Terça, Março 31
[sinédoque, nova york]



O sentimento maior depois que Sinédoque, Nova York acaba é que, desta vez, faltou alguém para segurar Charlie Kaufman. É inegável que o cara é criativo. Seu rastro é impressionante: invadiu a cabeça de um astro do cinema em Quero Ser John Malkovich, criou um irmão gêmeo imaginário em Adaptação e fez uma história de amor desmemoriada em Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças. Mas se nestes três filmes muitas vezes se apontava Kaufman como o verdadeiro autor dos longas, aqui um diretor, ainda que imperfeito, como Spike Jonze e Michel Gondry faz falta.
A mente de Kaufman ignora o mundo exterior. O que importa para ele é seu processo particular, é como ele pode manipular as coisas, alterando sua significação, seu lugar, seus objetivos e funções. Kaufman tem esse pequeno deus dentro de si, aquele que rearruma sentidos, verdades e mecanismos. E essa característica só funcionou nos filmes que escreveu porque os diretores desses longas de certa forma traduziam as insanidades de seu roteirista para o espectador. O humor pop de Jonze e o romantismo torto de Michel Gondry davam substância para os devaneios do "autor". Em Sinédoque, Nova York, faltou alguém para mandar mais do que Kaufman.
O filem conta a história de Caden, um dramaturgo em crise que, ao longo dos anos, é abandonado pelas mulheres que cruzam seu caminho. Ao mesmo tempo, ele que decide fazer um espetáculo definitivo (e autobiográfico) que nunca tem fim e que será encenado numa réplica cada vez maior de Nova York. Desta vez, as bizarrices do roteiro parecem muito mais uma brincadeira que só faz sentido para quem está brincando do que o projeto sério, ousado e inovador por que tentam se passar.
Os delírios do diretor desta vez não encontram respaldo fora de suas ideias. É como se o cinema de Kaufman esbarrasse num momento autista, em que ele não conversasse com ninguém mais do que ele mesmo, em que ele só permitisse que seus códigos fossem desvendados por ele mesmo. A reclamação não tem a ver com entender o que o cineasta quis propor, mas com a incapacidade dele se comunicar seja pelo humor raquítico, seja pelos golpes de inteligência, que parecem mais do mesmo - e um mesmo sem graça. Desta vez, sozinho, Charlie Kaufman fez um filme para si mesmo.
Sinédoque, Nova York 

Synecdoche, New York, Charlie Kaufman, 2008
Posts similares:
rebobine, por favor
Adaptação.
BRILHO ETERNO DE UMA MENTE SEM LEMBRANÇAS
Comentários
Apesar dos defeitos e da incapacidade de síntese, Sinédoque, "Nova Iorque" tem um grande elenco e uma história bem interessante.
[]s
Sabe se tem previsão de estréia? Ou será que lançamento será junto com À Prova de Morte?
Você não cogita que talvez só você não tenha entendido os códigos de Kauffman? Sei que o texto é sua opinião, mas eu acho engraçado como quem escreve sobre cinema as vezes escreve com uma certa arrogância. Do tipo: se eu não entendi é porque ninguem pode entender o filme, o autor não foi claro, etc, etc.
Em tempo, gosto mto dos teus textos, Chico, e não me senti ofendido por esse. É só um questionamento que frequentemente eu levanto ao ler críticas em geral.
Bem, Thiago, o assunto com dois amigos meus que também viram o filme foi exatamente esse: como faltou um domador para o Kaufman. Então, não fui o único. E, como eu falei no final do texto, não se trata de entender o filme, mas da maneira como ele foi feito, sem muita intenção de se comunicar.
Marcelo, acabei de me sentir no ninho tb. Abraço.
Pois é, Michel. O cara se descontrolou.
OQUE, NOVA YORK tem um dos melhores elencos que já vi em um dos piores filmes que acompanheiaté o fim.Entendi a intenção do diretor,mas foi frustrante ver um filme tão infeliz no resultado final.O elenco é formidável,mas a história me levou a pensar que talvez fosse melhor eu saír do cinema antes do filme ter chegado ao fim,o que me conteve, foi o respeito que tenho pelos atores que fizeram tudo o que podiam para dar vida à morte criativa deste trabalho.Infelizmente eu ,uma apaixonada verdadeiramente por cinema,preferia ter entrado pela terceira vez em VALSA COM BASHIR,para ver CINEMA de verdade,e saír...feliz, com esta,que acredito ser a melhor das artes. Não sou nenhuma especialista, nem crítica profissional de cinema, mas o que posso dizer é que me envolvi bastante com o filme, que suscitou diversas reflexões e identificações.
Bom, na verdade só tinha assistido antes dois filmes dele, mas de qualquer maneira o cara tem uma forma de expressão muito original e que se propõe verdadeiramente a explorar profundamente os aspectos filosóficos, existenciais humanos.
Adorei.
Cotard, (que, de passagem, é homônimo de Jules Cotard, psiquiatra que deu nome a uma síndrome psiquiátrica ou o "delírio de negação de órgãos")traz a impagável experiência de um psicótico em seu mundo de "non sense", que não conseguimos alcançar com nossa estrutura de "tudo tem um sentido".
Sorte nossa, não ter havido "alguém para mandar em Kaufman", ou não seria a psicose.
Eu gostaria de poder divagar sobre o filme inteiro, em sua vasta coleção de signos e dizeres, mas então eu estaria fazendo uma crítica ao filme e não uma crítica à crítica.
Acho que o maior erro de quem não entende o filme é se apegar a um sentido racional, quando Kaufman está além disso, ele trabalha sensações, trabalha a memória residual que teremos ao sair do cinema. É preciso prestar atenção nos detalhes e absorver as sensações. A lógica de Kaufman é autofágica demais para tentar encaixá-la no padrão habitual.
Não entendi tudo isso de primeira. Mas hoje assisto o filme e vejo o quanto é sensacional. E ele ter dirigido o filme é o artifício que encontrou pra reforçar ainda mais o valor autoral do filme. A mesma linha de pensamento que fez o Cotard dirigir um ator interpretando ele mesmo na peça é a que fez o Charlie Kaufman dirigir o Philip S. H.
Creio que além de metáforas, como já dito antes, o filme é pra sentir e eu realmente fiquei incomodado com certas coisas sem explicação tipo a casa queimando...Mas será que não é essa mesmo a intenção? Será que é só a tela que deve perturbar-se enquanto o espectador goza como cachorros dentro d'agua no escuro do cinema, como diria J. P. de Andrade?
Concordo amigos, ainda bem que ninguém segurou Kaufman dessa vez.
Para chatear os imbecis / Para não ser aplaudido depois de seqüências dó-de-peito / Para viver à beira do abismo / Para correr o risco de ser desmascarado pelo grande público / Para que conhecidos e desconhecidos se deliciem / Para que os justos e os bons ganhem dinheiro, sobretudo eu mesmo / Porque, de outro jeito, a vida não vale a pena / Para ver e mostrar o nunca visto, o bem e o mal, o feio e o bonito / Porque vi Simão no Deserto / Para insultar os arrogantes e poderosos, quando ficam como cachorros dentro d’água no escuro do cinema / Para ser lesado em meus direitos autorais.
Joaquim Pedro de Andrade
Publicado em Pourquoi filmez-vous? / Libération / Paris / maio de 1987
Deixe aqui seu comentário:


péssimo 







