Quarta, Fevereiro 11
[dúvida]

Herança do palco
O que é um bom texto? Assistir Dúvida me fez pensar nisso. Um bom texto é aquele que tem frases de efeito, ações circulares e que demanda empostação dos atores? O bom texto é aquele que se vende pelo choque, que, de repente, abre espaço para um personagem que vem, diz coisas assustadoras e sai de cena? O bom texto é aquele que abusa da auto-referência, que conversa consigo mesmo, que ganha volume pelo rebuscamento do texto, pela escolhas da palavras? O bom texto é aquele que parece teatro mesmo que você esteja no cinema?
Não necessariamente é a resposta para todas as perguntas. Porque um texto simples, direto e sem frufrus pode ser um grande texto na mesma medida em que um texto volumoso, que escolhe bem as palavras. Dúvida tem um bom texto, apesar de apresentar todos os vícios formais e estilísticos de uma obra de origem teatral. Essa natureza é um fantasma sempre presente, mas John Patrick Shanley consegue resolver o filme com certa desenvoltura, apoiado na composição visual (o fotógrafo Roger Deakins é o mesmo de Onde os Fracos Não Têm Vez) e na edição que liberta o filme da prisão teatral (Dylan Tichenor é o montador de Sangue Negro).
Dúvida, no entanto, como todos os filmes baseados em peças de teatro, enxerga a expressão visual como coadjuvante. Texto e interpretações contam muito mais. E, se o texto, bom, funciona quase sempre - sobretudo na administração de momentos de tensão, ou mesmo quando reproduz situações tipicamente teatrais, como a sequencia que apresenta a personagem de Viola Davis - ele ganha ainda mais impacto através dos atores. O elenco é, sem dúvida, muito bom. Meryl Streep, Philip Seymour Hoffman, Amy Adams e Viola Davis, todos, concorrem merecidamente ao Oscar. Todos estão ótimos mesmo que risquem o limite do overacting, não fujam de lugares comuns de caras, bocas, pontuações.
Isso me fez questionar o que é uma boa interpretação. Não há nada de novo no que nenhum deles faz. Mas todos fazem seus trabalhos com belissimamente. Interpretação boa precisa de revolução? Nem sempre. Ela é boa quando vem, mas não precisa ser cobrada. Dúvida vive dessa dicotomia. É um filme cheio de maneirismos e obviedades, mas é tão bem encenado e interpretado que funciona muito bem com o mais do mesmo.
Dúvida 


Doubt, 2008, John Patrick Shanley
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Comentários
Tem a ver, Gabriel. É interessante ver o filme por esse prisma.
Faéu, a Meryl Streep é muito boa. Ela tem momentos over aqui, mas também tem outras ótimas cenas.
O filme é interessante.
Aquela cena realmente incomoda.
quase tudo segue uma linearidade previsível, mas incomoda mesmo assim.
queria o texto do filme...alguém sabe se isso é viável?
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