Sexta, Maio 23
[memórias de um assassino]

Quando foi mesmo que o Brasil descobriu que a Coréia também fazia filmes? Foi entre 2004 e 2005, quando dois cineastas coreanos conseguiram ganhar distribuição comercial com títulos bastante diversos. Primeiro estreou Primavera, Verão, Outono, Inverno... Primavera, obra de gosto duvidoso assinada por kim ki-duk. Meses depois, foi a vez do ótimo Oldboy, de Chanwoook Park, depois de ter feito muitos fãs na Mostra de Cinema de São Paulo, também chegar ao circuito. Desde então, os longas dos dois começaram a ser exibidos em festivais e alcançar um público maior em DVD ou nas salas de cinema.
Em 2006, o Festival do Rio trouxe o melhor filme coreano dos últimos tempos - e o melhor filme feito naquele ano: O Hospedeiro, obra-prima que depois viria a ser exibida em circuito, nos apresentou ao cinema de Bong Joon-ho, outro realizador notável. Num filme de monstro, o coreano conseguiu homenagear o cinema fantástico oriental e fazer um belíssimo drama familiar na mesma medida em que produziu o filme de cunho político mais poderoso em muito tempo, uma alegoria anti-militarista impiedosa, disfarçada como um saboroso filme de ação.
Seu filme anterior, Memórias de um Assassino, é menos pretensioso, embora pretensão pareça o que menos existe em O Hospedeiro. No longa de 2003, Bong Joon-ho se inspira na história real de assassinatos em série para retrabalhar a fórmula de filmes em que policiais de métodos diferentes precisam trabalhar juntos. No cinema norte-americano, mesmo os melhores exemplares deste subgênero raramente conseguem escapar do esquema todos-juntos-somos-fortes, pregando que um pouquinho de violência e métodos fora-da-lei misturados com uma investigação ética, detalhista, inteligente, é a mistura perfeita para colocar um criminoso na cadeia.
Bong Joon-ho muda o foco desde o começo. Ele não está nos crimes, nas vítimas ou na identidade do assassino. O diretor parece estar muito mais interessado em investigar o comportamento dos três homens responsáveis por solucionar o caso. Um é o policial ético, disposto a resolver tudo com provas e testumunhas. O outro é aquele que, na ânsia de encobrir suas limitações e apresentar um culpado, não se esquiva de forjar provas para fazer valer suas teorias ao mesmo tempo que tenta acreditar nelas. E o terceiro é um pau-mandado que usa a violência para se expressar. A edição, segundo o próprio diretor nos extras do DVD, privilegia os dois primeiros, mais antagonistas, digamos assim.
Esta opção de linha narrativa torna o filme muito mais interessante porque Bong Joon-ho não trabalha com juízo de valor. Raramente há confronto entre os modus operandis do trio. O que está em evidência é o impacto que esta caçada provoca na vida dos policiais, levando cada um a sua maneira própria de perder o controle. A obsessão pela resolução do crime, muito mais do que busca por glória, se transforma numa espécie de procura por um ponto final, uma tentativa de redenção, mesmo que não haja pecados explicitados. Trabalhando neste nível, o diretor deixa o cuidado técnico do filme, impecável, em segundo plano. Aqui, o que vale é o humano.
Memórias de um Assassino 



Salinui Chueok (2003)
Bong Joon-ho
filmes citados:
O Hospedeiro (2006) 



, de Bong Joon-ho
Oldboy (2004) 


, de Chanwook Park
Primavera, Verão, Outono, Inverno... Primavera (2003)
, de kim ki-duk
...
Aos poucos, estou atualizando os links para os filmes comentados. Eliminei todos os links para o endereço antigo do blogue para trocá-los para os posts da minha atual casa. Ainda estou na metade do ano passado, mas um dia chegamos lá.
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Apenas Desejando um Feliz Natal para todo Mundo.
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