Sexta, Junho 6
[indiana jones e o reino da caveira de cristal]

O mundo esperou 19 anos por um novo filme do Indiana Jones. Eu tive que esperar 19 anos e mais duas semanas. Minhas limitações de locomoção estão terminando, mas ainda me atrapalharam na hora de ir ao cinema para ver o último trabalho de Steven Spielberg. A essa altura, provavelmente ninguém mais irá querer ler alguma coisa sobre o filme, mas eu resolvi não deixar de escrever porque acho que se falou muita bobagem sobre o assunto. Afinal, Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal é uma seqüência totalmente coerente com os demais filmes da série, respeitados e homenageados nesta nova aventura.
Em filmes como esse, é difícil separar o componente emocional do resultado final, portanto a primeira aparição de Indy, apanhando seu chapéu, ou a entrada de Karen Allen, luminosa, em cena são momentos tão deliciosos - e, por esse mesmo motivo, nós fiquemos ansiosos para saber quando o tema de John Williams, insinuado o tempo todo, vai explodir nos nossos ouvidos. Indiana Jones é memória e, assim, gera demandas bem maiores do que simplesmente um roteiro bem escrito, cenas espetaculares ou heróis que nos divirtam. Mas o que me parece bastante claro é o quanto este longa tem consciência de seu papel histórico e de seu posicionamento temporal.
O texto se preocupa em fazer pontes ao longo de todo o filme com as aventuras anteriores do personagem. Mais do que oportunismo ou afirmação, cria-se a coerência histórica, valorizando a obra como um todo. É algo como Superman, o Retorno faz com os dois primeiros filmes de Richard Donner/Richard Lester e que Batman Begins renega - tristemente em se tratando dos longas de Tim Burton e acertadamente com as bombas de Joel Schumacher.
O fato de a história ser inserida num período como a Guerra Fria causa dois efeitos. O primeiro é bem oportuno: respeitar o lapso de tempo entre este filme e Indiana Jones e a Última Cruzada. O segundo é trabalhar num terreno em que tudo parece datado e esta parece ser uma crítica comum ao longa. A Guerra Fria passou, os tempos são outros. Mas o filme ignora isso e assume um lado retrô explícito, onde a nostalgia nem sempre é politicamente correta. No entanto, essa clausura histórica cria uma coerência completa com o cinema de fantasia feito nesse período, os anos 50, tanto na apresentação de uma novidade à mitologia da série, os alienígenas, quanto na tradicional caracterização dos atores, sobretudo os vilões, com seus pares no cinema fantástico feito no período histórico do longa ou mesmo com os filmes anteriores.
Se Karen Allen é um destaque absoluto - ela está adorável -, Shia LeBeouf, bom ator, faz bonito como o provável herdeiro do posto - por sinal, sua aparição evocando Marlon Brando é sensacional. Como parceiro de Indy, ele só perde para o genial Ke Huy Quan de Indiana Jones e o Templo da Perdição. Já Cate Blanchett, estereotipada do começo ao fim, está exatamente no tom que o filme exige. Mas este filme pertence a Harrison Ford, que desde a obra-prima Caçadores da Arca Perdida não aparecia tão bem num filme. Ele retoma o papel com um Indiana Jones velho, consciente de sua idade e de sua bagagem. Tem um desempenho impressionante em cenas de ação - os dublês e truncagens ajudam, claro - mas funciona exemplarmente mesmo nas cenas dramáticas, onde usa sua canastrice charmosa a seu favor. Numa das melhores, Denholm Elliott e Sean Connery ganham uma bela homenagem.
Com tanta coisa no seu devido lugar, com um olhar para o passado sem esquecer do que está por vir, por que se cobra a mais de Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal? Eu realmente não entendo. Talvez os olhares sejam mais rigorosos porque Spielberg e George Lucas sejam nomes que despertam sentimentos divergentes. Talvez a culpa seja da expectativa que a volta de um personagem tão poderoso gera. Mesmo assim, há exagero. Um filme capaz de respeitar a bagagem que carrega e de lançar perspectivas para o futuro merecia uma recepção melhor. É raso, é descartável? É. Mas é encantador.
Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal 



Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull (2008)
Steven Spielberg
filmes citados:
Batman Begins 

(2005), de Christopher Nolan
Caçadores da Arca Perdida 



(1981), de Steven Spielberg
Indiana Jones e o Templo da Perdição 


(1984), de Steven Spielberg
Indiana Jones e a Última Cruzada 


(1989), de Steven Spielberg
Superman, o Retorno 


(2006), de Bryan Singer
...
E chega ao circuito, hoje, o melhor filme do ano, a obra-prima Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto, de Sidney Lumet.
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Comentários
Mas não sei, como um fã até hoje crônico, acho que faltou um pouco de argumento no filme, deixando-o meio "genérico", algo como "façamos uma homenagem, não importa com o quê; aproveitemos o argumento dos et´s, que eu, Spielberg, gosto tanto". Em suma, "conservemos a forma, e exceto nas lembranças do passado, o conteúdo não importa muito".
Mas enfim, foi uma despedida, e super-legal rever o Arqueólogo
Adoro Indiana e pelos comentários de quase todos os conhecidos estava ficando triste em relação ao novo filme (que ainda não vi).
Seu post me trouxe fôlego novo!
Parabéns mais uma vez pelos seus comentários.
Você escreve exatamente o que a gente sente.
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