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Segunda, Fevereiro 25

[oscar 2008: a noite da coerência?]

Onde os Fracos Não Têm Vez

Todos os anos, um filme ruim, ou pelo menos muito fraco, concorre ao Oscar. Se por um lado, é bem chato ver obras medíocres como Crash (2005) ou Babel (2006) sendo celebradas , a simples presença de um filme controverso entre os finalistas ao prêmio mais badalado do cinema é garantia de discussão, de assunto para se escrever aqui. Num ano como 2007, onde os cinco filmes que disputavam a categoria principal são bons, do que reclamar? Onde os Fracos Não Têm Vez é um filme espetacular, que vai muito além da primeira leitura que pode ter, que conta muito mais do que a história de uma mala cheia de dinheiro. É um filme sobre o tempo, a mudança, a natureza do ser humano. Prêmio justos de filme, direção e roteiro.

Mas qualquer resultado nesta noite teria seus pontos positivos. Sangue Negro era mais explosivo, o que despertou reações contrárias, mas é um filme inegavelmente corajoso, sem concessões. Desejo e Reparação, embora tenha altos e baixos, é uma adaptação belíssima, com momentos geniais sobretudo em seu primeiro terço. Ainda que seja o menos merecedor da indicação, Conduta de Risco é um filme que faz um elogio a um cinema inteligente e elegante de outros tempos. E Juno é surpreendente: um indie sem vícios indies, um pequeno filme maduro, belissimamente escrito por uma estreante (e certeiramente premiado pelo roteiro). Pela primeira vez em muito tempo, uma coleção de filmes bons.

A vitória de Daniel Day-Lewis por Sangue Negro, sua segunda, era uma das mais merecidas da noite, depois de seu Oscar roubado por Gangues de Nova York. Monstruoso, sua performance estava num nível de interpretação superior ao de seus bons concorrentes George Clooney, Viggo Mortensen, Tommy Lee Jones e, mais do que todos, Johnny Depp, em sua primeira grande interpretação. Entre as atrizes, foi maravilhoso ver Marion Cotillard ser anunciada por Piaf, filme que registra sua total simbiose com a personagem. Sem demérito para ótimas performances de Julie Christie, da notável Ellen Page e de Cate Blanchett, mesmo num filme mediano.

Javier Bardem ganhou mais um prêmio coerente por Onde os Fracos Não Têm Vez, em que tem a performance menos óbvia para um assassino em tantos anos quanto eu possa lembrar. Provavelmente só perderia em caso de divisão de votos ou se a Academia quisesse dar um conjunto da obra para Hal Holbrook, correto em Na Natureza Selvagem. Do lado feminino, a falta de favoritismo premiou Tilda Swinton, correta por Conduta de Risco e que terminou sendo, ao mesmo tempo, a maneira de celebrar um filme com muitos fãs e uma atriz de respeito. Se desse Cate Blanchett ou Saoirse Ronan, teríamos belos resultados também. Ainda bem que Ruby Dee não passou do prêmio do SAG.

Na ausência dos principais filmes estrangeiros do ano, a Segunda Guerra ganhou o Oscar de novo. Comentários? Não meus. Ratatouille, adorável, ganhou como animação, embora Persepolis seja mais adorável ainda. Um prêmio justíssimo foi o de fotografia para Sangue Negro, embora esta categoria fosse uma das mais fortes deste ano forte. Todos mereceriam ganhar. Sweeney Todd, um filme injustamente incompreendido, recebeu outro troféu certeiro, o de direção de arte para o genial Dante Ferretti, mas perdeu em figurinos para o pomposo Elizabeth: a Era de Ouro. Um belo trabalho.

Sem ter que concorrer com Sangue Negro, cuja trilha obra-prima foi desqualificada, a bela música de Desejo e Reparação foi o Oscar solitário do filme, que merecia ter tido o diretor e o ator James MacAvoy indicados. A canção de Once, bem bonitinha, derrubou as três de Encantada, que tinha duas muito boas. Sem concorrentes muito fortes, Piaf conseguiu um merecido Oscar de maquiagem. Bastante justo já que ela é essencial ao cerne do filme. O melhor filme de ação dos últimos tempos, O Ultimato Bourne, teve um desempenho notável em categorias técnicas, ganhando em montagem, mixagem e edição de som, desbancando favoritos. Transformers foi desbancado surpreendentemente por A Bússola de Ouro entre os efeitos visuais, talvez a maior injustiça do ano. Mas injustiça aqui?

Ah, e Michael Moore não ganhou em documentário. Ainda bem porque toda vez que eu vejo ele falando, eu sinto vontade de ser republicano. E aí já é demais...

posted by Chico Fireman at 02:50:38 | 12 comentários



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Comentários




Ricardo Oliveira · http://www.diversita.blog.br
Acho que se a gente escuta aquelas músicas de Encantada (não vi o filme) na noite do Oscar a gente começa a se perguntar porque Sweeney Tood não concorreu ali. O Oscar é cheio dessas perguntas sem resposta, mas acho que a música da tortas de Mrs. Lovett valeria.

