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Terça, Outubro 21

[mostra sp 2008: boletim 3]

Matteo Garrone

Gomorra EstrelinhaEstrelinha, de Matteo Garrone

Gomorra se esforça para fazer um raio-x aprofundado do modus operandi da máfia siciliana e, convenhamos, nada mais chato do que olhar uma radiografia. O diretor abre mão de protagonistas, o que ajuda a não desenvolver a contento nenhuma das histórias paralelas, e não estabelece conflitos, o que deve frustar bastante quem espera alguma ação. Um documentário funcionaria melhor. Enquanto a renovação do cinema italiano não chega, melhor se aventurar pelo que eles ainda fazem melhor do que ninguém: os melodramas familiares.

Wong Kar-Wai

Cinzas do Tempo Redux EstrelinhaEstrelinha, de Wong Kar-Wai

Não vi o corte original para poder fazer a comparação, mas Cinzas do Tempo em sua versão redux é decepcionante. A sensação é de se estar vendo um diretor sem a mínima intimidade com o material filmado se esforçando para tornar este material num filme "seu". Num longa de artes marciais, as artes marciais se resumem a uma ou outra cena, geralmente filmadas com pressa para passar logo para os momentos de divagação, típicos de Kar-Wai. O uso dos filtros chega a ser irritante.

Joel e Ethan Coen

Queime Depois de Ler EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Joel e Ethan Coen

Eu geralmente recebo com pouco entusiasmo essas obras menores dos Coen. Eles parecem funcionar bem melhor quando são mais ousados, mas Queime Depois de Ler é uma pérola. Talvez seja a comédia mais bem acabada da dupla em se tratando de roteiro - um dos melhores timings para piadas em muito tempo. O humor convive com momentos de extrema sensibilidade, como as cenas da mais uma vez ótima Frances McDormand no parque ou de Richard Jenkins na Academia. O restante do elenco garante uma comédia de primeira, com destaque para George Clooney, JK Simmons e o geralmente subestimado Brad Pitt numa das melhores interpretações de sua carreira.

Leonel Vieira

Julgamento EstrelinhaEstrelinha, de Leonel Vieira

"O melhor filme da Mostra", gritou o velhinho. Errr... não concordo muito não. Leonel Vieira deve ter visto muito filme brasileiro porque esse Julgamento bebe em fontes bastante reconhecíveis. O diretor tenta dar uma de moderno, adotando a mesma fotografia azulada usada hoje em dia para dar credibilidade a filmes supostamente sérios, mas isso não o salva de dar murro em ponta de faca, sendo mais um exercício de como remoer uma ditadura. O final, com reviravolta e tudo, é bem pobre. E há uma cena constrangedora no epílogo que parece punir um personagem por ele ter lavado as mãos. Portugal já fez coisa bem melhor.

Atom Egoyan

Adoração Estrelinha, de Atom Egoyan

A premissa é interessante: se apropriar de uma história para si, como se ela fosse a sua. O problema é que tudo o que vem depois é muito ruim, muitas vezes beirando o ridículo. Egoyan parece bater na mesma tecla de sempre, intolerância, e com o mesmo formato de sempre, reinvenção inserida à narrativa, mas cada vez com resultados mais pobres. Adoração tem cenas que colocam em cheque tudo o que o diretor tenta levar a sério, como os chats com adolescentes fazendo profundas análises sociológicas e políticas ou as intervenções da burca metálica. Essas cenas, somadas à verdadeira história da professora de teatro, tiram qualquer mérito deste filme.

Kyoshi Kurosawa

Sonata de Tóquio EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Kyoshi Kurosawa

Embora eu tenha duvidado dele no início da meia-hora final, em que as catarses dos personagens vêem à tona com certo destempero, é um dos melhores filmes da Mostra até agora. Talvez seja o melhor. Kurosawa se afasta um pouco de seu foco habitual para voltar a atenção para um Japão pouco explorado no cinema, um país impiedoso com quem fica de lado. Nesse Japão mostrado pelo diretor, os personagens são obrigados a conviver com seus próprios abismos enquanto buscam um rumo a seguir. Kurosawa é um cineasta de uma habilidade impressionante na criação de cada cena. Os elementos parecem conversar entre si e a imagem mais comum sempre parece valorizada ao máximo. Aqui, esse talento ajuda a desenvolver o vazio de cada personagem, sempre se apropriando de um timing preciso para contar a história. Mal comparando, é como se Babel fosse bem escrito e bem filmado.

Kanji Nakajima

O Clone Volta para Casa EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Kanji Nakajima

Pouco antes de entrar o Tiago Superoito me informou: "sabe quem estava atrás de você?". Pensei na Marta, no Kassab, em alguém da Liga, mas era o Wim Wenders mesmo. Ele tinha esquecido o pente, mas foi bem legal. Foi ele que escolheu este filme para a Mostra. Eu tenho certa condescendência para filmes japas, ainda mais quando eles têm um quê etéreo e de ficção-científica. Esse tinha. A idéia não é tão nova (debater a clonagem e seus efeitos), mas uma certa inocência/imaturidade inerente ao filme me agradou muito. O embaralhamento da memória traz algumas seqüências bem bonitas, como a do irmão carregando o outro que acabou de desmaiar.

posted by Chico Fireman at 02:59:03 | 10 comentários



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Comentários




Ó Chico, pra você me parece que a Mostra tá bem superior. Ouvi muito a respeito da mornidade mas sua cotações estão bastante positivas.
21.10.08 @ 08:28


Tiago
Abandonei a sessão d'O clone com 60 minutos de filme... E o filme estava bom! Eu é que estava cansado pacas.
21.10.08 @ 10:22


wim wenders passou do meu lado quando eu tava na fila pro três dias de chuva. o sujeito é muito, mas muito estranho mesmo.
21.10.08 @ 10:28


Gostei muito de ADORAÇÃO. Achei exótico, imersivo. Simplesmente comprei a idéia do filme e adorei, principalmente a trilha musical do filme. QUEIME DEPOIS DE LER é entretenimento que passa num suspiro. Brad Pitt e McDOnald estão muito bem...
21.10.08 @ 12:10



Não tá tão maravilhosa assim não, Faéu, mas já vi algumas coisas boas.

O filme tem umas coisas bem imaturas, Tiago, mas acho bastante honesto.

Hoje vi o filme dele, Carlos. Escrevo à noite.

Eu não gostei nada do Egoyan, Marfil, achei bem fraco. McDonald é a Frances McDormand? hehe
21.10.08 @ 14:11


XXXX
Chico, Mostra, bienal.... Estras coisas me parecem mais pra gente modernet exibirem o quanto são pra frentex do que qualquer outra coisa. Dá sono!
22.10.08 @ 05:38


Esperava um comentário mais inteligente de vc, Miguel.
23.10.08 @ 06:17


Chico, já ouvi pela Mostra gente comentando sobre seus textos no blog, tu já virou referencia hehe

A Mostra está muito aquém dos outros anos, na minha visão.

abraço,
24.10.08 @ 09:56



Quando eu falo que esse mundo está perdido, Michel...
24.10.08 @ 10:06


ricardo sica
Caríssimo,

O filme aborda a máfia napolitana Camorra e não a siciliana. E apesar do livro ser melhor, o filme apresenta um relato do que ocorre nos dias de hoje na confusa e caótica Napoli e arredores. O personagem principal seria a localidade geográfica onde se cruzam os personasgens secundários.

30.01.09 @ 12:44


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