Sexta, Junho 13
[fim dos tempos]

Numa estimativa positiva, eu sou uma das oito pessoas que gostam de verdade de A Dama na Água, o filme em que M. Night Shyamalan, os críticos e o público brigaram de vez. Na minha opinião, a entrega do cineasta à fábula de uma maneira tão intensa era um passo a mais em seu cinema, onde o truque sempre foi um artifício fundamental. Por conta disso, minhas expectativas em relação a Fim dos Tempos, uma incursão do diretor no cinema-catástrofe eram bastante altas, mas a verdade é que esse novo filme é uma decepção.
O indiano se mantém longe das armadilhas de roteiro (que funcionaram muito bem em Sexto Sentido e que parecem meio simplórias ao final de A Vila), trocando-as por uma narrativa clássica do gênero que mimetiza, sobretudo, o que o cinema scifi fazia nos anos 50. Sem muito charme. A estrutura é, guardando as devidas proporções, a de um Vampiro de Almas, de Don Siegel, com o processo gradativo de isolamento do protagonista diante de um inimigo aparentemente invencível.
O problema é que a "mensagem", coisa de que Shyamalan não consegue se livrar, é muito óbvia - e nunca consegue fazer com o que o espectador compre muito bem a idéia do filme. As cenas de ataque da ameaça misteriosa são, muitas vezes, ridículas, colocando em risco qualquer credibilidade que o longa tenha conseguido em momentos isolados. A forma escolhida para que o inimigo se manifeste é primária.
Além disso, esse pacote cheio de bom mocismo não combina com o que os atores fazem (ou foram orientados a fazer) com seus personagens. Mark Wahlberg, geralmente um ator muito competente, tem momentos constrangedores, escolhendo um tom ora melodramático, ora bufão para interpretar. Zooey Deschanel, tão lindinha, está abobalhada do começo ao fim do filme. Imagino que Shyamalan tenha tentado, neste quesito, emular mais uma vez o que o cinema fantástico fazia há cinqüenta anos. Parece uma aposta esquisita já que, teoricamente, o filme tem a intenção de ser levado a sério.
Resumindo, não há os sustos de Sinais, seu longa mais fraco até então, o subtexto de A Vila e Corpo Fechado, a boa sacada de Sexto Sentido ou a simplicidade de A Dama na Água. Este Fim dos Tempos não vai para lá nem para cá. E isso é um grande problema quando você está sendo perseguido.
Fim dos Tempos 

The Happening, 2008
M. Night Shyamalan
filmes citados:
Corpo Fechado (2000) 


, de M. Night Shyamalan
A Dama na Água (2006) 



, de M. Night Shyamalan
Sexto Sentido (1999) 


, de M. Night Shyamalan
Sinais (2002) 
, de M. Night Shyamalan
Vampiros de Almas (1956) 


, de Don Siegel
A Vila (2004) 

