Segunda, Janeiro 12
[frankie 2008: os vencedores]
Segue a lista completa dos vencedores do Frankie 2008, a décima sexta edição do meu prêmio de melhores do ano no cinema.
filme do ano

Em plena era da troca de informações, este é, na maior parte, um filme mudo, mas essa opção não é um fim, mas um meio. O longa não tenta se vender pelo diferencial, nem homenagear as técnicas antigas do cinema. Para Andrew Stanton, o silêncio é apenas mais uma forma de se comunicar. O filme, naturalmente, termina evocando o humor simples e direto do cinema sem som, usando artifícios corriqueiros a Chaplin, Buster Keaton ou Harold Lloyd, mas isso acontece sem esforço, como um movimento natural da opção de linguagem escolhida.
Esse humor, assim como nos primeiros filmes, convive em perfeita harmonia com uma melancolia novamente simples que parece conseqüência imediata da solidão do protagonista. Continuar nesse terreno (silêncio-solidão-melancolia), poderia tanto se tornar cômodo, mas Stanton muda de tom depois da primeira metade, numa sacada de mestre. A princípio, parece que o longa vai ganhar contornos mais comuns, com a chegada de novos personagens, a conseqüente introdução da fala e a adoção de um humor e um ritmo mais imediatos. No entanto, o filme surpreende ao manter seus elementos iniciais (a fala é usada apenas no necessário) e ainda seguir o caminho natural de um cinema de aventura.
Mas essa inteligência no trânsito entre as formas não é o único grande acerto desse filme, que apresenta uma das mais pessimistas visões do futuro da humanidade que o cinema já viu. Para Stanton, o homem que está por vir vai perder todos os padrões, especialmente - e aí temos de volta a melancolia - a capacidade de se comunicar, de viver em grupo, de coexistir. A crítica à maneira como o planeta está sendo tratado é aguda e, ao mesmo tempo, discreta. Num momento em que o cinema aposta em linhas retas fáceis ou ziguezagues exibicionistas para dar um recado, nunca uma 'mensagem' conseguiu um caminho tão sensível e inteligente.
e mais:
2 Onde os Fracos Não Têm Vez | Joel Coen e Ethan Coen
3 Sangue Negro | Paul Thomas Anderson
4 Aquele Querido Mês de Agosto (*) | Miguel Gomes
5 Sonata de Tóquio (*) | Kiyoshi Kurosawa
direção

Seja um western moderno, seja uma reflexão sobre a mudança, o filme dos irmãos Coen é uma obra brilhante. A dupla tanto coordena os caminhos de seus três personagens quanto sabe operar a drástica mudança do roteiro como uma consequencia natural das coisas. O filme mais pretensioso dos irmãos é também aquele em que eles mostram, de uma vez por todas, os homens talentosos que são.
e mais:
2 Sangue Negro | Paul Thomas Anderson
3 Aquele Querido Mês de Agosto (*) | Miguel Gomes
4 Sonata de Tóquio (*) | Kiyoshi Kurosawa
5 O Escafandro e a Borboleta | Julian Schnabel
roteiro original

Se o prêmio é para o roteiro mais original, certamente o vencedor é este aqui. Há textos melhores, "mensagens" mais importantes, palavras mais ousadas e roteiros mais engenhosos, mas nenhum chega aos pés desta pequena opereta da anarquia comandada por Miguel Gomes, o filme mais improvável do ano e, por isso mesmo, um dos melhores.
e mais:
2 Wall-E | Andrew Stanton e Jim Reardon
3 Juno | Diablo Cody
4 Um Conto de Natal | Arnaud Desplechin e Emmanuel Bourdieu
5 Sonata de Tóquio (*) | Kiyoshi Kurosawa, Max Mannix e Sachiko Tanaka
roteiro adaptado

baseado em conto de Stephen King
A maior alegoria para a volta à barbárie, este filme é baseado num texto engenhosíssimo de Stephen King. Muito mais do que monstros e alienígenas, o escritor buscou aqui explicar que nosso pior inimigo está guardado dentro de nós mesmos. O texto é brilhante e, nas mãos de Daranbont, expert em adaptar King, ganhou outra dimensão numa cena final devastadora.
e mais:
2 Onde os Fracos Não Têm Vez | Joel Coen e Ethan Coen
baseado na novela de Cormac McCarthy
3 Sangue Negro | Paul Thomas Anderson
baseado na novela de Upton Sinclair
4 A Bela Junie (*) | Christophe Honoré e Gilles Taurand
inspirado no livro de Madame de la Fayette
5 Deixa Ela Entrar (*) | John Ajvide Lindqvist
baseado no livro de John Ajvide Lindqvist
ator

