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Segunda, Janeiro 12

[a corrida pelo oscar, parte 3: depois do globo de ouro]

Danny Boyle

Slumdog Millionaire parece resultado de um conjunto de improbabilidades. Rodado na Índia, num namoro com Bollywood, dirigido pelo sempre esquecido Danny Boyle, o filme virou fenômeno e vai chegar ao Oscar como favorito. Ganhou os quatro Globos de Ouro aos quais concorria: roteiro, trilha sonora, direção e, a cereja da noite, melhor filme dramático. Nenhum deles é exatamente uma surpresa já que o filme fez uma carreira nas premiações menores geralmente sendo lembrado nessas mesmas categorias. O que mais conta aqui é que o conjunto o deixa ainda mais forte para a noite do Oscar, deixando-o, inclusive, mais visível para outros quesitos que o Globo não contempla, como canção ("Jai Ho", irresistível), fotografia e montagem - e ainda para a candidatura de Dev Patel como melhor ator coadjuvante.

Quem sai perdendo feio é David Fincher e seu O Curioso Caso de Benjamin Button, cujas cinco indicações não renderam um prêmio sequer. O filme de Fincher era uma alternativa clássica para o favoritismo do longa de Boyle, mas a fábula de F. Scott Fitzgerald e o carisma de Brad Pitt não foram suficientes para cooptar os jornalistas estrangeiros. Embora tenha mais cara de Oscar do que seu adversário, Benjamin Button terminou a noite de ontem com as chances miadas. Deve ser indicado para muita coisa - inclusive merecidos prêmios técnicos, mas ganhar nas categorias principais ficou mais distante.

Apesar de ter um defensor ferrenho no comentarista Rubens Ewald Filho - que, como de praxe, desferiu alguns dos impropérios mais nonsense da noite -, Frost/Nixon, do fraquinho Ron Howard, saiu de mãos abanando e provavelmente não vai passar de um punhado de indicações na noite do Oscar. Já O Leitor, de Stephen Daldry, que teve quatro surpreendentes citações no Globo, chamou atenção com um prêmio de melhor atriz coadjuvante para Kate Winslet, provavelmente a maior surpresa da noite, já que todo esperava que Penélope Cruz vencesse por Vicky Cristina Barcelona.

Penélope ainda é a favorita para o Oscar - até porque é nessa categoria que os dois prêmios mais divergem. E como seu filme levou o prêmio de melhor comédia ou musical, derrubando o favorito da crítica Simplesmente Feliz, o que deve credenciá-lo para Oscar de melhor roteiro original, sua visibilidade aumenta. Mas a noite de ontem era de Kate. A Associação da Imprensa Estrangeira provavelmente temeu que ela, indicada várias vezes, voltasse para casa sem um premiozinho e votou em peso na australiana, que também ganhou como melhor atriz dramática por Foi Apenas Um Sonho, críticas divididas, no qual voltou a contracenar com Leonardo Di Caprio, sob a batuta do marido Sam Mendes.

Em seu segundo discurso, meio esquisito, parecia fake, ela citou suas concorrentes, sendo Anne Hathaway, excelente em O Casamento de Rachel, a maior prejudicada. Se ganhasse o Globo, a jovem Anne chegaria com grandes chances no Oscar, mas os jornalistas resolveram fazer justiça tardia e o Oscar tem tudo para reprisar esse movimento, já que Kate, ótima atriz, tem história: cinco indicações. Sally Hawkins, de Simplesmente Feliz, ganhou como atriz de comédia, o que dá novo impulso para sua candidatura. Hoje eu apostaria nela na vaga de Angelina Jolie ou Kristin Scott-Thomas.

Colin Farrell ganhou como ator de comédia por Na Mira do Chefe, mas esta categoria não fazia diferença na corrida pelo Oscar. Já a vitória excepcional de Mickey Rourke como melhor ator dramático por O Lutador bagunçou a eleição quase certa de Sean Penn, por Milk. Rourke, que já anunciava um retorno trunfal desde Sin City, se enquadra no quesito "comeback" que a Academia tanto gosta, foi dirigido por um diretor badalado num drama com elementos auto-biográficos e está cercado de gente talentosa, como Marisa Tomei e Evan Rachel Wood. Além disso, o fato de Penn ter ganho o Oscar há cinco anos pode pesar. Resta saber se a Academia está preparada para ver um brutamontes desfigurado no palco.

