Sexta, Dezembro 26
[um conto de natal]

Festa de família
O pouco que eu vi do cinema de Arnaud Desplechin me faz afirmar sem pensar duas vezes que ele está entre os meus diretores favoritos nos dias de hoje. Um de seus maiores acertos é a complexidade extrema que emprega na composição de seus personagens, que nunca podem ser definidos como bons ou maus, mas exatamente como o encontro entre estes dois, ambíguos e adoráveis. A obra-prima Reis e Rainha, lançado quatro anos atrás, já revelava a habilidade de Desplechin para costurar sua história a partir do desequilíbrio das relações familiares. O descontrole e a dificuldade em lidar com o próximo são transformados numa forma de afeto. Em Um Conto de Natal, em vez de um casal, temos uma família inteira na mira do diretor. Pais, filhos, irmãos, netos reunidos para uma atípica ceia de Natal, motivada pela doença da mãe, que colocará os históricos conflitos familiares em ebulição. Parece telefilme norte-americano, mas Desplechin desenvolve as tramas das maneiras mais improváveis, tornando assim suas 'pessoas' muito mais possíveis.
Uma diferença essencial a dois filmes que, de certa forma, celebram a mesma maneira de filmar é como os personagens de ambos vivem situações diversas. No primeiro, há uma família construída pelo afeto, uma família escolhida, em que as relações se esfacelaram mas se mantêm pelo amor. Neste último, há uma família separada pela falta de afeto, uma família recebida, onde as relações se mantêm por conveniência ou comodidade. Nos dois filmes, Desplechin dispensa soluções fáceis para os dilemas dos personagens. Em Um Conto de Natal, o clima conciliatório só ameaça aparecer na história de Laurent Capelluto e Chiara Mastroianni, mas a entrega da atriz à personagem, talvez a melhor de sua carreira, impede qualquer interpretação depreciatória.
No entanto, é o caminho mais à parte do filme. Apesar dos momentos de leveza garantidos pelos gêmeos e pelo pai, Jean-Paul Roussilon, que curiosamente tem os mesmos nome e sobrenome em ambos os longas, Um Conto de Natal é um filme pesado. Catherine Deneuve, que há tempos não aparecia tão bem na tela, surge com uma rainha dura ou o que restou dela, mas o roteiro nunca a trata como uma vilã ou ex-vilã que poderia justificar comportamentos. A personagem de Emmanuelle Devos, soberba, é um relâmpago de sobriedade e ceticismo no ambiente familiar. Serve como um ponto de equilíbrio meio cínico para a reunião de família. A atriz só não ganha em cena para Mathieu Amalric, o melhor ator do cinema atualmente. Ele sintetiza, resume, traduz sua família e o cinema de Arnaud Desplechin. É a ovelha negra num mundo de lugares comuns.
Um Conto de Natal 




Un Conte de Noël, 2008
Arnaud Desplechin
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