Quinta, Março 19
[amantes]



O mundo provavelmente será muito injusto com Amantes. E a culpa é justamente de seu protagonista. A entrevista de Joaquin Phoenix a David Letterman, em que o ator - em estado estranhíssimo, grotescamente barbado - afirma que deixará o cinema para se dedicar ao rap, é um dos maiores hits dos últimos meses, mas, verdade ou mentira, ofereceu uma visibilidade torta ao filme porque ganhou ares de piada e contornos de trapaça. E isso é tudo o que o cinema de James Gray não é. E essa é toda a atenção que Amantes não precisa.
Gray talvez seja o cineasta que mais me lembra John Cassavetes hoje em dia. É difícil dizer sobre o quê exatamente são seus filmes. Os nós da vida, talvez. Amantes não é diferente. Embora o título ofereça uma expectativa direta, Gray não tem intenção alguma de levá-la a cabo e trabalha com sua própria velocidade, num trabalho completamente particular de composição de cenas, quase todas anti-climáticas, como o primeiro encontro entre Joaquin Phoenix e Gwyneth Paltrow. Mesmo assim, em nenhum momento, o filme não deixa de mostrar o cineasta romântico de Os Donos da Noite (We Own the Night, 2007).
O romantismo de Gray está não no objeto, mas no caminho até ele. Quando filma seus personagens em Amantes, o cineasta mais nos confunde sobre suas intenções e comportamentos do que nos dá informações sobre eles, tanto na maneira de jogá-los no mundo - há momentos em que a câmera parece ter vida própria, ultrapassando o puro recorte - quanto na de registrar seus afetos. É dessa maneira que todos ganham uma humanização raríssima no cinema de hoje em dia. É difícil defini-los, muito menos julgá-los ou culpá-los, mas entendê-los, por outro lado, torna-se uma arte mais fácil.
Quando Leonard diz que ama Michelle, ele está provavelmente sendo tão sincero como quando beija Sandra pela primeira vez porque nada é tão simples assim nos filmes de Gray. Leonard, de certa forma, catalisa a complexidade de como o diretor enxerga o mundo. Embora nunca se afaste das vizinhanças, o personagem vaga pelo mundo após ser tirado do prumo e se dedica agora a buscar trilhos mais uma vez. Joaquin Phoenix, o mesmo culpado por toda a publicidade equivocada para o filme, é, no entanto, o maior suporte de Gray. Sem ele, Leonard provavelmente não seria tão complexo, tão bipolar no melhor sentido do termo. É a interpretação Phoenix que dá estofo a Leonard e que faz Amantes ser o filme gigante que é.
Amantes 




Two Lovers, James Gray, 2008
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Comentários
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postem alguma coisa
Abraço
Eu acho a melhor atuação da carreira do Joaquin, de longe!
Marcus, a previsão é dia 24 de abril.
Eu vi o filme há um mês, acho, e ainda não consigo tirar aquele desfecho da cabeça.
Abraços.
O desfecho, eu acho genial. Me lembra, de certa forma, o desfecho de "Marcas da Violência", do Cronenberg.
Caraça, entrei hoje no Filme B e o filme está lá em julho. Agora não sei que data vale mais. A cópia que eu vi não é tão boa assim, pensei em desistir, mas foi impossível desligar.
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péssimo 







