Sábado, Fevereiro 16
[sangue negro]

Não há palavra possível para descrever a luta do homem contra a natureza, explica Paul Thomas Anderson. Os primeiros minutos do filme, que o silêncio parece multiplicar, são de demonstração de força, da selvageria como meio para a civilização. O embate é árduo e lento, mas o homem sempre vence em troca de algo muitas vezes chamado de humanidade. O prólogo de Sangue Negro, concebido num misto de ousadia formal e classicismo temático, é uma porta de entrada coerente para o filme que vem a seguir, que traça a trajetória de um homem que se deixou corromper.
Para Anderson, mais do que um personagem perverso, Daniel Plainsview foi um homem talhado na mesma pedra em que buscou petróleo. É como aquele velho conceito de produto do meio. Dominar o ambiente o fez assumir uma natureza interior completamente sua. Com essa natureza, não há luta. Há uma cena que mostra sua lógica quase infantil: Plainsview e o filho aguardam seu almoço quando um concorrente que havia tentado comprar seus poços entra no restaurante. O protagonista, que àquela altura tem exatamente tudo que podia, não se controla até humilhar o adversário apenas para se assegurar de sua superioridade.
O filme respeita essa condição do personagem e o faz ressonar em sua própria estrutura quando toma para si a opção de praticamente só enxergá-lo em detrimento de tudo o que está em volta. Então, podemos falar de um filme que toma partido. Uma decisão radical e arriscada, que concentra a responsabilidade pelo filme nas costas de Daniel Day-Lewis. A performance do ator é devastadora, dona de uma potência para o pavor que falta em filmes de terror, mas que mora na dubiedade nas cenas de demonstração de afeto para com o filho de Plainsview.
Nessa relação de pai e filho mora grande parte da riqueza do roteiro. Se Plainsview é assumidamente um homem brutal e de poucos escrúpulos, é com seu filho que ele supre sua necessidade de demonstrar e receber carinho. Mas, ao mesmo tempo, não há pudores em usar o garoto como espelho de um homem de família ou como escudo para os ataques de seus adversários. Dillon Freasier, a princípio um menino sem expressões, impressiona com a coerência e maturidade como defende seu personagem. É a extensão adversa de Plainsview, a metástase que não deu certo.
Mesmo dominando o filme, Day-Lewis ainda abre espaço para uma performance surpreendente de Paul Dano. A primeira cena em que Eli aparece na tela é simples: uma apresentação e um aperto de mão. Foi o suficiente para eu me emocionar. Sutil, o ator cresce aos poucos sempre seguro de até onde pode ir. E mesmo quando sentimos falta de uma voz mais grossa ou de alguém mais corpulento, Dano não decepciona. A cena do batismo, a mais forte do filme provavelmente, é escandalosamente boa, com um duelo dos mais fortes dos últimos tempos.
É também o filme em que Anderson demonstra maior controle de sua equipe técnica, com colaboradores em momentos iluminados. A fotografia que tenta abraçar a imensidão do cenário, o som é competentíssimo, mas o que mais chama a atenção é a trilha sonora genial de Jonny Greenwood, uma obra-prima, que vai do atonal ao melódico, como o embalo incômodo mais harmônico para uma história onde o exagero domina, onde a escolha é ser radical, onde o risco é assumido sem culpa. Em sua exaltação ao excesso, Paul Thomas Anderson fez seu melhor filme.
Sangue Negro 



de Paul Thomas Anderson
There Will Be Blood, EUA, 2007. Roteiro: Paul Thomas Anderson, baseado no livro Oil!, de Upton Sinclair. Fotografia: Robert Elswit. Montagem: Dylan Tichenor. Desenho de Produção: Jack Fisk. Figurinos: Mark Bridges. Produção: Paul Thomas Anderson, Daniel Lupi, JoAnne Sellar.
Elenco: Daniel Day-Lewis, Dillon Freasier, Paul Dano, Ciarán Hinds, Kevin J. O'Connor, Paul F. Tompkins, David Willis, Sydney McCallister.
Posts similares:
"Sangue Negro" e "Onde os Fracos Não Têm Vez"
A homenagem de Daniel Day-Lewis a Heath Ledger
O Mundo de Jack e Rose
Comentários
(Pro Oscar, torço pros Coen. Difícil falar de graus de brilhantismo, mas o No Country, é sim, mais brilhante, genial.)
fazendo uma comparação (que mtas vezes são injustas, simplesmente pq não é possível a avaliação dessa maneira), acho que gostei mais de sangue negro do que "onde os fracos...."
brilhantes estão daniel e javier.
vale demais.
Acredito que o fim foi um break, fantástico, sarcástico, foi tudo.
Bjs,
Thalya Isa
Deixe aqui seu comentário:


péssimo 







