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Domingo, Março 1

[as testemunhas]

André Techiné

Eu devo boa parte da minha experiência cinéfila nos anos 90, a década em que comecei a interessar por filmes, a um cara chamado Elinaldo Barros. Em Maceió, a cidade onde eu nasci - eu canso de dizer que não sou baiano, mas nunca parece ser o suficiente ... Pois bem, em Maceió, gostar de cinema é um exercício complicado. São cinco salas para cerca de um milhão de habitantes. Era assim nos anos 90. Continua assim agora. Com um circuito restritíssimo, parece improvável que filmes menores sejam exibidos. Mas eles são. A Sessão de Cinema de Arte, que apresenta semanalmente longas que dificilmente seriam sucesso de público, pelas minhas contas, já dura 14 anos. E o responsável por sua manutenção, apesar das inúmeras tentativas de cancelá-la é o Elinaldo.

O cara é um militante do cinema. Ele levanta material de divulgação, envia textos para a impresna e ainda faz as vezes de host da sessão. Tudo por amor. Pelo que eu lembre, Elinaldo nunca ganhou um centavo com aquilo tudo. E a Sessão de Arte, exagerando um pouco, salvou minha vida. Foi ela que me permitiu ver meses depois de que foram lançados no Brasil, filmes como Underground, do Emir Kusturica, Comer, Beber, Viver e Tempestade de Gelo, do Ang Lee, e Carne Trêmula, do Pedro Almodóvar. E foi lá também que conheci (ou revi) numa tela de cinema, clássicos como 2001 - Uma Odisséia no Espaço (Kubrick), Gritos e Sussurros, Morangos Silvestres, O Sétimo Selo (Bergman), O Processo (Welles), Bonequinha de Luxo (Blake Edwards), Janela Indiscreta, Um Corpo que Cai (Hitchcock). Só para ficar com os primeiros que vêm à memória.

Foi na Sessão de Arte ainda que eu conheci o cinema de André Techiné. Três de seus filmes dos anos 90 foram exibidos pelo Elinaldo: Minha Estação Preferida, Os Ladrões e meu favorito Rosas Selvagens. Desde então, havia visto apenas um filme do francês antes de me deparar com As Testemunhas. Embora não ache que o novo trabalho chegue ao nível dos anteriores, o texto e a direção de Techiné continuam a chamar a atenção, ainda mais quando ajudam a destacar um universo que geralmente implora pieguice ou lugares comuns, que é o do surgimento do HIV e o consequente impacto no modo de vida gay.

Techiné trata o tema com inteligência e delicadeza, embora não evite a brutalidade do retrato da época. Seu texto envolve a questão sem banalizá-la e, embora a primeira metade seja bem melhor do que a segunda, quase didática, o filme é muito bem escrito e sabe criar um clima quase trágico como ensaio do que está por vir. O elenco ajuda bastante. Johan Libéreau encara bem a responsabilidade de ser o personagem em que a trama se amarra, mas os destaques são um ótimo Michel Blanc, voltando à velha forma, e um surpreendente Sami Bouajila, que constrói um personagem ao mesmo tempo vigoroso e prestes a desmoronar.

As Testemunhas EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
Les Témoins, André Techiné, 2007

posted by Chico Fireman at 02:21:32 | 7 comentários



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Comentários




Passei aqui para convidar a fazer uma visita ao meu novo site.

http://www.eucritico.com.br/


Espero que goste!


Abraços,

Eurico
01.03.09 @ 18:20


Vlademir Lazo Correa · http://olhar.implicito.zip.net/
O filme é bonito mas brutal. No começo, são os personagens lutando uns contra os outros, algumas vezes de forma bem mesquinha, para depois se depararem com algo tão cruel e destruidor, e sem nome, que veio não se sabe de onde. E que mostra o quanto somos pequenos diante de algumas vicissitudes que a vida pode nos pregar. É um belo filme.
01.03.09 @ 22:05


Vlademir Lazo Correa · http://olhar.implicito.zip.net/
O filme é bonito mas brutal. No começo, são os personagens lutando uns contra os outros, algumas vezes de forma bem mesquinha, para depois se depararem com algo tão cruel e destruidor, e sem nome, que veio não se sabe de onde. E que mostra o quanto somos pequenos diante de algumas vicissitudes que a vida pode nos pregar. É um belo filme.
01.03.09 @ 22:08


Olá Chico!

Admiro bastante as tuas críticas de cinema. Recentemente criei um blog sobre o assunto e como estou engatinhando em alguma coisas em relação a layout e principalmente a conteúdo tenho divulgado a página para interagir com outros blogueiros mais experientes. Se puder dá uma acessada. Críticas e sugestões são sempre bem úteis...
(http://blig.ig.com.br/planosequencia/)

03.03.09 @ 18:04


layo
Não gostei muito do filme, apesar de ter me emocinado com o retrato da época. Agora... ROSAS SELVAGENS está cuidadosamente guardado como uma das minhas melhores lembranças de adolescência.
03.03.09 @ 18:30


Ramiro
Ótima lembrança Chico, Elinaldo é mesmo um herói que continua firme e forte por aqui.

Abraço
04.03.09 @ 10:30


Elinaldo Barros
Amigo Chico,

Prazer imenso tive ao ler seu texto, referindo-se a minha pessoa.
Fiquei emocionado cara.
Você continua um apaixonado pela Sétima Arte e eu não sei o porque dessas revistas de cinema não o convidarem para compor o quadro redacional.
Mas um dia Você chega lá.
Parabéns pelo blog, e pelo excelente nível de seus textos.
Abração Amigo.
Elinaldo.
08.04.09 @ 18:29


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