica e fim de carreira para Powell, que nunca mais conseguiu fazer um filme memorável.

Mas se o espectador dos anos 60 não conseguiu enxergar a genialidade deste filme, o tempo fez ele se transformar numa obra única. Toda a concepção visual do filme é impecável e funciona como engrenagem para o carrossel orquestrado por Powell. Mesmo com um tema dark, Powell, à moda de alguns de seus filmes mais famosos, faz um filme multicolorido, sobretudo nas cenas dos assassinatos. As cores fortes criam um ambiente onírico incômodo para sequencias de violência. E a câmera, impressionante, nos entrega alguns dos recortes mais metafóricos da história.

O filme, na verdade, parece funcionar como uma grande homenagem ao cinema, como na sequencia da morte da personagem de Moira Shearer, a estrela de Sapatinhos Vermelhos, tão colorida quanto naquele filme. Ou quando o protagonista vai até o teto do estúdio para observar a polícia no local e assume mais uma vez uma condição de espectador, que vê a ação de longe, deixando claro os limites da encenação. Powell nunca dá fôlego ao espectador, fazendo-o questionar incessamentemente seu papel, puxando as cortinas e mostrar o que há atrás do cenário.

O curioso é como elementos tão díspares, como a metalinguagem, o estudo psicológico do personagem, o flerte com o onírico, a administração do suspense e da violência, inserção do humor, funcionam e formam um conjunto forte. E até mesmo as interpretações em tom excessivo reforçam o universo do filme: Karlheinz Böhm está caricato, careteiro, mas excelente. E Maxine Audley, a assustadora e sarcástica vizinha cega, entrou pra minha coleção de melhores coadjuvantes do cinema. Pergunta a filha que percebe que a mãe intui algo sobre o morador do quarto de cima: "mãe, o que está te preocupando?". Ao que ela responde: "o preço do uísque".

A Tortura do Medo EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
Peeping Tom, Michael Powell, 1960

posted by Chico Fireman at 05:19:45 | 1 comentário



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Comentários




Maíra
Franz, eu SEMPRE quis ver esse filme mas sequer sabia quem era o diretor muito menos o nome em português.
Obrigada pela belíssima crítica.
Vou procurar.
Bjs enormes
09.05.09 @ 19:35


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