Sexta, Julho 4
[onde andará dulce veiga?]

Preciso fazer uma confissão. Caio Fernando Abreu nunca me convenceu. Não que eu tenha lido muito para poder falar com propriedade. O máximo que eu tentei foi Morangos Mofados, mas nem cheguei a completar o livro. Aquele universo ultra 80-pop-pulp-teatral-confessional me parece sofrer de excesso de texto. O filme de Guilherme de Almeida Prado começa assim. Com uma idéia que parece exibicionista - edição demais, digamos - e depois se embrenha por aquele mundo próprio que eu acho muito chato. Eu, coerentemente, comecei a achar o filme muito chato.
Mas, quando tudo parecia perdido, aquela colcha de referências começou a fazer sentido. É verdade que é um sentido meio absurdo porque é o sentido de que o artificial e o tosco e exagerado poderiam funcionar. É como se Maitê Proença, mais adorável do que de costume, falasse para você: "ser fake é legal" - e você concordasse. A investigação feita pelo protagonista (Eriberto Leão, bem) passou a me interessar, as intervenções quase cartunescas de Nuno Leal Maia, Oscar Magrini e Christiane Torloni me pareceram geniais e a massa datada que Guilherme de Almeida Prado tinha me oferecido num primeiro momento virou uma experiência deliciosa. Eu passei a gostar muito de Onde Andará Dulce Veiga?.
O que tinha mudado? Eu custei um pouco a entender, mas depois percebi o quanto este filme trafegava entre o sóbrio e o exagero e o quanto isso fazia dele um exemplar fiel de um cinema noir primal, geralmente cheio de furos e acabamento duvidoso que lhe emprestam certi charme. Não uma homenagem ou uma releitura, mas um filme feito àquela maneira. E aí, embora ainda desgoste do começo e não tenha ficado satisafeito com o desfecho (muito papo existencial de auto-conhecimento), nem suporte muito a Carolina Dieckmann, eu adoro os múltiplos papéis de Matilde Mastrangi e aqueles cenários gritando "oi, eu sou um cenário". Onde Andará Dulce Veiga? não parece o filme que vai arrebanhar muita gente. Eu não me importo. Deixa eu gostar sozinho deste noir tropical cheio de defeitos.
Onde Andará Dulce Veiga? 



Onde Andará Dulce Veiga?, 2007
Guilherme de Almeida Prado
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Comentários
Gosto dele como um todo, e considero o final todo clichezão muito coerente com a proposta de auto-descoberta do filme. É sempre um caminho a ser trilhado.
Não sei se você viu, Chico, mas na última edição da Zingu! fizemos um dossiê bem grande com o Guilherme.
Vou dar uma olhada, Gabriel. O que não gosto do final não é a cena do encontro soba a chuva. Mas a conversa no barzinho, antes dela.
Carol D., como vc chamou, Edu, não prejudica tanto assim.
Se vc gostou de todos, deve gostar deste também, Ailton.
Mas, não sei, acho que é piração minha, mas o final no bar, exatamente pela conversa fiada de uma obviedade absurda aliada a cena seguinte na chuva, a musica e tudo mais - que a principio também me incomodou - tem um ar de "isso não está acontecendo", como se fosse um delírio do protagonista (coisa que uma ensolação faria) ... ou estaria eu delirando?
Não sei, prefiro acreditar nisso. Me liberta de desgostar do final.
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