O filme respeita a natureza do personagem e o faz ressonar em sua própria estrutura, praticamente só enxergando-o em detrimento de tudo o que está em volta. Decisão radical que concentra a responsabilidade pelo filme nas costas de Daniel Day-Lewis. A performance do ator é devastadora, dona de uma potência para o pavor que falta em filmes de terror, mas que mora na dubiedade nas cenas de demonstração de afeto.
e mais:
2 Um Conto de Natal | Mathieu Amalric
3 O Escafandro e a Borboleta | Mathieu Amalric
4 Sweeney Todd | Johnny Depp
5 Homem de Ferro | Robert Downey Jr.
elenco

Catherine Deneuve surge com uma rainha dura ou o que restou dela. A personagem de Emmanuelle Devos, soberba, é um relâmpago de sobriedade e ceticismo no ambiente familiar. Só não ganha em cena para Mathieu Amalric, o melhor ator do cinema atualmente. Ele sintetiza, resume, traduz sua família e o cinema de Arnaud Desplechin. É a ovelha negra num mundo de lugares comuns.
e mais:
2 Queime Depois de Ler
3 Juno
4 Linha de Passe
5 A Bela Junie (*)
cena do ano

Um dos poucos filmes que sabem usar o material original como plataforma para um salto maior. A cena final, diferente da conclusão do livro, coroa este projeto com coragem e uma desenvoltura impressionante.
e mais:
2 Sangue Negro | o primeiro poço
3 Onde os Fracos Não Têm Vez | a moeda
4 Deixa Ela Entrar (*) | a piscina
5 A Espiã | chocolate e fuga
filme de estréia

É surpreendente porque tudo indicava que ele seria mais um daqueles exemplares de filme pequenos sobre lugares pequenos dispostos a encantar o espectador por sua simplicidade. Mas passa ao largo desta proposta, com dois grandes acertos: uma ótima direção de atores e um roteiro bem escrito e executado, que exalta a história e não cai no conto da paisagem bonita.
e mais:
2 Depois da Escola (*) | Antonio Campos
3 Feliz Natal | Selton Mello
4 Os Primeiros Anos de Wim Wenders (*) | Marcelo Wehn
5 Princess (*) | Anders Morgenthaler
filme brasileiro

Salles e Thomas tentam domar os mecanismos para se contar uma história na mesma medida em que parecem se deixar levar por essa história, mas com os personagens sempre em primeiro plano. Então, não importa se houve ou não o gol, mas o caminho percorrido até lá.
e mais:
2 Juventude | Domingos Oliveira
3 Feliz Natal | Selton Mello
4 Onde Andará Dulce Veiga? | Guilherme de Almeida Prado
5 Era Uma Vez | Breno Silveira
atriz

Num ano de poucas protagonistas femininas realmente marcantes, Ellen Page, a mais menina, é a mais madura. Seu personagem é difícilimo porque mora nos limites entre criança e mulher, mãe e filha, mas a atriz brilha toda vez em que aparece na tela. Mesmo quando parece estar à beira do histrionismo, ela escolhe outro caminho e se mantém encantadora. Taí um nome para o futuro.
e mais:
2 A Espiã | Carice Van Houten
3 O Casamento de Rachel (*) | Anne Hathaway
4 Sonata de Tóquio (*) | Kyôko Koizumi
5 Queime Depois de Ler | Frances McDormand
fotografia

Não havia outro resultado possível. O que Janusz Kaminski, que costuma ser um gênio, faz aqui é escrever um pouco da história da fotografia no cinema. Além de criar imagens sublimes, como quando o personagem de Mathieu Amaric chora, o filme é de uma ousadia rara ao decretar para o espectador que suas chances de ver o protagonista serão poucas e breves, além de nos intimar a enxergar o mundo por seus olhos.
e mais:
2 Deixa Ela Entrar (*) | Hoyte Van Hoytema
3 Sangue Negro | Robert Elswit
4 Onde os Fracos Não Têm Vez | Roger Deakins
5 A Festa da Menina Morta (*) | Lula Carvalho
montagem

