Terça, Setembro 16
[ensaio sobre a cegueira]

Olhos bem fechados
Ensaio sobre a Cegueira lança uma pergunta: o quanto um filme baseado numa obra anterior precisa reproduzi-la em gênero, número e, sobretudo, em grau? Acho que minha reação quando começaram as notícias sobre a adaptação cinematográfica do livro de José Saramago foi bem parecida com a de qualquer pessoa que conhece a obra. Dêem uma olhada no meu Orkut: este livro está entre os meus favoritos desde o começo. A desconfiança era natural. O que fariam do 'meu' livro? Fernando Meirelles estaria à altura para esta tarefa? Durante muito tempo, achei que a missão teria um final desastroso.
Um filme escrito originalmente para o cinema sempre vai começar sua carreira com mais sorte do que aqueles que se baseiam em objetos anteriores. O envolvimento emocional com determinado autor ou obra é determinante para nossa recepção de todos seus desdobramentos. A expectativa é maior; a cobrança é multiplicada. No caso da adaptação do livro de Saramago, além do respeito ao material original, surge uma questão ainda mais importante: é possível recriar uma experiência tão sensorial quanto a que se vivemos ao ler aquelas páginas? Há um punhado de cenas cuja recriação parece impossível.
No entanto, com o passar do tempo, me acostumei à idéia de que 'meu' livro seria transcrito e a recepção à estréia do filme em Cannes me disse bem menos do que famoso vídeo do YouTube que mostra a reação do próprio Saramago ao filme. Entãlo eu relaxei. Melhor entender cada obra separadamente, tentando evitar a inevitável comparação. E, nesta noite de segunda-feira, eu finalmente fui ver Ensaio sobre a Cegueira com esta preocupação: isolá-lo enquanto filme, sentir sua força independentemente de onde ele veio.
E minha primeira impressão foi a de que este filme é meio que um resumo do cinema de Fernando Meirelles, talvez até de como ele enxerga o mundo. O cinema de Meirelles é muito simples apesar de sua embalagem moderna, de seus filtros e cacos de montagem. Seus filmes esbanjam um certo domínio técnico, um acabamento impecável, são envernizados, polidos, lapidados. Isso pode parecer ruim, uma forma de esconder defeitos, mas na verdade é muito mais uma característica da maneira como Meirelles trabalha. Sua obra tem uma autenticidade natural. É ingenuamente feliz.

O diretor tem uma compreensão muito mais interessante de uma obra de arte do que a de cineastas radicais que estamos acostumados a classificar como autores. Fruto do mercado publicitário, Meirelles parece procurar o tempo inteiro o equilíbrio entre a criação e a comunicação. Ele sabe conversar com seu público. Seus filmes podem parecer menos autorais por causa disso. Cidade De Deus incomodava pelo verniz, mas tinha tantos outros talentos e acertos que me parece pura implicância criticá-lo. Já O Jardineiro Fiel tinha um engajamento que parecia de mentira, mas que era tão ingênuo ao fazer sua denúncia que é fácil entender que é assim que Fernando Meirelles deve ser: um cara com uma visão simples do mundo e que tenta nos aplicá-la da forma que melhor lhe parece.
E é mais ou menos o que ele faz em Ensaio sobre a Cegueira. Está tudo lá: o incômodo com a natureza das pessoas, com a organização social tão frágil, a experiência dolorosa da perda de parâmetros, o choque com o fato de a barbárie morar tão próxima. Tudo que se leu no livro está lá. Diluído, polido, equilibrado, é verdade; tudo devidamente adaptado para o que ele entende que seja seu público. Ou para como ele acha que seu público irá apreender melhor o que ele tem a dizer. Mas Meirelles não quis diminuir o impacto de nada. Pelo contrário, quis abranger muito mais o alcance do texto.
As concessões para este diretor não são um pecado. E essas concessões coexistem com uma inegável ousadia na forma. O incômodo ganha outras cores. Os brancos de Ensaio sobre a Cegueira podem não ser nada agradáveis para um espectador acostumado a uma luzinha preguiçosa. A música, mezzo minimalista, ajuda a incomodar um pouco mais. A combinação de trilha e fotografia ajuda a destacar algumas cenas, como a do sexo e a do estupro. Cada uma vai usa imagem e som de forma diferente e com resultados igualmente bons. Uma é o contraponto da outra e ambas, de certa forma, são um exemplo de como Meirelles se impõe ao material.
A impressão é de que lhe parece muito mais sério, muito mais importante, fazer com que sua mensagem atinja mais gente. Essa ingenuidade me parece de verdade. O filme só se afasta do original num ponto: não há pessimismo. A clausura, a barbárie, o caos não são suficientes para transformar a visão que o cineasta tem do mundo. A cena final, com Julianne Moore (finalmente de volta a uma grande interpretação), parece entregar que este é um diretor que acredita no que está por vir. Ao sair do cinema, eu não tinha visto o livro de José Saramago, mas o filme de Fernando Meirelles. E era um filme bom.
Ensaio sobre a Cegueira 


