Terça, Novembro 25
[a bela junie]

A Bela Junie 




La Belle Personne, 2008
Christophe Honoré
Há uma grande diferença entre ver e olhar. Ver geralmente parece demandar mais inteligência e conteúdo porque mira no resultado. É associado à descoberta, à percepção, tem um começo, um meio e um fim. O ver se resolve, é satisfação garantida. Já o olhar não. O olhar termina meio depreciado, esquecido, incompreendido porque o importante em olhar não é exatamente o objeto, mas o meio do caminho. O olhar está muito mais próximo do movimento, do deslocamento. É a maneira, o modo, enquanto ver é a ação. O que difere Christophe Honoré de seus comparsas no cinema francês é justamente o olhar.
Fazia tempo que não surgia um cineasta com uma visão tão particular do mundo. E o que é tão particular na maneira como Honoré olha para o mundo é que ele rejeita o pessimismo que geralmente vem vinculado ao círculo intelectual. Seus filmes reproduzem o imenso carinho que Honoré parece ter pelas pessoas e pelo mecanismo que as coloca juntas ou separadas. Seus personagens podem ser românticos ou despudorados, estarem no meio de melodramas ou comédias, mas nunca são fáceis ou rasos - e o modo como são conduzidos ao longo das tramas do diretor revela respeito e reverência pelo humano.
Os filmes do diretor têm formatos diferentes, mas parecem todos ajudar a construir o mesmo universo. De certa forma são todos o mesmo filme, depurando a paixão pelo cotidiano e pelas relações humanas que Honoré exala. Os irmãos de Em Paris são opostos complementares na mesma medida em que o trio (ou o dueto final) de Canções de Amor, embora um filme equilibre o melodrama romântico com o humor ácido e o outro seja um musical sem a mínima vergonha de sua amoralidade. Ambos os filmes mostram a leveza e a naturalidade com que Honoré lida com temas sérios.
A Bela Junie, seu novo filme, parece menos ambicioso do que os anteriores, mas é apenas um reflexo da coerência com seu universo principal, o de um grupo de jovens estudantes. Honoré desenha neles os futuros personagens de seus longas adultos. Seus dilemas e paixões surgem mais ingênuos e instintivos, mas não menos insinuantes. Para deixar claro que não saiu de seu terreno, o diretor espalha seus colaboradores pelo filme. Junto com a novata Léa Seydoux está Grégoire Leprince-Ringuet, e em participações menores aparecem Clotilde Hesme, Alice Butaud e até Chiara Mastroianni, em uma cena única, sem uma fala sequer. Parece estar ali apenas para demarcar o território de Honoré.
O personagem de Louis Garrel, que é digamos um coadjuvante principal, é mais uma vez a síntese de como o diretor percebe o mundo. Ele é um professor sedutor, um homem que ama as mulheres, sejam colegas ou alunas. Isso não garante um dilema para o personagem ou para Honoré. A questão não é sequer levantada. O cineasta – e seu alter ego – entendem que as pessoas se movimentam a partir de suas paixões. A mesma lógica vale para todos os personagens. Essa lógica da paixão mantém um romance secreto, provoca uma violenta cena de ciúme, faz alguém partir, faz alguém se despedir. Não cabem questionamentos morais, não há espaço para pudor. Numa época em que pretensos novos Godards surgem aos cachos a cada ano, perceber que Truffaut tem pelo menos um herdeiro de verdade é muito, muito agradável.
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Comentários
Pois é, Maurício. Dilema grande.
Mônica, será que a gente estava na mesma sessão?
Rodrigo, não sei se é o melhor, mas certamente é o menos ambicioso. Isso sem deixar de ser lindo.
Eu tenho o "Ma Mére" baixado. Também preciso ver.
Não conhecia Cristophe Honoré até então. Fico com ganas para ter acesso aos outros filmes aqui citados, que devem ser ótimos.
E somente para provocar...
Quanto a rejeitar o pessimismo dos intelectuais... Não haveria em Honoré um pessimismo sim, de fato e de desfecho, porém enrustido na máscara da ingenuidade e na maneira de apresentá-lo?
Aproveito ainda para pedir algumas sugestões de filmes (se puderem me enviar um e-mail : snerview@gmail.com). Eu tenho 17 anos e comecei a ver 'filmes-arte' em 2008, não tenho experiência quase nenhuma. Alguns que eu vi e gostei: "O silêncio de Lorna", "Dogville", "Corra, Lola, Corra".
Obrigado pela atenção e parabéns mais uma vez ao blog e seu autor e ao excelente filme.
"perceber que Truffaut tem pelo menos um herdeiro de verdade é muito, muito agradável."
Fiquei encantada com essa frase. não poderia concordar mais com vc. Lembrei de uma entrevista que vi com o cristophe no Eurochannel em q ele diz q truffaut foi o diretor que mais o influenciou. E que cinema antes de qualquer coisa é entreterimento, mas nem por isso a qualidade do que se mostra deve ser menor, e pra ele Truffaut foi um gênio ao juntar as duas coisas.
O cineasta daquilo que realmente nos move.
Abraço querido!
O filme só agora chega ao Recife,só podendo vê-lo hoje e não dá prá compara-lo com as obras de Godart e Truffaut. O que vemos são rostinhos bonitinhos que não sabem o que estão fazendo lá, e marionetes manipuladas com ares de gostosão.
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péssimo 







