Quarta, Maio 21
[o sonho de cassandra]

Uma coisa que me causa certa irritação é uma mania meio besta de parte da crítica de procurar defeitos nas obras de diretores consagrados. Woody Allen é geralmente vítima destes ataques. Seu último filme, O Sonho de Cassandra, foi recebido com certo desprezo e comparações exageradas com outros filmes do cineasta. Sem muito sentido já que o longa, apesar de revisitar o tema da culpa e da expiação dos pecados, tem uma abordagem bastante diferente de Crimes e Pecados e Ponto Final, filmes com os quais tem sido associado.
Woody é um dos diretores mais ativos do cinema desde que começou a trabalhar. Nos pouco mais de cinco anos deste blogue, seis de seus filmes chegaram ao circuito brasileiro. Provavelmente foi quem mais estreou no país neste período. Essa produção em série, no entanto, não indica descuidos naquele que é seu forte, o texto. Embora Dirigindo no Escuro seja um passo em falso que antecipava uma fase de discussões e Scoop seja um filme só engraçadinho - algo como uma pausa nesta fase -, o cinema de Woody tem percorrido uma série de questões interessantíssimas nos últimos tempos.
Em Igual a Tudo na Vida está claro que o diretor tenta fazer um herdeiro. O personagem de Jason Biggs, excepcional, é a continuidade para o humor e a angústia pelo mundo moderno que Woody Allen consagrou. Em Melinda e Melinda, estamos diante de uma investigação sobre possibilidades e escolhas, sobre o comportamento humano. Já Ponto Final, que também trata do tema da culpa, é um estudo sobre o amor romântico, seu começo, seu meio e seu fim. O novo O Sonho de Cassandra nos leva a um questionamento sobre nossos limites e como lidamos com eles.
Ewan MacGregor e Colin Farrell são dois irmãos que vivem como podem. Exemplos daquela classe média medíocre retratada pelos cineastas ingleses há tempos. Como seu próprio pai os define, são dois 'bons meninos', que buscam, entre trancos e barrancos, suas pequenas felicidades e que, ao serem confrontados com uma chantagem familiar que pode lhes render calmaria e um futuro melhor, se vêem obrigados a rever seus conceitos éticos. O dilema ganha contornos tensos no filme, que recebeu até uma trilha sonora original, algo raro em Woody, pelas mãos do profeta do apocalipse Philip Glass.
O debate moral dá o tom. De um lado, Ian, o irmão mais cerebral, que imagina, mesmo sem se expressar desta forma, que os fins justificam os meios e que, num comportamento quase que psicótico, passa a acreditar na própria justificativa que criou para ultrapassar seus limites. O personagem de Ewan MacGregor é assustador porque faz com que imaginemos o quão próximos de suas verdades nós já estivemos. Quantas vezes abdicamos de alguns princípios na busca por um objetivo íntimo. Woody perversamente torna mais doloroso o fato de que este é o filho que ajuda o pai no trabalho, o filho mais família.
Em contraparte, Terry, o outro irmão, o mais emocional, é aquele em que conflito ético se torna maior do que qualquer coisa, que não consegue impedir sua culpa de aflorar ao ponto de abalar sua vida. Sua reação ao fato é quase religiosa, no sentido de sua busca da expiação. Este personagem é justamente aquele que seria quase a ovelha negra da história, um mecânico, viciado em jogo, afogado em dívidas. Mas o texto nunca o transforma em vilão e, nas mãos de Colin Farrell, suas contradições se tornam bastante reais e muito mais tocantes.
Esse dueto de reações é o que há de mais interessante em O Sonho de Cassandra porque moram nele as diferenças e convergências do comportamento humano. Os dois irmãos foram criados no mesmo ambiente, pelos mesmos pais, nas mesmas condições, mas descobrem ter visões divergentes do mundo a partir de uma situação extrema. Vez ou outra, para nossa surpresa, somos pegos torcendo para que seu plano dê certo. O que é mais incômodo neste filme é perceber o quão próximo do abismo moral estamos todos nós e o quanto nosso valores podem mudar quando nós temos um objetivo em vista.
O Sonho de Cassandra 


Cassandra's Dream (2007)
Woody Allen
filmes citados:
Crimes e Pecados (1989) 



Dirigindo no Escuro (2002) 
Igual a Tudo na Vida (2003) 


Melinda e Melinda (2004) 


Ponto Final (2005) 



Scoop (2006) 


Um plus a mais: eu bem que estava achando excessiva esta malhação em cima do novo Indiana Jones. O Diego Maia viu o filme e gostou. Os motivos me parecem bem mais interessantes do que os que foram usados nas críticas negativas. Leia aqui e tire suas próprias conclusões.
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Comentários
Grande abraço
E acho Scoop extraordinario justamente por ser engraçadinho apenas.
e gente, a namorada do Ian é linda. ponto.
(Um detalhe: "plus" é uma expressão que significa "algo mais". "Um plus a mais" é, então, uma redundância)
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péssimo 