Pra mim a pergunta que não quer calar e expressei isso lá no blog é sobre aquela situação bizarra nos indicados a documentário de curta-metragem. Numa cerimônia do Oscar aparecessem soldados americanos direto do Iraque?!
25.02.08 @ 11:26


Achei o Oscar desse ano bastante coerente e justo. A única possível injustiça foi a bússola de ouro ter vencido transformers. Não sei se daria o prêmio à Tilda Swinton, mas entendi esse Oscar como uma forma de premiar Conduta de Risco, que é um bom filme e que, não fosse por isso, sairia da cerimônia de mãos vazias.
25.02.08 @ 11:46



Ricardo,tem resposta, sim. As músicas de Sweeney Todd não são originais e, portanto, eram inelegíveis.
25.02.08 @ 12:53


Márcio Teruel · http://www.mteruel.zip.net
Parabéns pelas ótimas palavras. Coerente como o Oscar, mas acho que em duas questões, onde diz que Jhonny Depp em seu 'primeiro' trabalho bem executado e em dizer que duas canções de Encantada que diz ser belas... Isso é impressionante, pois muita falta de opção em canções teríveis e cansativas.
Belas palavras e estarei sempre por aqui para ler suas palavras e opiniões.
25.02.08 @ 13:39



Bem, meu texto sobre 'Sweeney Todd' diz o que eu penso do Johnny Depp. E eu gosto muito de 'Happy Working Song', de 'Encantada'.
25.02.08 @ 14:08


Claudia Florindo · http://www.kinguer.com
Parabéns, achei também o oscar desse ano maravilhoso, valeu
25.02.08 @ 15:02


Chico,
foi mesmo a melhor cerimônia _ em termos de resultado _ em anos. Mas ainda tem seus deslizes. Por exemplo, Tilda Swinton: acho ela correta em "Conduta de risco" e só. Cate Blanchett merecia mais. "Juno" ganhou o que podia ganhar, porque ter sido indicado a filme e direção, putz!. Mesmo o roteiro, sei não. Tudo é tão perfeito naquele caos, tudo vai dando tão certo. E a maturidade emocional da personagem-título? Só se for num mundo ideal, porque no mundo real, passa longe. Não sei... não me convenceu não.

Abração
25.02.08 @ 17:56


"Ah, e Michael Moore não ganhou em documentário. Ainda bem porque toda vez que eu vejo ele falando, eu sinto vontade de ser republicano. E aí já é demais..."

MUITO BOM SEU COMENTARIO!!!

25.02.08 @ 22:37


COmo disse o Inácio Araújo, e concordo com ele, só havia um filme concorrendo mesmo, porque todos viam Onde Os Fracos Não Têm Vez de luneta, dada a disparidade entre eles. Eu gosto da Tilda Swinton no filme, aliás gosto do Michael Clayton, dos "outros" acho o mais interessante. Só que a Cate Blanchett era realmente espetacular.

A injustiça de verdade foi I'm Not There ficar de fora das indicações principais, mas aí é outra coisa...
02.03.08 @ 23:32


Acho Sangue Negro superior a Onde os Fracos, mas gosto de ambos e adorei ver os Coen recebendo o prêmio. Quanto a Juno e Atonment, vejo problemas nos dois. Em Juno eu vejo uma direção comum, desinspirada, normalzíssima e nem tão esmerada assim (como disse em meu blog, um a TREMENDA sessão da tarde. E só. Inclusive, tem alguns contraplanos com o plano de fundo estourado... coisa de fotógrafo incompetente. Não devia nem ter sido indicado!).

Já Atonement, embora elegante e tudo, a meu ver peca por duas coisas: uma é o tom de algumas cenas, forçadamente melodramáticas, mexicanas mesmo. Outra é o final, que comete um crime sério: engana o espectador.

Achei Conduta de Risco impecável, não entendi pq o colocou no segundo time. Roteiro interessante, que surpreende, direção seguríssima, atuações sólidas.

Tim Burton está mesmo sensacional em Sweeney Todd, só discordo mesmo é de sua surpresa... pra mim ele é grande há muito tempo.

Enfim... esse ano o Oscar foi dos bons filmes, e estou feliz com isso.

Até!
06.03.08 @ 15:24


Acho também que Eastern Promise, do Cronenberg, merecia ter recebido mais atenção. Seria mais do que justo ele chutar JUNO pra fora dos indicados a melhor filme...
06.03.08 @ 15:27


"Tim Burton está mesmo sensacional em Sweeney Todd," --> eu queria falar Johnny Depp!!
07.03.08 @ 10:47


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