O Lutador deu a Bruce Springsteen o prêmio de melhor canção por "The Wrestler". Nenhum mistério. Era ele ou o velhinho Peter Gabriel, duelo a ser reprisado no Oscar. Gabriel concorria Wall-E, que foi eleito melhor animação. Merecia, mas merecia mais. Se tivesse concorrido ao Globo de filme (dramático ou comédia, é difícil saber como o estúdio venderia essa pérola), teria mais chances de ser indicado no Oscar principal. Agora fica difícil. Waltz with Bashir levou como filme em língua estrangeira, batendo Gomorra. Era um ou outro.

Por fim, Christopher Nolan, cujo Batman - O Cavaleiro das Trevas foi quase esquecido pelo Globo, foi quem recebeu o prêmio póstumo de melhor ator coadjuvante para Heath Ledger. Não há muito o que comentar. Além de óbvio, é merecidíssimo. Ledger morreu no auge do talento e depois de um papel composto brilhantemente. Premiar qualquer outro nesta categoria pareceria apenas ser um movimento para fugir do clichê. Seria uma decisão bem imbecil e completamente injusta com uma interpretação espetacular.

Um pouco de história

Mas o que é que o Globo de Ouro nos diz do Oscar, que é o motivo principal de toda essa temporada de premiações? Bem, há algum tempo, minha resposta seria "algumas certezas", mas, de uns anos pra cá, o prêmio da imprensa estrangeira em Hollywood não significa muita coisa assim em termos de previsão dos movimentos da Academia. Se Slumdog Millionaire ganhar o Oscar teremos uma reconciliação histórica entre os dois prêmios. Vamos aos fatos.

Podemos começar pelos resultados do ano passado. Enquanto praticamente todos os prêmios da crítica eram papados por Onde os Fracos Não Têm Vez, que terminou levando o Oscar, o Globo de Ouro de filme dramático foi parar nas mãos dos produtores de Desejo e Reparação, que até então andava apagado das listas de melhores do ano. Os irmãos Coen ganharam o Oscar de direção, mas perderam o Globo de categoria para Julian Schnabel, por O Escafandro e a Borboleta.

Até alguns anos, ser indicado para as categorias dramáticas do Globo de Ouro já garantia uns 75% de chances de reprisar o feito no Oscar, mas em 2005 apenas dois (Boa Noite e Boa Sorte e O Segredo de Brokeback Mountain) dos cinco indicados nesta categoria foram parar na lista principal. Falharam Marcas da Violência, Ponto Final e O Jardineiro Fiel.

Naquele ano, aquele que seria o vencedor do Oscar, Crash, nem chegou a concorrer ao Globo de Ouro, um divórcio que pareceu mais definitivo ainda quando, em 2006, Os Infiltrados perdeu o Globo de Ouro para Babel, uma espécie de metástase do ignorado Crash. Já no Oscar, o longa de Martin Scorsese levou os prêmios de filme e direção. Tudo bem, já que o Globo tinha premiado Scorsese dois anos antes, quando O Aviador ganhou como melhor filme dramático. Mas naquela oportunidade, foi Clint Eastwood e seu Menina de Ouro que levaram o Oscar.

É preciso voltar seis anos no tempo para encontrar o último filme que venceu tanto o Oscar quanto o Globo de Ouro de melhor filme (seja dramático ou comédia/musical). Foi O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei quem conseguiu essa façanha. Mas quando será que um megaprodução desse porte terá chance de fazer isso de novo? É bom lembrar que, se não fosse pelo inevitável Heath Ledger, Batman: O Cavaleiro das Trevas teria sido completamente esquecido pelo Globo de Ouro.

posted by Chico Fireman at 10:30:57 | 10 comentários



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Comentários




Curiosíssimo por Slumdog Millionaire e surtando para ver Benjamim Button... por mim fica entre os dois a grande premiação do ano.

