Sábado, Março 7
[watchmen - o filme]



Numa das aulas de Estética e Cultura de Massa na faculdade, meu professor me deu uma informação que derrubou algumas certezas minhas: nos primeiros anos do cinema, os filmes eram pintados à mão para serem exibidos. Imagina só. Eu, que tirava a cor da minha TV para ver clássicos colorizados por computador em preto-e-branco, descobri que os próprios autores pintavam artificialmente seus trabalhos. Muitos dos filmes que tinham feito a História foram vistos pintadinhos. Foi a primeira vez que eu questionei a aura da obra de arte. Mexer num original, o que parecia pecado para mim, era possível.
Quando Gus Van Sant (re)fez Psicose (Psycho, 1998), ele ainda não era um dos meus cineastas favoritos. Mesmo assim, Van Sant me fez pensar no que leva um autor consagrado - ele já havia feitos alguns hits de crítica e vinha de uma indicação ao Oscar - a mexer no vespeiro que é recriar uma obra-prima. Ele não precisava. Então, por quê? Talvez pela homenagem (já que essa segunda versão segue milimetricamente a obra de Hitchcock) ou talvez por fazer diferente (já que dessa vez o filme era em cores e possivelmente encontraria um novo público). Teorias que não passam do talvez.
A reação geral em relação ao remake de Van Sant foi bem ruim. A aura do filme anterior massacrava qualquer tentativa de copiá-lo. No ano passado, eu me peguei surpreso com minha própria reação quando um dos meus livros favoritos, Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago, foi adaptado para o cinema. O filme de Fernando Meirelles, embora não conseguisse reproduzir nem 10% da obra anterior, não me ofendeu. É simples, não tem a dimensão e a profundidade do original, mas esbanja uma vontade sincera de fazer aquela história ganhar um público maior, um público diferente.
Quando Zack Snyder foi confirmado como diretor da versão de Watchmen, de Alan Moore, para o cinema, eu me peguei mais uma vez desconfiado. Tenho os quadrinhos originais até hoje e os adoro. Mas o histórico de adaptações da obra de Moore para o cinema não era dos melhores. Em Do Inferno (From Hell, 2001), os irmãos Hughes até tentaram, mas não conseguiram fazer mais do que uma adaptação correta - e apática - da graphic novel original. A experiência seguinte foi catastrófica. A Liga Extraordinária (The League of Extraordinary Gentlemen, 2003), de Stephen Norrigton, é uma variação risível das HQs, cuja ponto mais grotesco é a inclusão do norte-americano Tom Sawyer no grupo criado por Moore.



Se história menores haviam fracassado, o que esperar de um dos maiores clássicos do autor? E mais: como Snyder conseguiria convencer os seres mais furiosos e passionais do planeta, os nerds que amam quadrinhos, de que um dos maiores clássicos das HQs teria tradução possível? Qualquer mínima mudança seria motivo para uma enxurrada de críticas e ataques. Por isso mesmo, eu resolvi abstrair e consegui, ao contrário de milhares de fanboys e até de publicações, não criar expectativas sobre Watchmen. Fui ao cinema para ver o filme sem esperar muito. E me surpreendi.
Nos anos 80, Watchmen era moderno e radical, inovador. Mas a história se passava nos anos 80 e só depois dos anos 80 é que todos nós fomos descobrir como os anos 80 eram uma bobagem. Deve ter sido por isso que eu já li por aí que, hoje, numa realidade distante da Guerra Fria, muito mais distante ainda de Nixon, a série estaria datada, que só faria sentido na época em que foi lançada. Pensando assim, seria lógico "adaptar" a história para uma realidade mais palpável hoje em dia, mas isso não acontece. Curiosamente, um dos maiores acertos do longa é como Snyder se utiliza este cenário para jogar o filme num plano indefinido e bem-vindo.
É inegável que há uma tentativa de confeccionar um quê mais realista ao filme, em moldes parecidos com os Batman - O Cavaleiro das Trevas, seja na montagem ou na direção de arte. No entanto, de outro lado, há uma série de escolhas que ressaltam a porção fantástica da série e conflitam com essa proposta: uma cena de sexo (meio ridícula) quase em tom de comédia bufa, a manutenção uniformes retrô e de uma batcaverna, além da frequente exibição dos superpoderes do Dr. Manhattan. No meio disso tudo, há um texto que tanto desmente esse realismo já que opera num universo alternativo (Nixon no terceiro mandato; os EUA venceram no Vietnã) quanto não abraça a fantasia nem o delírio completamente. Esse conflito já existia no original, mas 20 anos fazem bastante diferença no estranhamento causado.
Trabalhando nessa lógica blasé, Snyder acertou na escolha de alguns nomes do elenco. Billy Cudrup incorporou bem a personalidade ora zen, ora apatica do Dr. Manhattan, embora às vezes fale como um hippie deslocado. Jeffrey Dean Morgan, embora possa parecer um clone pobre de Robert Downey Jr., consegue reproduzir a lógica anárquica do Comediante. E Jack Earle Haley é uma escolha acertadíssima para Rorschach. Sabe imprimir a fúria de comportamento e a fragilidade física do personagem.
O filme só começou a me incomodar próximo ao final - e não foi pelo fato de Snyder ter modificado a resolução escrita por Moore, o que eu até entendo, mas pelo tom didático que o filme assume quando o vilão explica seu plano para os heróis. Eu não lembro muito bem como isso se dá nas HQs, mas mesmo que reproduza o original essa sequência confere um quê ingênuo e simplista ao longa, que não casa nem com o tom realista, nem com elementos fantásticos, muito menos com o encontro dos dois. Mas, ainda que o conjunto perca neste momento final, mesmo assim, Watchmen ainda é um filme interessante. E Zack Snyder parece ter encontrado um tom adequado para homenangear sem reverenciar o original. Não sei se alguém faria muito melhor.
Watchmen - O Filme 


Watchmen, Zack Snyder, 2009
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Comentários
ACERTARAM QUANDO DISSERAM QUE O FILME SERIA O CAVALEIRO DAS TREVAS DE 2009 EM CONTEUDO,MAS EM FATURAMNTO NÃO SERÁ POIS FILME PARA MASSAS ELE NÃO É.
Mas sem dúvida é algo muito diferente do tradicional e tecnicamente perfeito para uma adptação tão difícil.
Eu acho que o Snyder conseguiu muito num terreno muito complicado.
Até fiz um post sobre ele em meu blog enfocando mais o aspecto psicológico dos personagens, ponto alto da história na minha opinião.
Abraço!
voltando ao "um toque nas distribuidoras" alguma notícia da estréia do Transsiberian? E, Canções de Amor em DVD?
Não li nada sobre previsão de lançamento do "Transsiberian", Ana. E pelo tempo que o "Em Paris" esperou pra ser lançado em DVD (e ainda mais para venda), acho que o "Canções" deve demorar tb.
Henrique, o comentário do Pablo tá muito engraçado. Eu ri bastante.
Sobre o final, estranho que, quando li a HQ, também fiquei com essa sensação ruim, de que tudo ali é amarradinho demais, no discurso do "vilão". E o filme reproduziu isso, com o agravante de ter um mau ator no papel ... no entanto, gostei da mudança feita pelo Snyder e seus roteiristas nesse epílogo.
Também não achei necessariamente ruim, Wallace, embora eu goste bastante do final original. E, realmente, o Ozymandias merecia um ator melhor.
Uma amiga minha que não leu as HQs gostou bastante do filme, embora tenha algumas reservas, como a "gozada de fogo". O final didático incomodou a ela tb.
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péssimo 







