Terça, Fevereiro 10
[foi apenas um sonho]

Revolução sem revolução
O reencontro de Leonardo Di Caprio e Kate Winslet, o casal de Titanic, foi bastante estudado. A dupla não queria nada que, nem de longe, lembrasse o épico bilionário e multioscarizado de James Cameron. Eles conseguiram. Foi Apenas um Sonho, um dos mais recentes exemplos de como nossos tradutores de títulos podem afundar um filme, é realmente um trabalho distante do filme do transatlântico, mas, para o azar dos envolvidos, também é um filme bem menos resolvido do que o longa de Cameron.
A culpa pelo fato de o filme não alavancar é meio incerta. Talvez seja o texto original, que tem altos e baixos, cenas excelentes e outras que parecem apenas preencher lacunas; talvez seja a direção irregular de Sam Mendes, o marido de Kate, que ora consegue impressionantes composições de cena, ora parece não saber o que fazer com os atores, gerando momentos enfadonhos não pela temática, mas pela falta de acabamento do material; talvez seja culpa dos atores, que também alternam momentos inspirados (Di Caprio explodindo à mesa), com outros em que estão pouco à vontade (Kate tentando mostrar apatia).
O fato é que Foi Apenas um Sonho não consegue interpretar sua bela premissa, a da inquietação dos personagens. Mendes parece inseguro em assumir riscos e, sob a máscara de "desnudar a família americana", o que já lhe rendeu um Oscar por Beleza Americana, adota a forma mais óbvia de se posicionar sobre a história que conta: não questionar nada. Como administrador de sets, ele funciona muito bem: luz, cenários e figurinos perfeitos. Em troca, há uma tendência meio estranha em se encenar tudo como se aquilo fosse teatro, quando o filme é adaptado de um livro. A primeira cena de Michael Shannon é absolutamente teatral, com marcações, empostação e alternância nervosa de falas.
Um dos maiores incômodos do filme é como o personagem de Shannon, um homem que sofre de distúrbios psiquiátricos, termina sendo o catalisador da crise. Meio cômoda esta opção, não? "É preciso achar um estopim, que tal o doente mental?". Shannon é um bom ator e aqui faz sua parte corretamente, mas sem o menor pudor do timing teatral. E talvez seja o timing um dos maiores problemas do filme. Sam Mendes não nos faz esquecer dele, o timing, nem na sequencia final. Já havia uma uma belíssima cena com David Harbour e Kathryn Hahn e o filme se encerraria com outro momento genial, com Kathy Bates e Richard Easton, uma das cenas do ano, mas Mendes achou que precisava estampar o rosto de seu protagonista entre estes dois momentos, sem função, enfraquecendo o fim de seu filme.
Foi Apenas um Sonho 

Revolutionary Road, 2008, Sam Mendes
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Comentários
Abraço.
gostei muito do filme do Sam Mendes. Dentre os oscarizáveis que já estrearam no circuito comercial, é o meu favorito.
O mesmo aconteceu com a atuação de todo o elenco (Kate está impecável, e a apatia de sua personagem me passou dor, desencanto,etc). Enfim, nesse filme tenho que discordar de você, rs.
Abração
PS: Ainda não enviei meus votos para o Alfred porque estou tentando ver uns filmes que passaram batido: já consegui assistir a "O nevoeiro", "Antes que o diabo saiba que você está morto" e "A questão humana".
Caso contrário o julgamento ficará comprometido e a análise, mesmo que chegue a uma conclusão acertada, será por motivos errados.
Oi Chico,
É um filme desconfortável, o que significa dizer que foi competente em mexer comigo.
Apesar do bom resultado, concordo com vc, o Sam Mendes deixou algumas coisas bem a desejar. O personagem do louquinho-sábio é didático demais, soa como um narrador-em-off explicando as coisas que devem ser entendidas pelo espectador. No final, o mesmo pecado, uma mão pesada desnecessário para um filme de tema tão tênue.
Abraços,
Drex
Drex, é exatamente isso aquele personagem. Acho que deixou a desejar. Mas concordo com todos sobre o filme ter uma natureza interessante, a de instigar nossas escolhas. No entanto, acho que isso não foi explorado de maneira equilibrada.
Eu gosto da cena final, só não precisava ter a cara do Di Caprio ali. Sobrou.
Eu acho a Kate boa, Edu, mas ela já esteve melhor...
Dessa vez discordo do Chico, como muitos em comentários aqui, a Kate deveria ter ganho o Oscar por esse filme. Se nos reportássemos à época do filme, friso, sem todas as gamas de métodos anticoncepcionais e, o mais importante, o caminhar da medicina psiquiátrica sem os aparatos drogadícios de hoje, veríamos que o filme é, em todo momento, original e verossímel. E a questão do "louco", sim, louco para aquela época pois a personagem sofreu um colapso nervoso, algo bem comum, não fosse o tratamento de choque, o qual deixava realmente qualquer um louco, crédito de habitar um hospício. Dessa forma o filme é genial, sofrível sim, e mais, o "louco" é o único a perceber num relâmpago de sanidade que a Kate quer fugir daquela inércia da época, ele vê nela o que foi roubado dele, os sonhos, Kate seria a Revolução da Rua no modus vivendus dos americanos, ou seria melhor dizer The American Way of Life, alguém se lembra?
Bjs a todos.
Thalya Isabelle Lylen
Abraços
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