, de M. Night Shyamalan
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Comentários
Fico feliz em saber, Andé.
Propósito até tem, Fernando, mas ele não convence muito mesmo.
Sobre Fim dos Tempos, eu gostei, afinal o próprio Shyamalan disse que é um filme B, então se for assisti-lo assim, sem se levar a sério, o filme é bom e faz sentido.
Reginaldo, temo que vc esteja certo sobre o filme ser eleito o pior do ano. Acho bem provável.
Para mim agora essa é a ordem dos filmes dele:
1- Corpo Fechado
2- A Vila
3- O Sexto Sentido
4- A Dama na Água
5- Sinais
6- Fim dos Tempos
Eu achei muito precário, Ailton, mas como sou quase um defensor solo de "A Dama na Água", te entendo perfeitamente.
As contradições são enormes e tiram a graça de ver o filme. Em um determinado momento o personagem principal diz que um grupo pequeno, no caso dele são cinco pessoas, não vai ser atingido. Só que o amigo dele tinha acabado de morrer em um grupo de cinco pessoas. E no fim o negócio atinge uma pessoa só e não eles. Muito besta mesmo.
Nada se salva no filme. Os atores estão péssimos, a história é boba, não tem suspense, não tem surpresa. Nem pra ter uma fotografia bonita. Nada.
A única pessoa que se assustou com o filme foi o diretor, quando percebeu a besteira que fez e agora fica dizendo que o filme tem que ser visto como filme B.
Sem vontade esse filme, isso sim. Tentar chocar nos primeiros minutos para depois dar espaço para uma teoria vazia. Interpretações horríveis e uma trilha que até avisa quando vai rolar um susto. Juro que não entendi (ou me fiz de bobo).
Bem, parece que é mesmo o filme mais controverso do ano. Tb acho a fotografia sem graça, Claudia. O Christopher Doyle fez falta aqui.
Luiz, não acho que a questão seja a comparaçào com Sexto Sentido (que não foi a estréia dele), mas o próprio acabamento do filme em si.
Gabriel, já eu acho o final sem impacto, pelo menos coerente com a impressão que o filme inteiro me causou.
A trilha realmente é óbvia, Pips.
Incrível como apesar de estar longe de ser meu preferido do diretor, não me convenço com nenhuma das críticas negativas ao filme, e elas parecem até me fazer gostar mais do que vi.
Quero rever, logo.
A trilha começa funcionando mto bem, mas da mtade para o fim vai ficando mais fraca, e tem alguns momentos que não tem música que eu acho que deveriam ter, para realçar o suspense.
Sobre quem disse "que diabos de fim dos tempos eh esse q um monte de gente sobrevive!!!!! ", bem, Fim dos Tempos é um tÃtulo nacional, o original é bem mais ambÃguo...
E a última cena deixa claro que ainda está acontecendo.
E sobre a opinião da Cláudia, parece que vc dormiu em algumas legendas. O filme chega ser até chato em alguns momentos de tão didático em explicar esses detalhes. Cada vez mais o 'evento' está atingindo um número menor de pessoas, e a velha louca foi pega pq ela estava na rua. O Wahlberg viu e correu para dentro. Quando o Mark Whalberg e a mulher saÃram, o evento já tinha terminado.
Como alguém disse ai...não recomendo nem o DVD pirata.
Abraço a todos
Lembre da cena em que o Whalberg, no meio do mato, diz para si mesmo - em voz alta, no melhor estilo novela das oito - "eu sou um cientista, tenho que pensar isso racionalmente", e das duas outras vezes em que alguém na TV diz que talvez esse seja um exento que simplesmente não conseguimos explicar... é isso: Shyamalan está numa cruzada para dizer que há eventos que simplesmente não conseguimos explicar, é um místico num mundo positivista. Nada contra isso... o problema é que a parca bagagem intelectual do diretor impossibilita vôos mais altos, ao mesmo tempo em que se interdita o efeito de suspense - coisa que ele já provou saber fazer.
Seria melhor se o casal tivesse morrido tb pra pelo menos dar um pouco de impacto(2)
Essa força é, muitas vezes, sentimentalisticamente preconizada (recomendada com louvores) pelo sistema, principalmente nos media, interessado em manter uma certa “ordem” enleada em otimismo e utopias, no mau sentido. E os cidadãos, trabalhadores, e professores também, agem como se, pelo fato de disseminarem a idéia de que vai começar uma nova era, uma nova mentalidade nas idéias, nas artes, na educação, etc., isso fosse o suficiente para acontecer a tal era. Achamos que isso é perfeitamente possível – e podemos fazer um paralelo desse ajustamento cósmico com a naturalmente necessária mudança (maturidade) que ocorre na vida de cada pessoa –, mas é também naturalmente necessária a mudança efetiva e prática desse atual sistema e seus mantenedores, mas não sem o idealismo prático da Razão Superior: não sem novos valores (“céus”
Mas como dissemos, isso – atribuir a si mesmo (em seu aspecto interno, eterno, divino) o poder de oferecer-se o reino dos céus – exige disciplina, e disciplina exige doar-se (em relação aos desejos imediatos do corpo e da mente), e isso é doloroso. E para quem não encontrou o prazer ou a força superior da, advogada pelos mestres humanos, alma, ou a Razão Superior, essa disciplina, essa renúncia (que muitas vezes confunde-se com desprendimento de bens vivenciados ou com renunciar meros confortos supérfluos), não é meritória de credibilidade individual e social.
Quanto a dizer que é sem propósito discordo. Até porque com essa característica "mensagista" que tem o Shayamlan sempre há um propósito, a questão é saber se foi ou não bem explorado. De fato o file não provoca sustos, mas uma certa angustia.
O mais interessante pra mim foi a maneira que shayamalan encontrou para, nessa era da mídia politicamente correta e defensora do meio-ambiente, dar sua mensagem.
É a forma "shayamalanesca" de causar impacto - deixando um "e se fosse verdade no ar".
Pra mim a a cena em que whalberg conversa com a planta de plástico é a melhor do filme.
É um filme-catástrofe bem calmo, gostei desta diferença.
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