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Segunda, Junho 2

[luz silenciosa]

Carlos Reygadas

Carlos Reygadas é o típico cineasta de festival. Seus três longas estiveram em Cannes. O primeiro, Japón, nos apresenta seu cinema sem concessões ao relatar uma experiência radical de isolamento. Ganhou menção honorosa à Camera d'Or. O segundo, Batalha no Céu, exibicionista com seu sexo explícito de gosto duvidoso, participou da seleção oficial. Este último, Luz Silenciosa, ficou com o prêmio do júri. Acompanhar por anos a fio a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo dá nisso: ficamos íntimos da obra inteira de cineastas pouco conhecidos de quem freqüenta apenas o circuito comercial.

O cinema de Reygadas, um cinema para poucos, tem seus objetivos. O primeiro é causar estranhamento, desconforto e reflexão. É o objetivo mais chato, apesar de sua evolução na capacidade de se comunicar neste último filme. O segundo objetivo é bem mais interessante, a busca pela imagem - e por se comunicar através dela. Se seu primeiro filme explora um cenário ermo, o segundo - francamente insuportável, que pretende deixar quem o vê constrangido por duvidar do bom gosto do que viu - tem uma seqüência com a câmera em 360º, que é espetacular. A obsessão por dar força à imagem é válida, mas em Batalha no Céu ela vem gratuita, mesmo com seu já citado ponto alto, já que o boquete ganha bem mais destaque.

Por isso, Luz Silenciosa é muito bem-vindo. Em momento algum há a preocupação em chocar. A história do pai de família meninita que mora no México e se apaixona por outra mulher usa outros artifícios para incomodar o espectador. Reygadas se mostra mais maduro e investe mais pesado no seu trabalho de câmera, como nas seqüências de nascer e pôr-do-sol que abrem e fecham o filme como se emoldurassem a experiência a seguir. A partir de então, o diretor se dedica a tecer lentamente sua história, deixando a imagem entregar os detalhes, ora em planos fixos, ora em movimentos circulares.

É preciso certa condescendência de quem não está acostumado a uma narrativa tão radical porque o diretor quer mesmo que provocar angústia. E se a angústia de Johann já é um incômodo, este incômodo ganha proporções múltiplas da maneira que Reygadas narra. Ética se confunde com religião ao longo do filme, que tem um dos finais mais bonitos e estranhos dos últimos tempos (lembrei particularmente de A Palavra, do Dreyer, apesar de não haver nenhuma relação). Desta vez, o estranhamento funciona. Neste filme, o mexicano marca um ponto e deixa aquele cinema universitário de seu longa anterior para virar um diretor que, como poucos, pretende contar uma história como um cineasta.

Luz Silenciosa EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
Stellet Licht (2007)
Carlos Reygadas

filmes citados:

Batalha no Céu (2005) Estrelinha, de Carlos Reygadas
Japón (2002) EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Carlos Reygadas
A Palavra (1955) EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Carl Theodor Dreyer

posted by Chico Fireman at 04:49:59 | 5 comentários



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Comentários




o único dele que vi foi o batalha no céu, me causou um certo desconforto, mas como eu tava naquela maratona de festival acabei dormindo em certos momentos, fiquei curioso sobre luz silenciosa, vou procurar!
02.06.08 @ 18:45



É bem melhor, Eduardo, mas ainda é um filme que necessita de certa disposição para se acompanhar.
03.06.08 @ 03:11


Acho um filme lindo (malickiano...) e tá brigando com o Quarto do Filho pela vidésima posição no meu Ranking da Liga!
03.06.08 @ 16:22


Rita Natalia
O filme mais estranho que já vi, com uma estética narrativa que não estamos acostumados. Achei parecido com a psicologia dos filmes de Ingmar Bergman. Sera?
28.01.09 @ 09:30


César Henrique
Não gostei. É um filme muito díficil para ser assistido e compreendido, tendo em vista que alguns elementos só captei a partir da leitura desta página.

Isto não significa obrigatoriamente que eu não tenha o "perfil" ou as "características necessárias" para assistí-lo. Simplesmente eu não gostei.

Vamos lá: O filme tem mais de 2 horas, porém se contarmos os diálogos percebe-se que eles não chegam a 30 minutos. As longas cenas do mais puro silêncio (o pôr e o nascer do sol), a frieza dos personagens, entre outras características fazem o filme ser muito desagradável. Se for para dar nota, de 0 a 10 dou 2. Minha opinião.
13.11.09 @ 21:07


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