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Sábado, Fevereiro 9

[sweeney todd]

Sweeney Todd

Chegou o momento de uma confissão, algo escondido lá no fundo que agora precisa ser revelado: eu nunca gostei muito do Johnny Depp. Ícone de uma geração, da minha geração, esse ator atravessou duas décadas alimentando um mito de outsider que abafava a maneira caricata como interpretava. Sua canastrice nunca me convenceu. O tom farsesco e afetado que ele resolveu adotar para sempre me incomoda e, a meu ver, só funciona de verdade em dois filmes. Filmes que permitem esse exagero e essa superficialidade. Um deles é o belo Ed Wood, onde a afetação ganha ares de homenagem e reverência, e o outro é a comédia boba Don Juan de Marco, cujo personagem é um Munchausen que vive imerso em seu próprio universo de mentiras. O melhor Depp até hoje.

Até hoje.

Já na primeira cena de Sweeney Todd, o ator se revela diferente. Os elementos que o fizeram famoso estão todos lá, mas, desta vez, nos lugares e nos tons certos. Mas o que mais impressiona é que Depp, afeito à brincar de interpretar, escolhe soluções mais maduras para cada uma de suas expressões. Duvidei a cada minuto que ele fosse segurar a onda durante todo o filme. Estava enganado. Johnny Depp está genial como Sweeney Todd. Finalmente, um ator de verdade. O maior reflexo disso é que os atores que o cercam e que ancoram seu personagem também se vêem desobrigados de perseguir a afetação. Helena Bonham Carter é quem mais encanta, num papel que é um misto dificílimo de vilã e mulher apaixonada, com direito a uma ‘escolha de sofia’. A seqüência em que seus sonhos vêm à tona é deliciosa, o ‘momento sunshine’ do filme.

‘Sunshine’ porque Sweeney Todd é um filme literalmente nascido nas trevas. A fotografia preta, que no começo incomoda pelo ‘excesso de maquiagem’ se revela um suporte óbvio para a incursão de Tim Burton no universo musical de Stephen Sondheim. Incrível como dois autores tão à parte conseguiram encontrar tantos pontos em comum em suas obras. Sondheim, usando a mesma técnica de composição que lhe encheu os bolsos, em versão dark se transformou num irmão gêmeo para Burton. Num filme musical - literalmente já que os atores cantam em 90% das cenas -, Tim, pouco amigo do realismo, do naturalismo e da verossimilhança, encontrou seu mundo fantástico mais uma vez. Ou o ajustou para algo próximo a isso. E aqui ele deita e rola.

Sweeney Todd é bem menos arriscado do que o que se costuma esperar dos filmes de Tim Burton. Com a base sólida do musical original e um elenco muito à vontade, sua direção cresce, amadurece e o cineasta passa a trabalhar hum patamar, digamos, menos infantil, e mais sério. Algo como o que aconteceu com Pedro Almodóvar a partir de A Flor do Meu Segredo. Ele respeita toda sua bagagem e, experimentando menos, aprimora seus pontos fortes. Da mesma maneira que a interpretação de Johnny Depp aqui não tem par, o filme ganha uma consistência até então inédita na fimografia de Burton. Talvez seja sua obra-prima, mas algo me diz que ele ainda vai além.

Sweeney Todd: o Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet Uma estrelaUma estrelaUma estrelaUma estrela
de Tim Burton
Sweeney Todd: the Demon Barber of Fleet Street, EUA/Grã-Bretanha, 2007. Roteiro: John Logan, baseado no musical de Stephen Sondheim e Hugh Wheeler. Fotografia: Dariusz Wolski. Montagem: Chris Lebezon. Música: Stephen Sondheim. Desenho de Produção: Dante Ferreti. Figurinos: Colleen Atwood. Produção: John Logan, Laurie MacDonald, Walter Parkes e Richard D. Zanuck.

Elenco: Johnny Depp, Helena Bonham Carter, Alan Rickman, Timothy Spall, Ed Sanders, Jamie Campbell Bower, Jayne Wisener, Sacha Baron Cohen, Laura Michelle Kelly.

posted by Chico Fireman at 05:59:20 | 24 comentários



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Comentários




Andrizy
E eu todos esses anos me sentindo uma ET pelo fato de achar que era a única que não ia muito com a cara do Superestimado Johnny Depp. Ainda não vi Sweeney Todd, mas também não sou grande fã do Burton
09.02.08 @ 11:57


Eu gosto dos trabalhos do Johnny Depp. Achei Sweeney Todd sensacional.
09.02.08 @ 13:01


Excelente filme mesmo. Concordo com cada palavra sobre o Depp, talvez a sua melhor atuação, fantástico.
09.02.08 @ 15:33


Chico, que texto bom, querido.

Vejo o filme hoje de noite.
09.02.08 @ 17:53


layo
Eu tb nunca gostei muito do JD e do Tim Burton. Mas gostei do filme, bem mais do que eu esperava. Porém, acho que poderia ser melhor, principalmente com alguns acertos no roteiro - o argumento em si já vale a ida ao cinema.
10.02.08 @ 01:28


E a Helena, Chico, O que vc achou?
10.02.08 @ 03:19



Andrizy, não se sinta só, mas o Depp, agora, está genial.

Depois me conta, Junior.

Eu gostei bastante do riteio, Layo. O que te incomodou?