Além de ser o filme mais original dos últimos anos, este documentário fora do comum ainda é um exercício de articulação. Primeiro, equilibra o processo de criação de um filme com o cotidiano de seus futuros atores, num modelo mais clássico de documentário. Em seguida, promove uma fusão entre este documento e a ficção que anuncia. Brilhante.
e mais:
2 Onde os Fracos Não Têm Vez | Roderick Jaynes
3 Sangue Negro | Dylan Tichenor
4 O Escafandro e a Borboleta | Juliette Welfling
5 Linha de Passe | Gustavo Giani e Lívia Serpa
direção de arte

A colaboração entre Owen Patterson e os irmãos Wachowski já tinha rendido Matrix, que gerou uma linhagem estética. Mas o trio resolveu marcar mais um gol com o visual retrô-alegórico dessa fantasia do mundo da alta velocidade, respeitando e ressaltando suas origens. O resultado é uma concepção visual espetacular, que chega a ser melhor do que o filme como um todo.
e mais:
2 Hellboy II: O Exército Dourado | Stephen Scott
3 Sweeney Todd | Dante Ferretti
4 Wall-E | Ralph Eggleston
5 Encarnação do Demônio | Cassio Amarante
figurinos

Colaboradora fiel de Tim Burton, Colleen Atwood desenhou um guarda-roupas dark que veste perfeitamente os personagens da fábula sombria do diretor. Embora fosse fácil apelar para o básico, a figurinista não dispensou panos e - quando pode, cores - para embalar atores do porte de Johnny Depp e Helena Bonham Carter. O resultado é que Colleen, com discrição, adicionou mais um trabalho de elegância e ousadia a seu currículo.
e mais:
2 Elizabeth: a Era de Ouro | Alexandra Byrne
3 Hellboy II: O Exército Dourado | Sammy Sheldon
4 A Espiã | Yan Tax
5 Encarnação do Demônio | David Parizotti
ator coadjuvante

Perdoem-me pelo clichê, mas era impossível não ser esse resultado. Além de Heath Ledger ter sido, de verdade, o melhor ator coadjuvante do ano, sua composição para o Coringa é uma daquelas interpretações históricas, que surgem de vez em quando. O fato de Heath ter morrido não é o motivo para o prêmio, mas ajuda a abalizá-lo. Se o Coringa é seu réquiem, não houve outro que teve uma despedida melhor.
e mais:
2 Onde os Fracos Não Têm Vez | Tommy Lee Jones
3 Batman - O Cavaleiro das Trevas | Aaron Eckhart
4 Queime Depois de Ler | Brad Pitt
5 Os Indomáveis | Ben Foster
maquiagem

A maquiagem do Coringa não é exatamente uma maquiagem espetacular, mas é a alma do filme de Christopher Nolan. O trabalho sujo e anárquico feito no rosto de Heath Ledger traduz seu personagem e traduz o filme. Se fosse diferente, talvez o impacto de sua interpretação ficasse um pouco mais contido, menos explosivo. Felizmente não foi assim.
e mais:
2 Hellboy II: O Exército Dourado
3 Encarnação do Demônio
4 Sweeney Todd
5 Il Divo (*)
trilha sonora

O trabalho de Jonny Greenwood não pode concorrer ao Oscar porque trecho já haviam sido compostos antes do filme, mas o conjunto da trilha criada pelo músico do Radiohead não perdeu esse prêmio aqui. Simplesmente porque é uma obra-prima, que vai do atonal ao melódico, como o embalo incômodo mais harmônico para uma história onde o exagero domina, onde ser radical é uma escolha.
e mais:
2 Os Indomáveis | Marco Beltrami
3 Os Estranhos | tomandandy
4 Falsa Loura | Marcos Levy e Nelson Ayres
5 Wall-E | Thomas Newman
canção

