Segunda, Setembro 1
[linha de passe]

Pelo caminho
O coração do cinema realizado por Walter Salles - e, consequentemente, por sua parceira mais fiel, Daniela Thomas - parece ser o duelo entre o esquemático e natural. Seus filmes parecem frutos de cálculos sucessivos, mesmo quando o objetivo desses cálculos é chegar a um cinema puro, mais emocional. Isso, às vezes, funciona muito bem, como em Central do Brasil, filme que se ergue justamente do hiato entre o puro e o manipulado. Em outras, faz tudo desandar como em Abril Despedaçado, longa que não sabe esconder sua artificialidade.
Linha de Passe, cálculo mais recente da dupla, é mais radical. O filme dialoga diretamente com uma cinema contemporâneo produzido ao redor do planeta, que tenta fazer os personagens ganharem em complexidade, mas, na mesma medida, é meio refém de certas marcas estéticas e narrativas, como finais em aberto e uma excessiva necessidade de se controlar a emoção. Nesse longa, há ecos de Hou Hsiao-Hsien, Olivier Assayas, Karim Aïnouz. E, ao mesmo tempo, há os reflexos de todo o cinema que Salles e Thomas fizeram até aqui. O encontros dessas histórias e referências deu certo.
Como é um filme de família, mesmo que haja uma tendência de não abusar da emoção, Linha de Passe fala muito próximo ao peito. O desenho da família de Cleusa é bastante preciso, talvez o maior ponto do filme. O roteiro parece beijar a testa de cada personagem antes de soltá-los no mundo. Um por um, eles são apresentados, lapidados e defendidos por escritores e diretores. Um trabalho que seria em vão se Salles e Thomas não tivessem encontrado um elenco inspirado.
Sandra Corveloni, melhor atriz em Cannes, atua tão discretamente que é preciso olhar com muita atenção para perceber a intérprete ali. João Baldasserini, o motoboy, é o dono da cena mais forte do filme, dentro do carro. Estranhamente esta cena, que é boa, poderia ter ficado muito melhor, mas parece ter deixado os diretores intimidados com a possibilidade de excesso. Um dos melhores personagens é o do evangélico de João Geraldo Rodrigues, que o roteiro parece tratar com um cuidado maior para fugir do estereótipo e que ganhou um intérprete dedicado diante de um papel complexo.
Salles e Thomas tentam domar os mecanismos para se contar uma história na mesma medida em que parecem se deixar levar por essa história, mas com os personagens sempre em primeiro plano. Então, não importa se houve ou não o gol, mas o caminho percorrido até lá.
As tramas se desenvolvem solitárias, paralelas, mas os momentos de convergência, discretos, mesmo que muito pensados, parecem bastante honestos. É deles que surge boa parte da força do filme. Escrito assim, pode parecer que Linha de Passe ressalte esses encontros, sobreviva deles como virou tendencinha ultimamente, mas aqui não há revelações importantes quando as histórias se cruzam porque, na verdade, todos os personagens seguem uma mesma estrada. E esta estrada passa pelo Brasil da periferia, pelo cinema do mundo e pelas relações humanas para chegar a um filme ora documental, ora sentimental, que anda, anda.
Linha de Passe 



Linha de Passe, 2008
Walter Salles e Daniela Thomas
Fica a dica: estreou neste último fim de semana O Nevoeiro, de Frank Darabont, baseado em Stephen King. Filmaço, dono da melhor cena do ano, a cena final, e da melhor atriz coadjuvante do ano, Marcia Gay Harden. Alfred nela!
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Comentários
Chico, vi ontem O Nevoeiro. Que filme é aquele ?!!! Que final é aquele ?!!! Alfred nele !!! rsrsrs.
O Daranbont não escreveu nada, escreveu?
Eu acho a personagem da Marcia Gay Harden um acerto.
Não muito diferente do que falaram de "Carandiru".
Eles não conhecem as implicações da escolha de um ponto de vista em um filme.
Quer dizer, conhecem e até apóiam, quando esse ponto de vista os favorece, como em "Tropa de Elite".
Sem querer ofender, raramente acho que a Isabela Boscov escreve algo interessante. "Linha de Passe" não tem a brutalidade de "Tropa de Elite", que praticamente obriga as pessoas a defenderem o filme. Impossível comparar.
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péssimo 







