Terça, Junho 3
[tetsuo]


No mês do centenário da imigração japonesa, começo uma maratona com filmes importantes na História da Terra do Sol Nascente. Kobayashi, Miike, Miyazaki, Suzuki e Teshigahara, entre outros, passarão por aqui ao longo dos próximos dias, mas resolvi começar o passeio pelo Japão pela obra de Shinya Tsukamoto, autor do clássico alternativo Tetsuo, o Homem de Ferro, um filme bastante perturbado sobre um homem e seu processo gradual de transformação em máquina. O filme leva em sua essência o espírito do pós-moderno. Desde os primeiros minutos, pode-se perceber que o diretor tem a clara intenção de criar um objeto de culto: trama esquisita, imagens fortes e dezenas de referências, desde o cinema de ficção-científica dos anos 50 até Lynch e Cronenberg, passando pela cultura anime e pelo terror trash de Sam Raimi nos 80.
Tetsuo não tem vergonha de ser uma colagem. Esta é provavelmente sua maior qualidade. Embora, em várias cenas, os excessos quase se transformem em brincadeira, existe uma coerência espantosa em sua confecção. O que mais impressiona é como o filme solta pinceladas de história e aposta todo seu poder de comunicação na trilogia imagem-montagem-música. Durante a maior parte de sua duração, o filme é nada mais do que uma sucessão de estímulos visuais e sonoros excitantes que provocam o espectador, convidando-o a se livrar de uma narrativa convencional e sentir o filme. Parece uma proposta bem boba, cabeça, mas funciona até porque Tetsuo não é um filme pretensioso.
Tsukamoto promove um passeio pelo absurdo, com direito a momentos grotescos malucos como a cena do pênis-broca, a partir de uma tentativa até ingênua de trazer algo novo. É justamente por isso que Tetsuo II seja um pouco decepcionante. Com mais dinheiro e à sombra do inesperado sucesso do filme original, o cineasta sucumbiu a uma narrativa mais linear, praticamente refilmando o longa anterior (que, por sinal, já era a versão estendida de um curta seu). O resultado é que o universo criado foi revisitado, respeitado e ganhou novos desdobramentos, mas o quesito originalidade, que era a marca maior do primeiro filme morreu na praia. A concepção visual continua caprichada, mas até os efeitos visuais perdem para as truncagens do longa original. Tetsuo II é bem divertido de se ver, mas deixa saudade do espírito-livre da experiência anterior.
Tetsuo, o Homem de Ferro 


Tetsuo (1989)
Shinya Tsukamoto
Tetsuo II, the Body Hammer 

Tetsuo II, the Body Hammer (1992)
Shinya Tsukamoto
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