composta por Carlos Reichenbach e Marcos Levy | interpretada por Cauã Reymond
O filme de Carlos Reichenbach é bastante irregular, mas os primeiros acordes instrumentais desta canção me tomaram para sempre. Quando ela ganhou letra, mesmo que na voz meia-boca de Cauã Reymond, tive a certeza de que era a música do ano. Por sinal, é a segunda vez que uma canção nacional ganha o Frankie. A primeira foi "Baile Perfumado", do filme homônimo, em 1997.
e mais:
2 007 - Quantum of Solace | "Another Way to Die"
composta por Jack White | interpretada por Alicia Keys e Jack White
3 Jodhaa Akbar (*) | "Khwaja Mere Khwaja"
composta por Kashif | interpretada por A.R. Rahman
4 Na Natureza Selvagem | "Guaranteed"
composta e interpretada por Eddie Vedder
5 Um Beijo Roubado | "The Story"
composta e interpretada por Norah Jones
atriz coadjuvante

Uma das categorias mais difíceis do ano. Mas o oráculo interpretado furiosamente por Marcia Gay Harden é um momento único na carreira de qualquer atriz. É ela que move as transformações sofridas pelo elenco do filme, que incita uma volta à barbárie, que nos remete à formação da civilização. É fúria pura.
e mais:
2 Sweeney Todd | Helena Bonham-Carter
3 Um Conto de Natal | Emmanuelle Devos
4 Um Conto de Natal | Catherine Deneuve
5 Linha de Passe | Sandra Corveloni
som

O trabalho de Ben Burtt, de designer de som a responsável literal pela voz do robozinho, todo o trabalho de concepção visual deste filme é uma obra-prima. Geralmente os filmes que ganham este tipo de premiação são barulhentos e estridentes. Este não é nada disso. Cada som é premeditado, pensado e calculado - e só é utilizado com um propósito, uma função. É a primeira animação que eu agradeço por, literalmente, não ter o nque dizer.
e mais:
2 Os Indomáveis | Don Sylvester
3 Batman - O Cavaleiro das Trevas | Richard King
4 Sangue Negro | Christopher Scarabosio
5 Cloverfield | Douglas Murray
efeitos visuais

Num ano de monstros e super-heróis, robôs e demônios, é um homem (quase) comum quem usa e abusa melhor das possibilidades da tecnologia. Speed Racer prometia muito, mas, mesmo sem ficar pelo caminho, não tinha tanto combustível e frustou muita gente. O que não pode ser negado é como cores, luzes e cenários se transformaram num espetáculo único aos nosssos olhos.
e mais:
2 Cloverfield
3 Hellboy II: O Exército Dourado
4 Wall-E
5 Homem de Ferro
filme de animação

Obra-prima sobre a solidão e sobre o futuro da humanidade, este filme é bem mais eficaz do que as incursões catastróficas de M. Night Shyamalan ou Scott Derrickson neste setor. Além do subtexto, o longa ainda trabalha num patamar que remobnta o início do cinema, abrindo mão da voz e do som por minutos a fio. Um exercício ousado e delicioso de se assistir.
e mais:
2 Princess (*) | Anders Morgenthaler
3 Waltz with Bashir (*) | Ari Folman
documentário

Difícil classificar um filme como esse. O longa de Miguel Gomes parece pretensioso na teoria, mas é de uma simplicidade assombrosa. Foi essa indefinição, entre a sofisticada complexidade de sua concepção e o inegável apelo popular, que conquistou o público dos festivais por onde o filme passou. Filme que deverá chegar em circuito ainda neste semestre e certamente vai arrebanhar mais fãs.
e mais:
2 Os Primeiros Anos de Wim Wenders (*) | Marcelo Wehn
3 Sonic Youth: Dormindo Noites Acordadas (*) | Michael Allbright e Projeto Moonshine
4 24 City (*) | Jia Zhang-Ke
5 Confissões de Super-Heróis (*) | Matthew Ogens
(*) filmes que não entraram em circuito
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Comentários
Surpreso com o prêmio para a Ellen Page.
Será que Wall-E será o filme do ano?????
=D
Run Frankie, Run!
é genial.
Também assisti essa semana "o nevoeiro" e não sabia que o final era diferente do livro! Sem qrer ser chata mas, QUAL O FINAL DO LIVRO??? Pq o filme eh, mais uma vez concordando com vc, mto bom!!! Me conta, vai?!?!hehe
Bjo
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péssimo 