Marfil, eu escrevi sobre a Helena no texto.
10.02.08 @ 04:40


Layo
Não gostei do personagem do jovem marinheiro e do romance dele com a menina. O enredo é ótimo para um musical tragicômico, mas achei que o roteiro tornou o filme arrastado no início, principalmente ao apresentar a história. Não sei... achei o filme meio engessado em alguns momentos. Se por um lado é bom por trazer ao filme um aspecto tradicional/clássico, por outro cansa por uma estrututa demasiadamente teatral. Não sei... foi o que senti.
11.02.08 @ 09:50


Chico, eu vi... Quando começam as votações para o próximo Alfred? Ele entra em váááárias categorias. Mas recado para quem baixou ou vai baixar: é para ver na tela grande.
11.02.08 @ 14:14



Sabia que estaria do lado certo da Força, Jr.!

Layo, o marinheiro e a menina são um adorno, um detalhe, eu nem pensei neles ou na relação deles. Para mim, o que importa são os personagens de Depp e Helena. No mais, é uma estrutura de musical da Broadway. Nem todos gostam mesmo. Mas não me cansa.
11.02.08 @ 17:05


nao gosta do depp??
Mata, mata, mata!!!
sacrilegioooooooo
rsrsrsrsrsrrs
11.02.08 @ 22:25


Acho que sempre gostei de Depp... e preciso ver esse filme!
12.02.08 @ 00:37


Tô contigo, Chico, grande filme do Burton. Só achei a conclusão um pouco apressada, mas nada que comprometa o resultado final.
12.02.08 @ 02:34


Márcio Teruel · http://www.mteruel.zip.net
É legal ver mudanças de pensamentos de acordo com o trabalho do ator... Johnny Depp é genial, e isso não entra em questionamento. Pois como vê, até mesmo quem não apreciava acaba aceitando que realmente suas qualidades é imbatível.
Enfim, assim como neste filme, que ainda não tive a oportunidade de ver, acho que em Janela Secreta ele foi simples e bastante eficiente sem mudar drasticamente seu personagem como em outros filmes.
13.02.08 @ 11:59


Márcio, eu não voltei atrás no que eu pensava do Johnny Depp. Gosto dele em poucos filmes. Em "Sweeney Todd", pela primeira vez, vi um grande ator.
13.02.08 @ 13:52


Andrizy
Em Janela Secreta, pelo menos na minha opinião ele não foge muito do que o Chico falou. Na verdade, eu não gosto muito do filme em si, cujo o final é possível farejar já na metade. Quanto a eu não ir muito com a cara do Depp... A princípio, eu acreditava que o Depp fazia o estilo quero-ser-cool, fugindo de certos estereótipos hollywoodianos unicamente para fortalecer essa imagem, mas hoje eu vejo que o maior problema mesmo está nesse mito que criaram em torno da figura dele. Por isso eu o considero superestimado. E concordo com o Chico quando ele fala sobre o tom farsesco afetado. Mas sempre acreditei que se ele fosse menos caricato poderia entregar uma boa atuação. Vamos ver com Sweenwy Todd, ainda preciso ver o filme.
13.02.08 @ 14:46


Seria muito, muito melhor se não tivesse música. É o tipo de música que não joga o filme para frente, e deixando ele estático, não dá em troca nem dinâmica nem sentimento. O resumo disso tudo é a cena da raiva, Depp correndo pelos becos pedindo pescoço. Quando o número acaba, HBC olha com aquela cara de "e daí?". Perfeito. E daí? Pra quê?

Se vc tem música, a palavra não pode ser suficiente, mas em ST, ela basta. A música é só excesso (Excesso diferente das maluquices de Burton, claro). Com exceção da meia hora final, zzzzzzzzzzzzzz.
13.02.08 @ 15:55



Saymon, discordo radicalmente de vc. O filme só existe por causa da música.

Andrizy, "Janela Secreta" é mesmo um lixo.
13.02.08 @ 18:09


Bom, talvez eu reveja. Mas, por mais que me digam que Sondheim é genial, talvez a mistura de gótico e musical tenha me lembrado... Andrew Lloyd Webber?

Mas, pensando bem, sem exageros, cortava a música da introdução da HBC (inútil), a da garota na janela (besta) e tirava as musiquinhas diálogo.

Musical com música demais, a não ser que tenha sentimento de sobra em sintonia com as canções (um Demy da vida), acaba aborrecendo. A m´suica tem q ser clímax, não rotina. Quer dizer, vem uma música chata (poor thing), q quando chega a música boa a gente já está de saco cheio.

14.02.08 @ 14:52


Achei Sweeney Todd sensacional, mesmo. Uma obra completa, um bloco impressionante de coerência trágica e maestria artística. Só discordo da crítica ao Depp: acho que ele sempre foi bom, você é que não reparou! Escrevi sobre o filme também, mas partindo de um comentário mais a respeito da construção formal... o texto está em meu blog, convido-o a uma visita. um abraço.
15.02.08 @ 07:58


Ingrid
eu sempre gostei do Depp, e realmente em sweeney ele se superou! A Helena também fez uma atuação excelente. Eu achei muito boa a combinação dos dois atores, o Tim soube trabalhar direitinho! hehe =D
Gostei muito do seu texto.
22.02.08 @ 21:13


jordi labanda
fala serio ñ gostar do depp é dose + tudo bem cada um tem a sua opinião e olha dom juar de marco ñ é comédia ñ tá. e os filmes do tim tambem são bem legais cheios de imaginação.
24.05.08 @ 21:44


O filme é incrivel!!!!
O johnny alem se atoar maravilhosamente ,canta muito
kii voz kii ele temmm...meuu déé'ls
alem de ser lindo!!
23.06.09 @ 16:32


Jéssica Coutinho
Chico,
descordo de vc em algumas coisinhas. Johnny Deep, é um ótimo ator. Só q eum cada filme ele parece um Deep diferente. Percebe isso por seus ultimos filmes..

De restante, concordo plenamente...a montagem..maquiagem...tudo perfect!

01.07.09 @ 10:58


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