Milk e Frost/Nixon entram com interpretações e nada mais (ou pouquissima coisa).

Batman deve concorrer nas categorias principais (filme e direção), leva coadjuvante (merecido) e deve brigar por técnicos (junto com Button).

Wall-E (infelizmente) vai ter q se contentar com o Oscar de animação, brigando com a canção de O Lutador, que dará o Oscar para Mickey Rourke.

Atriz dramática agora embolou, e Penélope Cruz ainda tem claríssimas chances de ser a coadjuvante do ano, além de ser bela e carismática (voltou bem com Volver), tudo que Hollywood adora.

Abraço

12.01.09 @ 12:42


Andrizy
Pois é, acho que todo mundo concorda que Rubens Ewald Filho é sempre equivocado em seus comentários...

Acho que no caso de Wall E, existiam muitas reservas quanto ao filme, por se tratar de uma animação, enfim... Concordo que merecia mais.
12.01.09 @ 13:55


Não acho que foi tanta surpresa assim a Cruz perder, a Kate já tá aparecendo em um monte de prêmio de crítica como melhor atriz coadjuvante (e acho que ela não vai sair do Oscar sem pelo menos um prêmio esse ano). E, porra, eu adoraria ver um brutamontes ("um freak, um monstro", segundo o REF - ainda não entendi esse chilique) desfigurado no palco, hehhe. Acho que o Bruce leva Canção no Oscar também, todo mundo ama ele, não vejo nada que impeça sua vitória. :P
12.01.09 @ 14:27


Bem legal e explicativo o texto, Chico. Especialmente a comparação dos últimos anos entre as premiações do Globo e do Oscar. Os títulos O LEITOR e O LUTADOR já estão confirmados? Infelizmente O LUTADOR já é nome de um filme com o Daniel Day-Lewis, mas isso deixou de ser obstáculo. Escrevi sobre minhas impressões sobre a festa no blog também.
12.01.09 @ 15:09



"O Leitor" e "O Lutador" são os títulos usados pelo G1, Ailton. Acredito que já estejam confirmados.
12.01.09 @ 15:15


Eu até gosto do Rubens Ewald Filho, mas realmente é impossível não rir dos comentários dele... só dá ele chamando todo mundo de feio, etc... acho que ele já está ficando velhinho.

E o que foi aquela tradução simultânea?! Lamentável...

Ademais, o prêmio foi interessante, especialmente a já citada homenagem ao Spielberg e a entrega do prêmio para o Ledger.

13.01.09 @ 11:53


slumdog millionaire manterá esse titulo no Brasil?
onde estão postadas as edições anteriores do frankie?

valeu o texto
14.01.09 @ 19:00


Gabriel
O que foi o Rubens Ewald Filho dizendo que o Blair Underwood era o cara que foi excluido de Gray's Anatomy por preconceito contra um colega gay?Surreal!
15.01.09 @ 10:53


Pedro Ivo
Rubens Ewaldo Filho sempre dá bola fora, todo ano destila algum comentário maldoso, e este ano pegou o Mickey Roarke pra destilar seus, como vc disse, impropérios... Quando o ator foi anunciado como vencedor, o REF começou comedido, dizendo apenas que era injusto, mas logo depois teve um surto, chamou o cara de freak e tudo o mais, e afirmou que ninguém queria sua volta ao cinema e etc. Achei mais uma falta de decoro profissional do que apenas a emissão de uma opinião. Afinal ele é um crítico de cinema, mas não raro faz comentários maldosos e chama alguma atriz de feia (não falha um ano).
15.01.09 @ 16:01


Marlene
Querido, ótimo texto, porém, uma correção: Kate Winslet é INGLESA e não australiana, apesar de os americanos colocá-las todas na categoria "british" (que englobaria inglesas, irlandesas, ou seja , Reino Unido!) Mas para nós, brasileiros é um erro! Apenas uma um comentário de uma historiadora cinéfila e katefan!
18.01.09 @ 19:33


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