Terça, Março 24
[garapa]

O cinema de José Padilha tem uma função social. Pelo menos, essa é a intenção do diretor. Ônibus 174 usa um fato isolado para analisar uma questão mais abrangente: como a miséria leva as pessoas a atos extremos. O caminho que Padilha encontra para dar dimensão a seu ponto de vista é questionável. Da maneira que reconstrói a história de seu personagem, o diretor parece querer justificar suas ações. Uma maneira de humanizar o protagonista e de vender seu filme para o público.
Tropa de Elite vai mais além. O roteiro do filme é bastante original ao tomar para si o ponto de vista dos policiais, mas, em nenhum momento, defende os atos do Capitão Nascimento e de seus asseclas. Novamente, o meio como Padilha apresenta as ideias de seu protagonista causa estranhamento. Se não defende, o diretor não apresenta visão alternativa alguma para a situação. Então, num país de moral tão maleável quanto o Brasil, onde a violência geralmente é associada à maneira mais rápida e eficaz de se combater a violência, a visão do personagem, de que matar bandido é certo, se confunde com a visão do filme. Novamente, uma maneira bem prática de se vender um filme.
Garapa é o terceiro longa-metragem de Padilha e sua volta ao documentário. O foco é mostrar a fome no Nordeste brasileiro, a partir da reconstrução do cotidiano de três famílias do Ceará. As histórias são apresentadas paralelamente em pequenas doses. Padilha primeiro usa o naturalismo, mostrando os personagens em seu dia-a-dia sem interferir. Em seguida, começa a interagir com eles, levantando questões sobre o tema central. Tudo funciona corretamente até que o diretor começa a se utilizar de alguns artifícios para vender seu filme.
Um exemplo: sob a máscara de se mostrar contornos e ramificações do problema, Padilha gasta bastante tempo mostrando as moscas na perna ferida de uma criança num dos núcleos rurais do filme. Num segundo momento, os diálogos muitas vezes incompreensíveis de um pai de família bêbado ganham imenso destaque porque a) ampliam a discussão invandindo a composição das famílias e b) o personagem é engraçado e atrativo o suficiente para cooptar o espectador.
Embora ao longo de sua duração o filme levante questões importantes, em muitos momentos percebe-se uma tendência forte de Padilha a espetacularizar a situação. Não de forma grosseira, mas nos detalhes e subtextos. Sem eles, o documentário é correto, mas nada original em seu foco ou em sua forma. Se a ideia era fazer um filme definitivo sobre a fome no Brasil, ainda não foi desta vez. Se a ideia era tornar seu filme mais próximo do público, o cineasta, mais uma vez, acertou em cheio.
Garapa 

Garapa, José Padilha, 2009
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Comentários
beijos chico!
Um murro no estômago dos Brasileiros,um grande documentário,um grande trabalho.
PARABÉNS,PADILHA.
OBS: O engraçado é lê um comentário sobre um documentário falando sobre a fome,no Nordeste,no interior de Fortaleza,dizendo que,o filme é "monótono"
Me bata uma garapa ou me faça uma garapa é uma expressão utilizada para desqualificar a alguém que nos chega com uma provocação barata; como de sarcasmo. Ramon Andrade pela internet diz tratar-se de um dito baiano que “... exprime um sentimento de um momento raivoso do tipo não me enrole, ou...”. No lugar comum desta expressão tentaremos alcançar uma critica sobre a veiculação cinematográfica do documental produzido pelo cineasta José Padilha – GARAPA. Assisti-lo nos tomou de assaltou o sentimento de raiva, misturado com constrangimento; isto pelo feito de entendermos como invasivo o olhar fotográfico aos corpos daqueles que pelas imagens projetadas nos chegou como remanescentes de aldeias indígenas; roubados legalmente no uso de terras brasileiras. Roubados e largados à própria sorte como se somente eles e mais ninguém pudessem ter participação nos roubos históricos estatais às populações indígenas e quilombolas. E, nisto da câmara invasiva, questionaríamos o porquê dela descansar a lente na nudez de uma criança do sexo masculino que (a despeito do que Padilha enfatiza na pretensão documental – a fome) parecia estar em plena forma de vitalidade física – subindo e descendo os muros do casebre. Outro sentimento foi à satisfação de pensar que a GARAPA, largamente batida pelos protagonistas do documentário pudesse significar uma desdita a soberba do diretor quando reduz toda a existência dos figurantes ao seu estomago. O Diretor afirma seu discurso imagético GARAPA no arauto da descoberta da fome no Brasil – Josué de Castro. Indagaríamos: existe alguma leitura critica da produção acadêmica à fome castreana?
como ele descobriu a fome e a inventou a partir de 1930?
Lamentável mesmo é não encontrar o dvd em lugar algum pra comprar!
contato urgente para:
elesomirheinz@hotmail.com
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