Blindness, 2008
Fernando Meirelles
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Pára tudo! Julianne Moore tá na área!
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Comentários
Abraço, meu caro.
Antes do pessimismo, o livro me transmitiu uma grande tristeza pelo rumo da humanidade. A cegueira me parecia simbólica, uma forma de explicitar o que já somos - cegos emocionais. Sei lá, pode ser "viagem" minha. Saramago fez uma grande parábola humana, uma aventura pela nossa alma, e quando eu soube que Meireles iria filmar, caramba, fiquei chocado.
Obrigado pela sua crônica! Já decidi que vou ver na sexta-feira!
Com a Marcele, claro!
abs
Gustavo
eu adoro o branco do filme! adoro o som apurado do café caindo na xícara e do despertador tocando.
eu participei de duas coletivas com o meirelles. ele rejeita o rótulo de "cineasta engajado". diz apenas que filma temas e histórias que o intrigam, que o interessam, pelos quais ele tem curiosidade.
eu tenho dele exatamente a mesma impressão que você.
um beijo.
Aguardo os textos, rapazes.
Gustavo, acho que o filme tem essa tristeza, sim. Mas, como tudo, ela acontece numa escala mais Meirelles do que Saramago. Vá ver, sim. É fácil se decepcionar com a comparação, mas qual comparação é justa?
Tata, este texto só tem tamanho...
Eu tô lendo o livro, aos poucos, no café onde paro todas as manhãs. Adorei ler a sua crítica. Eu ainda não vi o filme. Se você quiser ver de novo, venha comigo!
bjs
Denise
Abraço!
um abraço
Escrevo de Lisboa onde acabo de ver o filme, em pré-exibição para os média.
Li com toda a atenção e sentido crítico| pedagógico, tudo o que escreveu e escreveram os amigos que deixaram opinião sobre o filme. Claro que não é fácil agradar a todos, ainda por cima num mundo tão global e complicado onde o audiovisual e muito particularmente o cinema tem um papel tão importante na denúncia, na sensibilidade como aborda temas dificeis. Este não é um tema fácil ....e Saramago não é um escritor fácil. Tem um tipo de escrita que não é para todos, infelizmente. Há aqui um choque cultural, claro! Meireles, por seu lado filma o que lhe interessa,o que o intriga, tem a sua visão da vida e da humanidade e oferece nos seus filmes a sensibilidade que cativa uns, mas pode ferir outros....Mas, também "embrulha" os seus trabalhos de muita qualidade técnica que me agrada. Concordo a importância que tem para mim, na minha forma de ver e sentir o cinema,....como alguém aqui escreveu....Gostei do branco do filme, do som mais que apurado do café caíndo na xicara ou mesmo do despertador tocando.
Gostei francamente....e, se Meireles tivesse sido um pouco mais ousado e derrotista na adaptação do livro de Saramago | nada teria de mal, pois a sociedade actual caminha em direcção que nos oferece muita interrogação, muita dúvida. A sociedade está um pouco (ou muito) doente.
De Lisboa, aqui fica o meu sentimento de agrado por ter visto o filme.
REcomendo a quem acompanha o trabalho de Fernando Meireles...o seu curta "PALACE II"(já com alguns anos) e também recomendo, a quem tiver essa oportunidade....que não deixe de ver um pequeno conto de José Saramago "A FLOR MAIS GRANDE DO MUNDO" adaptado a filme em cinema de animação por Juan Pablo ETCheverry. Estão lá...os dois tipos de sensibilidade: a de Fernando Meireles e a de José Saramago e talvez ajude a entender, os seus princípios éticos, as suas maneiras de estar e viver a vida....e a razão porque, em meu entender, o ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA, resulta e nos oferece um bom filme, embora naturalmente não seja para agradar a todos.....Como tudo na vida, ao fim e ao cabo.
Toda a minha amizade.
CARLOS MANUEL
Director do Festival Internacional de Cinema do Algarve.
O mais antigo e descentralizado festival de cinema Português.
Pela primeira vez e estou acessando o seu blog e já gostei do que vi.
Assisti o filme ontem. E acho q saí com a mesma sensação que muita gente q escreveu aqui: meio reflexiva, meio sem definições, meio sem palavras... mas muito impressionada!!!
Gostei bastante do seu texto e da sensibilidade com que foi escrito. No meio do filme eu senti a mesma admiração pelo som, pela fotografia e tudo mais.
Um filme que nos leva a uma reflexão sobre em que lugar vive a humanidade e a que caminhos queremos chegar...
Talvez pelo romantismo que me acompanha gostei da "falta de pessimismo"... rsss!! Deu lugar à esperança!!
Boa semana a todos!!!
Parabéns! Eu sou louca por filmes e adorei o modo como fala deles!
Porque é que apenas a mulher do médico não cegou?
Porque é que eles recuperaram a visão?
Um grande abraço.
O filme não tem a proposta de explicar a cegueira ou coisa do tipo. Na verdade a cegueira é uma grande e incrível metáfora.
Abram suas mentes.
Abraços.
Mais a mensagem principal é que o homem nao dá valor a um dos mais importantes sentidos da vida que é a visão.
Abraço Felipe Soares
Um grande exemplo de vida...Este filme me abriu os olhos,Vou assisti-lo mais vezes e o recomendo a todos.Abraços
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péssimo 







