Quinta, Agosto 14
[cinema silencioso]
Se um dia eu fosse condenado a assistir filmes de somente uma fase da história do cinema, a época que eu escolheria certamente seria a do cinema mudo. Não sei exatamente o porquê, mas meu amor pelos filmes silenciosos é gratuito e absoluto. Alguns deles moram até hoje nas minhas listas de melhores de todos os tempos, como Aurora, de F. W. Murnau, e A Paixão de Joana D'Arc, de Carl Theodore Dreyer. A II Jornada Brasileira de Cinema Silencioso, que acontece até domingo na Cinemateca Brasileira, em São Paulo, então, é um presente delicioso. Mais ainda porque muitos filmes ganharam trilha sonora ao vivo. Vi algumas sessões e devo assistir a mais algumas.

Um Garoto Sincero 




Tokkan Kozo, 1929
Yasujiro Ozu
Antes de se tornar um dos maiores, senão o maior cineasta japonês, com seus filmes sobre os microversos familiares, Yasujiro Ozu dirigiu muitas comédias curtas, como este Um Garoto Sincero, delicioso exercício de timing e de simplicidade. A história é a de um homem que seqüestra um menino, mas não sabe como controlá-lo e o enche de doces e brinquedos, o que faz com que ganhe uma indesejada simpatia do garoto. A relação entre os dois é como a do Vagabundo e do menininho em O Garoto, de Charles Chaplin, trocando o melodrama por uma comédia tanto ingênua quanto anárquica, como se o tom do filme obedecesse a regras e lógicas de uma criança. Ozu já revelava aqui sua habilidade para contar histórias do cotidiano e para a direção de atores. O garotinho Tomio Aoki ficou tão famoso que mudou seu nome para Tokkan Kozo, título original do filme, e trabalhou em alguns longas de Ozu nos anos seguintes.

O Grande Desfile 



The Big Parade, 1925
King Vidor
Se o Oscar tivesse sido criado alguns anos antes, este filme dificilmente perderia o prêmio principal. O Grande Desfile é um romance épico, um filme de guerra questionador e o primeiro grande marco na carreira de King Vidor, um cineasta de primeira. Pode parecer datado para quem só vê o cinema de hoje, mas é um filme que está na base de tudo. A cópia exibida respeita as marcações de colorização, reproduzindo o filme nos tons em que ele foi exibidos nos cinemas à época do lançamento. Dividido em três atos bastante diferentes (a família, o romance e a guerra), o longa guarda um impacto grande para as cenas de batalha, com uma sucessão elaboradíssima de truncagens, efeitos e uso de material de arquivo. O filme apresenta ainda uma visão bem moderna para a guerra, passando longe de criar heróis tradicionais e subvertendo o patriotismo com cenas pouco convencionais (soldados de bunda de fora tomando banho) e um espírito cômico em boa parte do filme. No epílogo, além da mutilação ser usada como uma crítica ao belicismo, há uma cena impressionante: um flashback, algo que me parece bastante ousado para a época, onde a personagem da mãe refaz na memória a vida de seu filho.

A Marcha de Tóquio 


Tokyo Koshin-kyoku, 1929
Kenji Mizoguchi
O curta de Kenji Mizoguchi começa como uma sinfonia da cidade, com imagens e texto que remetem aos primeiros documentários, mas logo A Marcha de Tóquio assume os ares de um melodrama convencional, onde incomoda a sensação de que ali havia o roteiro de um longa espremido em 22 minutos. A novela em que o filme se baseia começa com uma questão social de diferença entre classes para um tom ainda mais dramático quando entra numa esfera familiar. Parece bastante influenciado pelo cinema e pela literatura ocidentais, mas ainda assim, já guarda elementos do cinema que Mizoguchi defenderia nos anos seguintes, como a questão da mulher.

A Sereia 


Muteki, 1933
Minoru Murata
A Sereia começa bastante curioso, com a presença de vários rostos ocidentais num filme mudo japonês. Rapidamente percebe-se o quanto de ocidental o filme emulou, sobretudo em seu roteiro. O longa de Minoru Murata volta a ficar muito interessante quando aparecem as marcas expressionistas de sua fotografia (e na maquiagem do personagem norte-americano, vivido por um japonês), com closes macabros e jogos de sombras. A trilha criada pelo músico Cid Campos, que acompanhou ao vivo a exibição, começou parecendo deslocada, mas funcionou perfeitamente na meia hora final, quando o filme assume um tom tenso e extremamente forte.
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Comentários
Realmente assistir a filmes mudos no cinema é uma experiência fascinante. Deveriam realizar mais mostras como essa.
Agora falando sobre circuito: qual é a sua expectativa em torno de La león, lançamento da Moviemobz? Eu vi e gostei. O cinema de Otheguy remete a Bresson, Malick e outros.
www.linhadepasseofilme.com.br
http://br.youtube.com/watch?v=htb3pX-6CVA
Sandra Corveloni, Melhor Atriz em Cannes 2008.
Estréia 5 de setembro.
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